A resistência dos territórios de leitura

Resistir, re-existir. É assim que uma das palestrantes do fórum Territórios de sobrevivência define a necessidade de ação na promoção da leitura no Brasil, país em que o brasileiro lê cerca de 5 livros por ano, segundo a quarta edição da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, de 2016. Organizado pelo Espaço de Leitura, o encontro acontece hoje e amanhã (dias 19 e 20 de outubro), no Parque da Água Branca, em São Paulo.

A literatura abre as portas para pensar um novo mundo, primeiro passo para a transformação social. “A leitura que a gente quer promover é a leitura para o mundo ser reinventado. Teremos que reinventar uma nova forma de viver. Resistir. Re-existir, aprender a existir de uma outra forma”, conta a multiartista Marie Ange Bordas, uma das integrantes das mesas do fórum. “A leitura abre a possibilidade do leitor criar o mundo”, completa a idealizadora do projeto Tecendo Saberes, que desenvolve livros em parceria com comunidades tradicionais para fortalecer identidades.

Também estão na linha de frente dessa resistência aqueles que atuam simultaneamente às práticas que advém de decisões governamentais, movimentos que também têm trabalhado para o aumento da disseminação da leitura, nas várias regiões do país, em ONGs, bibliotecas e escolas. São educadores, livreiros, escritores, contadores de histórias e mediadores de leitura, entre outros agentes que disseminam literatura.

Em uma dessas pontas de ação, estão empreendedores como Bel Mayer, da rede de bibliotecas comunitárias LiteraSampa e do IBCEA (Instituto Brasileiro de Estudos e Apoio Comunitário). Defensora de que projetos de leitura carecem de enraizamento comunitário, ela conta que vai compartilhar experiências com a formação de jovens mediadores de leitura no encontro, que neste ano contará com estações de consultoria para impulsionar novas iniciativas.

Ela também joga uma luz para a sinalização de perda de direitos no atual momento político. “Disseram em outro momento que literatura não era importante para os pobres, que eles deveriam é aprender uma profissão. Com muita resistência, fizemos a leitura acontecer. Enquanto se distraíram, nos estávamos lendo. Nos estávamos nos bares, nas ruas, fazendo saraus, autores da periferia estavam lançando livros. Vamos continuar fazendo o que já fazíamos.  Estávamos no subterrâneo trabalhando. Estamos com mais força ainda para sobreviver”, afirma.

Tatiana Fraga, diretora do Espaço de Leitura, no entanto, conta que tal resistência tem também conquistas a comemorar, já que o Brasil se tornou um país mais leitor nos últimos 20 anos – vale apontar, por exemplo, o crescimento em 18% o número de leitores desde 2011. Leis de incentivo, políticas públicas e o aumento da escolaridade contribuíram para essa evolução. “Se você olhar, a leitura melhorou muito, mas acaba ficando na berlinda, nunca é considerada uma prioridade”, aponta Tatiana Fraga, diretora do Espaço de Leitura.

Para ampliar esse panorama histórico, José Castilho Marques Neto, ex-secretário executivo do Plano Nacional do Livro e Leitura, abre o encontro, trazendo à tona a política do incentivo à leitura no Brasil, um aspecto atualmente considerado fragilizado no país. Integram também a programação, entre oficinas e vivências poéticas, Adriana Costa (Residência Criativa), Ângela Castelo Branco e Giuliano Tierno (A Casa Tombada), Izabel Amaral (Escola Municipal Professor José Carlos Nicoleto), Malu Gomes (Fundação Tide Setubal) e o ator e diretor Sérgio Audi. 

Abaixo, confira vídeo que mostra cenas do encontro no ano passado.

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