A invisibilização da criança negra

PARTE 3

“Mamãe, você sabia que todas as crianças vêm das estrelas? Eu te vi lá nas estrelas antes de você vir pra Terra”.

(Benício, 5 anos, filho de Luana Antunes e Fernando Bralo)

 

+ Leia a parte 1: O racismo e a arapuca social

+ Leia a parte 2: Infâncias e barbárie

 

Por Kiusam de Oliveira

A barbárie está em cada trecho da tragédia-enredo vivida pelo pequeno Miguel Otávio Santana da Silva, de cinco anos, negro, que morreu ao cair do 9º andar de um edifício de elite em Recife. Sua mãe, a doméstica Mirtes Renata Souza, negra, recebeu a ordem da patroa, Sarí Mariana Côrte Real, branca, de levar os cachorros ao passeio. Vizinhos contam que, quando a mãe saiu, o menino começou a chorar e fato é que a patroa permitiu que ele entrasse sozinho no elevador – e é visível quando ela aperta o botão na parte superior, solta a porta e abandona aquela criança visivelmente em desespero pela falta da mãe.

(Crédito: Michael Mims no Unsplash)

Miguel foi lançado pela mão branca da sinhazinha bárbara, formada através da cartilha brasileira da barbárie, ao finito.

O delegado Ramon Teixeira afirmou que a patroa foi negligente ao deixar o menino sozinho e a indiciou por abandono de incapaz que resultou em morte. Importante ressaltar que a decisão de ocultar o nome da patroa e do patrão de Dona Mirtes, a doméstica negra, veio da gestão superior da Polícia Civil do Estado.

Em suas entrevistas, Dona Mirtes traz duas falas que, especificamente, me tocaram: 1) “Amava os filhos dela. Ela deixou o meu ir para a morte”; 2) “Se fosse eu, meu rosto estaria estampado”.

Caminho a vida inteira junto a advogados que lutam em prol dos direitos humanos e, nesse sentido, quando, ao assistir repetidamente o vídeo do prédio reparando a insistência do Miguelzinho em apertar os botões na parte de baixo do painel, bem no nível de sua altura de cinco anos, mudando de postura ao observar a patroa da mãe apertar um botão lá no alto, passa também a tentar apertar botões mais altos, até que o elevador parou no 9º andar, o fatídico, e ele desceu. A pergunta que em mim não quer calar é: Sarí, a patroa branca, no alto da arrogância e prepotência não cometeu dolo eventual, quando o sujeito assume o risco de que a conduta dele possa assumir o resultado de morte? Talvez, no Brasil, a minha pergunta seja considerada errada – somente aqui nesse país.

 

Invisibilização de algumas infâncias

Fato é que, no Brasil, o corpo da criança negra ainda é invisibilizado dentro do conceito de infância: necessário passarmos a entender e usar o termo infâncias, no plural, para retratar a compreensão de que elas são várias, interligadas que estão com as diferentes culturas, formas de ser-estar-pensar. Nesse caso, olhando especificamente para a criança negra, você seja capaz de perceber o que eu, academicamente, descobri: que a criança negra constrói sua identidade a partir de uma contradição, pois ela precisa se socializar em ambiente hostil, espaço que a rejeita, como a escola, por exemplo.

Adultos ensinam as crianças em tenra idade a manifestarem atos de segregação, violência e ódio pelas crianças negras. “Professora, minha mãe falou que é para eu não emprestar meu lápis de cor para Janaína, porque ela é preta”, disse uma estudante de cinco anos para mim, em 1984. Ou “professora, tem uma criança que não fala comigo, mas ela só fala comigo para dizer que sou preto, feio e tenho chifres. Mas, professora: eu chego em casa todo dia e vou para a frente do espelho, eu me olho, passo a mão na cabeça e não sinto o chifre. Pro, já sei. Será que os chifres se escondem quando eu chego em casa”?, disse Allan, em 2008, quando tinha cinco anos.

A barbárie a que as crianças estão jogadas nesse mundo comprova para mim, uma educadora afrorreferenciada e que pauta a vida em saberes ancestrais africanos e afro-indígenas, que há séculos – desde a invasão dos portugueses, demonstrando ódio profundo aos indígenas e negros e às mulheres indígenas e negras estupradas constantemente – esse homem, em última instância, odeia a diversidade, o feminino, as crianças, os negros e os indígenas.

 

A grande Mãe Terra

Para os iorubá, um dos mitos da criação do universo afirma que uma mulher criou o planeta Terra. A Terra é, por fim, a grande Igbà-Iwà: A Cabaça da Existência, a útera da qual todos os seres surgiram e que colocou dentro deles a energia feminina e masculina, ao mesmo tempo, sem polaridades, sem binarismos. A minha tese é a de que o homem, criado em sociedades machistas que o ensinam a ser homem com “H”, reconhece internamente sua relação com o feminino, com as emoções, mas se sente pressionado a sufoca-las, por medo, vergonha, convenções. Enfim, pela arapuca social aqui estabelecida e que captura a todos, chegando ao extremo de destruir a Terra Mãe, AiyéPatchamama, como queira chamar – justamente por sentir sua energia feminina, ele passa a querer destruí-la, devastá-la. As cosmogonias de povos ancestrais como o africano e o indígena trazem uma visão da Terra totalmente feminina.

A grande Mãe Terra acolheu o corpinho machucado pela mão branca, que considera a criança negra como um homem adulto preto em miniatura, tratado até hoje, em nossa sociedade, como aquele que carrega a violência. Irônico seria se não fosse trágica tal visão. O sábio Benício sabe que todas as crianças vêm das estrelas e, talvez, essa consciência tenha despertado em Miguelzinho que, lembrando do rosto de sua mãe Mirtes, nas estrelas, tal qual Benício nos relata, tenha alçado seu último voo. Ainda que traído pelo sistema nefasto causador do extermínio da população negra, sem reações capazes de alterar a estrutura em que se dá esse tipo de barbárie cotidianamente, pela branquitude como um sistema que tem feito por tanto tempo pessoas negras e não-negras crerem em teorias brancocêntricas, que insistem em desconsiderar a humanidade de todos os seres humanos, a multiplicidade existente em nosso país e a maioria negra que habita nele. A mãe Terra acolheu Miguel. Benício não gosta da ação de matar por não ver ética nisto. Já os adultos...

Retomo aqui Carlos Moore quando afirma que as crianças negras têm seus sonhos “perturbados por pesadelos recorrentes, agressivos e demolidores: a realidade ambiente, que as agride, as rechaça e as apaga no mundo real pelo viés de insultos, risos sarcásticos e até agressões físicas por parte daqueles com os quais deveriam compartilhar um imaginário prazeroso – seus pares -, ou ainda, daqueles que deveriam ser os substitutos de seus pais, os professores”. O momento pede para ampliar o universo para cuidadores e/ou educadores em geral.

Finalizo esse texto deixando frestas para que tentem sair da arapuca social montada para quem aqui vive. Uma fresta linda revela meu amigo Benício, o sábio, que em um diálogo com a sua mãe Luana, diz:

 

“- Beni, você gosta mais do sol ou da lua?

- Eu prefiro a espuma... Das águas do mar, uai!”

(Benício, 5 anos, filho de Luana Antunes e Fernando Bralo)

 

E eu finalizo perguntando: Como é que você enxerga a criança que tenta educar?

***

Kiusam de OIliveira é escritora e doutora em Educação (USP)

 

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