Alguns segredos da arte da memória

 

Por Heloisa Prieto

 

“Uma máscara é mais reveladora do que uma face.” (Oscar Wilde)

 

O Príncipe feliz e outros contos, escrita por Oscar Wilde, nascido na Irlanda, reunia histórias que ele ouvira de sua mãe, exímia narradora, quando menino. Sua intenção ao resgatá-las foi compartilhá-las não apenas com crianças, mas também com todos os que conseguissem guardar a alegria e a capacidade de maravilhar-se da infância. Ele gostava de fazer leituras dramáticas dessas lendas milenares, levando suas plateias às lágrimas. Estivesse ele na Irlanda natal, em Londres ou Paris, o próprio Wilde sempre se emocionava ao narrar os contos que ele definia como “estudos em prosa”.

A coletânea em questão apresenta narrativas de reconto, nas quais se preserva enredos da tradição oral, embora a voz do narrador imprima um tom de intensa ternura e sabedoria. Já em outra obra-prima, O retrato de Dorian Grey, Wilde se apropria de lendas medievais segundo as quais as pessoas vendiam a alma ao demônio em troca de eterna juventude. A saga de seu anti-herói em busca de celebridade pode ser considerada como a grande metáfora da contemporaneidade. “Apenas as pessoas fúteis não julgam pelas aparências!” Utilizando um fragmento da lenda de Fausto, justamente a “comercialização” da alma, Wilde extirpa o personagem do diabo e transforma a busca da imagem perfeita em pesadelo numa obra gótica que prenuncia a sociedade do espetáculo e o culto às superficialidades.

 

Ilustração Marcelo Tolentino

 

Finalmente, em O Fantasma de Canterville, uma de suas obras de minha predileção, Wilde inspira-se em aterrorizantes lendas de assassinatos secretos em antigos castelos, segundo as quais corpos seriam enterrados entre as paredes. Inesperadamente, o fantasma a vagar entre os mundos é o mais encantador dos personagens. A profunda e inesperada amizade entre esse ser do além e as crianças tornarão possível sua libertação. Aqui, Wilde surpreende o leitor com a ironia de um final feliz, rompendo com o previsível tema da herança maldita a perseguir moradores de um local mal-assombrado. 

Como recontar uma lenda predileta?

O desejo de narrar pode surgir de um momento de nostalgia, quando queremos recapturar o prazer da escuta de uma boa história narrada por uma voz querida, por exemplo. Nesse caso, a preocupação pode ser a fidelidade ao primeiro contato com a narrativa em questão. No entanto, lendas são criaturas fugazes, um tanto rebeldes, que nem sempre se acomodam ao comando de nossas vozes.

Já vi casos opostos, em que escritores pensam escrever algo totalmente inédito para se dar conta de que, afinal, teriam se inspirado em narrativas soterradas nas memórias de infância. Revelar-se, ocultar-se, disfarçar-se, expandir-se, diminuir-se, essas são algumas das propriedades das histórias legendárias.

A escolha da narrativa em si pode ser um processo de autodescoberta, no qual a máscara, ou a narrativa preferida, pode dizer muito a nosso respeito. Finais felizes? Histórias macabras? Contos de encanto? Humor? Tragédias? Lendas urbanas? Uma lenda pode refletir nossas dúvidas e segredos estabelecendo uma relação de confidência velada com os leitores.

Após definir a história a ser narrada, é fundamental a permissão para que ela mesma se desdobre por meio de nossa imaginação. Ítalo Calvino, outro narrador memorável, afirma que a “verdadeira moral de uma história reside nas variações sobre um tema, quando o narrador, na verdade, fala “daquilo que lhe vai no coração”.

Uma história bem contada alça voo e foge do papel, das telas, das vozes, como os cavalos criados pelo lendário pintor chinês, Wang Fo, que tive o prazer de recontar em Lá vem história. As diversas interpretações que nascem a cada leitor confirmam essa metáfora de liberdade criativa. Muitas tem sido minhas surpresas ao longo dos anos, sempre que converso com os leitores e descubro novas tonalidades para “minhas” histórias em pleno exercício de leitura autoral, cocriativa.

Recentemente, passei a me perguntar se o leitor escolhe as histórias ou se acontece o contrário. Outro renomado escritor irlandês, Bram Stoker, criador do Drácula, o vampiro mais famoso de todos os tempos, pensava fazer uma junção entre um aristocrata decadente e uma lenda do leste europeu. Fato é que ele foi tão bem-sucedido na composição de seu personagem que o vampiro até hoje habita confortavelmente todos os suportes narrativos jamais inventados.

Se uma lenda nos escolhe e passa a nos habitar, ela naturalmente buscará seus próprios caminhos. Um conto? Um romance? Uma peça de teatro? Um seriado de TV? Uma novela? Um longa-metragem? Onde cabe uma ótima história?

Impossível capturar totalmente uma boa narrativa. O segredo de narrador reside justamente na humildade de saber-se apenas um local de pouso. Mas é a partir da sincera acolhida de um conto ou de um personagem aparentemente estranho ou esquecido que muitas novas aventuras surgirão. Talvez pelo fato de se localizarem num espaço atemporal, bibliotecas, arquivos acadêmicos, literários, ou mesmo familiares e afetivos onde se conserva a arte da memória, uma boa história sempre parece apresentar um aspecto misteriosamente premonitório.

Oscar Wilde talvez jamais pudesse ter imaginado a relevância desse lindo trecho de sua obra-prima tantos anos após sua morte: “E as árvores ficaram tão felizes com a volta das crianças que suas copas se cobriram de flores enquanto balançavam seus braços gentilmente sobre as cabeças dos pequenos”. (O Príncipe Feliz e outras histórias)

 

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Bibliografia

Wilde, Oscar – A pocket biography of Wilde –Fiona Biggs, Gill Books, Dublin, Irlanda. 2018

The Wit of Oscar Wilde, Sea McCann, The O´Brien Press, Dublin, Irlanda, 2017.

Calvino, Italo – Fábulas Italianas, (tradução Nilson Moulin), companhia das letras, SP, 1992.

Lá vem história, Prieto, Heloisa – Companhia das letrinhas, SP, 2016

The Happy Prince and other tales – Oscar Wilde, Dover Children´s – 2003 Londres Reino Unido.

The Canterville ghost – guttenberg files.  

 

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Heloisa Prieto escreve e traduz, tem 75 obras publicadas, a maioria delas pela Companhia das Letrinhas, tais como Lá vem história, Mil e um fantasmas e O estranho caso da massinha fedorenta. Pesquisadora de mitos e lendas de diferentes países, é mestra em comunicação e semiótica (PUC) e doutora em literatura francesa (USP). Tem obras adaptadas para a TV, o cinema e o teatro.

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