A vida, a obra e o mundo de Lina Bo Bardi

A biografia ilustrada Lina: aventuras de uma arquiteta, que acaba de ser lançada no Brasil pela Pequena Zahar, foi criada pela artista espanhola Ángela Léon. Como a arquiteta Lina Bo Bardi, que teria feito 106 anos em 5 de dezembro, Ángela sempre desenhou, gosta de arquitetura e de pensar nos usos que as pessoas fazem das cidades e já morou um tempo no Brasil.

Em conversa por e-mail com o Blog, ela contou sobre suas inspirações e o processo criativo do livro, que traz detalhes da vida da arquiteta italiana que escolheu o Brasil para viver.

Além da vida e da obra da criadora do Masp e do Sesc Pompeia, a biografia apresenta ainda uma riqueza de informações sobre o mundo que Lina Bo Bardi conheceu - com direito à política italiana e brasileira, à luta pelos direitos das mulheres e até ao estilo dos chapéus que se usava em 1914, ano do nascimento da arquiteta.

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Capa de Lina: aventuras de uma arquiteta, da Pequena Zahar

Seu livro apresenta muitas informações e muitos detalhes, tanto sobre a vida de Lina quanto sobre o contexto histórico em que ela viveu. Quanto tempo você levou para fazer a pesquisa do livro? Ela foi feita no Brasil e na Itália?

Eu passei, mais ou menos, quatro meses no total pesquisando e lendo sobre a Lina, mas também sobre o contexto. Gosto muito de procurar detalhes de outras épocas, em geral. Com o livro da Lina passei muito tempo pesquisando detalhes, desde as roupas até a publicidade luminosa da praça do Duomo, em Milão, na época em que ela chegou à cidade. Acho que pesquisar é a parte que eu mais gosto, uma coisa te leva a outra… E no final me perco tanto em detalhes que às vezes esqueço o que estava procurando inicialmente.

O livro foi feito para uma editora italiana e comecei trabalhar lá, em Milão. Pensei em como teria sido a experiência da Lina quando morou lá, o que me fez lembrar dos desenhos do Saul Steinberg dessa época, quando ele também vivia em Milão... Nesse momento, tinha uma mostra sobre a Lina na Nilufar Gallery e me deixaram ver números originais das revistas nas quais ela trabalhou antes de ir pro Brasil. Depois eu vim morar na Espanha, e a parte mais intensa de trabalho foi feita aqui, em Madri. Inclusive também teve outra exposição da Lina em Madri justo nessa época, e tive a oportunidade de conhecer o Marcelo Ferraz, seu colaborador, no vernissage.

Mas claro, meu contato com a obra da Lina, quando morei em São Paulo, foi fundamental. É impossível entender de verdade os espaços sem ter ficado neles, saber como você se sentiu estando lá: as escalas, os detalhes, a luz, inclusive em diferentes momentos do dia, o som, a temperatura… E falo da temperatura porque, tanto na sua casa, como no Sesc ou no Masp, sendo espaços tão abertos, eu os associo com passar um pouco de frio. E penso que isso também faz parte da personalidade de Lina, com ser uma mulher um pouco dura, mas que, ao mesmo tempo, tem detalhes amorosos, como a lareira do Sesc. E claro, também é muito importante a atmosfera humana, os usuários dos seus projetos públicos.

Ilustração de Ángela Léon para o livro Lina: aventuras de uma arquiteta

Você conta no livro que a Lina não gostava de ser pequena. Como você descobriu essa vontade dela de ser grande?

Eu li no livro editado pelo Instituto (Lina Bo Bardi, Instituto Bardi/Casa de Vidro e Romano Guerra Editora) uma afirmação da Lina: “Eu nunca quis ser jovem. O que eu queria era ter história”. E, segundo o livro do Zeuler Lima (Lina Bo Bardi, Yale University Press), ela parece ter sido uma criança melancólica e ansiosa… Pelas inquietudes que ela tinha, eu a imagino impaciente por viver muitas coisas e poder contá-las.

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Assim como a Lina, você também veio da Europa para o Brasil e se interessa pelos usos que as pessoas dão às cidades, por como eles podem ser transformadores. Você também é um pouco arquiteta? Foi daí que surgiu a ideia de criar uma biografia ilustrada sobre a Lina Bo Bardi?

Sempre gostei de arquitetura, desde criança, mas acabei estudando design industrial… Aos 8 anos desenhava muito cidades e até projetos de casas. E tenho me relacionado bastante com arquitetos… Não sei se me sinto arquiteta, mas penso muito em arquitetura. Não somente sobre o que estou vendo, mas também sobre possibilidades para as cidades, para espaços, usos… Meu livro anterior, o Guia fantástico de São Paulo (Editora Lote 42, 2018) trata um pouco sobre isso.

A ideia de fazer um livro de arquitetura para crianças foi da editora italiana de literatura infantil Topipittori. Eu estava morando em Milão e tinha acabado de ilustrar um livro para eles sobre a cor verde na história da arte. Quando fui pegar meus exemplares, a Giovanna me disse que não tinham nada no catálogo sobre arquitetura, que deveríamos fazer um livro e que nesse momento tinha uma mostra linda sobre uma arquiteta italiana que tinha trabalhado no Brasil. Quando eu perguntei se era uma mostra sobre a Lina e ela me disse que sim, acho que meu entusiasmo foi suficiente para convencê-la. Dias depois percebi que eles tinham me pedido apenas para ilustrar o livro, mas eu estava tão envolvida pessoalmente com o projeto que me ofereci para escrever o texto, e eles aceitaram minha proposta.

Por que você escolheu a forma do livro informativo ilustrado voltado ao público infantil?

Como eu disse, não fiz a proposta e foi muito legal, porque nunca teria imaginado que, estando na Itália, iam me pedir pra fazer um livro sobre a Lina para crianças. Foi uma enorme surpresa e um sonho. Além disso, eu acho muito complexo escrever uma biografia, mas, sendo para crianças, senti que podia fazê-lo. Me permitiu ser simples, valorizar a clareza… Além do que eu gosto de didática, e tentei ser também.

A pesquisadora Ana Paula Campos diz que os livros informativos para crianças querem mesmo é “compartilhar a curiosidade e o entusiasmo pelas coisas do mundo” e que podem ter “fugas poéticas” - o uso de recursos literários para aproximar e emocionar o leitor. Como é para você esse “casamento” entre informação, ilustração e linguagem literária?

Acho muito bonita a afirmação da Ana Paula e esse é exatamente meu objetivo em geral nos meus projetos, transmitir entusiasmo pelo que estou contando. A riqueza do conteúdo é o fundamental, e minha intenção com a linguagem é procurar leveza e alguma poesia, enquanto ofereço certa densidade de informação. Eu não tenho muita experiência nem escrevendo nem desenhando, então, por enquanto, preciso das duas linguagens para fortalecer a mensagem. Sinto muita conexão com o trabalho da Maira Kalman, é uma grande influência para mim. Seus desenhos dialogam muito bem com a sua forma de se expressar, ela transmite amor pelo que conta e delicadeza, mas também muita alegria, sem ser superficial.

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O Masp no livro Lina: aventuras de uma arquiteta

Não é simples alcançar a simplicidade objetiva e sensível que você conseguiu com a biografia. Como foi seu processo de criação?

Como admiro muito o trabalho da Lina, refleti sobre qual era a essência do que eu queria contar, como transmitir essa admiração, onde focar a atenção. Pesquisei e acumulei bastante informação. Tinha tantas coisas que eu achava interessantes que não foi fácil… Ao mesmo tempo, ia desenhando, experimentando, até encontrar a técnica e a linguagem gráfica pro livro. Os desenhos da Lina e a alegria das suas aquarelas me influenciaram, assim como a Maira Kalman… Também fui escrevendo, procurando clareza, e aos poucos descobri a estrutura narrativa do livro. Ou seja, ia fazendo de tudo um pouco ao mesmo tempo.

E teve um acontecimento importante durante o processo de fazer o livro: a vitória do Bolsonaro e tudo o que ele representa. Fiquei tão chocada e preocupada que subitamente a dimensão política da vida da Lina cresceu em importância. Imaginei ela num momento cultural assim… E creio que essa reflexão contribuiu positivamente para o livro. Reparei mais nas limitações que ela teve por conta dos momentos políticos que viveu, visualizei o contrapeso às aspirações de liberdade e criatividade da Lina. Tive algumas dúvidas por ser um livro pra crianças, mas tudo fazia sentido na minha cabeça, então tentei explicar tudo da forma mais simples e acessível. E procurei um equilíbrio com detalhes alegres, como os sabores de sorvete do Nordeste. Esses detalhes mais sensoriais, como a feijoada que ela e o Pietro comeram quando chegaram ou os passarinhos que tinha em volta da sua casa, me parecem muito importantes, é um recurso para construir essa atmosfera mais gentil.

Por fim, qual obra da Lina você mais gosta?

Eu não conheci até agora nada como o Sesc Pompeia. Pra mim é o modelo do que deveriam ser os equipamentos públicos. Acho que a proposta da Lina e sua sensibilidade combinadas com o Sesc, uma instituição cultural com fins sociais que admiro muitíssimo, é perfeita. Acho uma combinação ideal.

Ilustração do Sesc Pompeia para o livro Lina: aventuras de uma arquiteta

 

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