A história e a cena do passinho

O passinho é um estilo de dança urbana, criado e desenvolvido por jovens das favelas cariocas, que teve início nos bailes funk ao longo dos anos 2000. Arte multiplataforma que circulava entre os bailes e a internet, chegando à TV e ao teatro, o passinho agora também tem sua forma literária com o livro De passinho em passinho, do autor Otávio Júnior, o "livreiro do Alemão", que foi premiado em 2020 com o Jabuti na categoria infantil.

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A arte da juventude periférica carioca é
cantada no livro de Otávio Júnior. Leia +.

Mas como começou essa história que foi parar no livro?

O passinho teve início num baile do complexo do Jacarezinho, no Rio de Janeiro, onde se popularizou. Os dançarinos se reuniam numa área específica do baile e se apresentavam em rodas, cada um mostrando suas coreografias, o que alimentava a competição entre eles. Um garoto dançava de um jeito, o outro via, copiava e tentava melhorar a dança – o que os cariocas chamam de “charingar”. Isso acontecia tanto nas rodas dentro dos bailes como depois, por meio de vídeos que eram postados na internet.

No vídeo abaixo, Otávio Júnior fala sobre o livro De passinho em passinho:

 

Um dos principais nomes do passinho, o dançarino Cebolinha foi um dos criadores da dança: “Eu sou um dos criadores do passinho. O passinho antes era só um dançar livre, era só fazer o que você queria dentro da batida do funk. E tudo era chamada de passinho, qualquer coisa que você fazia era chamada de passinho, então a gente começou a padronizar a dança. A criar passos originais, criar sequências, combos. E eu sou um dos dançarinos que ajudou a construir o passinho, a transformar de fato numa dança”, conta o relíquia, como são conhecidos os dançarinos das antigas.

Cebolinha, "relíquia" do passinho (crédito da imagem: Danny Abensur)

Para Carol Félix, que é MC e foi uma das responsáveis pelo reconhecimento da dança como Patrimônio Cultural Imaterial do Rio de Janeiro (2018), o passinho é um movimento de resistência de uma juventude favelada e funkeira. Ela conta que havia grupos de passinho, que duelavam entre si. “Tinha os Quebradeira pura, os Imperadores da dança, os Míster passistas, esses eram alguns grupos. E tinha os dançarinos, o Quinho, o Cebolinha, o Sandersson, o Gambá [um dos principais nomes do passinho até hoje, que foi assassinado no Ano-Novo de 2012]. Essa galera que lutava pelo movimento só mesmo por dançar, por amor à dança; não tinha nenhuma intenção de enriquecer, de ganhar dinheiro. A única intenção era ser melhor que o outro grupo. O maior prêmio era ser o mais brabo do movimento naquele momento e o surgimento do passinho foi assim.”

No caso de Lellê, que foi integrante do Dream Team do Passinho e é um dos nomes mais conhecidos da dança até hoje, além de ser cantora e atriz, o passinho chegou por meio de seu irmão de criação, o Tininim. “O meu começo no passinho foi a partir do momento que ele ia para os bailes funk, onde o passinho acontecia, e me ensinava a dançar depois. Eu era muito nova, bem mais nova do que ele, e não podia ir pro baile. A minha mãe não deixava, a minha avó também não. Então eu comecei a ter os primeiros contatos com o passinho quando ele me apresentou. E foi maravilhoso porque eu descobri um universo totalmente diferente do que eu tinha. Eu já dançava na igreja, já me inspirava na Beyoncé, mas o passinho era algo único, né? Era uma dança esquisita para mim, na época e, ao mesmo tempo, era uma coisa diferente, desafiadora, mexia com os pés, com as pernas, era muito legal”, relembra a artista.

Rafael Mike, Pablinho Fantástico, Lellê, Diogo Breguete e Hiltinho, a antiga formação do Dream Team do Passinho

Júlio Ludemir, escritor e produtor cultural que esteve envolvido com a cena do passinho desde o início, explica que ele sempre foi fluido e permeável a mudanças. “O passinho tem um passinho fundamental, que é aquela cruzada de perna, mas ele sempre foi poroso, sempre foi aberto. E foi se reinventando a um ponto tal que aquele passinho que deu origem a tudo, criado no baile do Jacarezinho, praticamente não é mais reconhecido como a expressão do passinho”, explica Júlio.

Para ele, na medida em que essas mudanças eram charingadas, “essa fluidez, essa porosidade do passinho faz com que ele assimile, por exemplo, os movimentos de ombro do hip-hop. Ele incorpora o frevo, incorpora a capoeira. Tem, por exemplo, uma molecada que dançava ao ritmo do funk, mas com a realeza dos sambistas, com a realeza do casal que abre alas num desfile de escola de samba”. 

Cena do documentário A batalha do passinho (2013), de Emílio Domingos

O passinho assimilou ainda o kuduro, as acrobacias e elementos do dia a dia desses jovens na favela. Apesar disso, o passinho não é apenas uma mescla de outras danças, mas uma manifestação artística inovadora e genuína. “Eu comecei a entender que o passinho era a primeira manifestação estética de uma juventude frequentadora de lan house, de uma juventude periférica que operava nas redes sociais”, explica Júlio.

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Do baile pra internet, da internet pra batalha

A partir dos anos de 2008 e 2009, há uma grande popularização das lan houses entre os jovens que frequentavam os bailes e dançavam o passinho. Assim, por meio da internet, a dança, que começou no complexo do Jacarezinho, se espalhou para outras comunidades cariocas.

“O passinho é um produto do Orkut, ele viraliza como um produto do Orkut. Aquele momento, entre 2008 e 2009, foi o auge das lan houses, e a molecada da periferia foi muito pra lan house. Por intermédio da lan house, uma cultura da periferia se proliferou e essa equação ajudou o passinho a chegar de favela em favela, para além dos bailes”, contextualiza o escritor.

De acordo com Júlio, os jovens dançarinos filmavam, durante os bailes, as coreografias para postar nas comunidades de passinho no Orkut. “Os vídeos tinham 4 milhões de views, 5 milhões, e ali você já via uma mistura de muitos ritmos, não apenas aquilo que começou a ser dançado no baile do Jacarezinho, que é o baile onde se origina o passinho.” Ele explica que havia uma competição natural entre os garotos, para ver quem dançava melhor, quem executava melhor os movimentos ou tinha mais repertório e estilo.

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Garotos dançam em cena do documentário A batalha do passinho (2013), de Emílio Domingos

“Jovens do sexo masculino vão sempre criar maneiras de disputar. E, naquele momento, a gente tinha as comunidades de passinho dentro do Orkut e havia um enorme debate estético sobre dança. E cada moleque, apesar de manter o passinho fundamental - aquela cruzada de perna que está na base de todo passinho -, ia buscando referências na própria internet, no YouTube, pra descobrir outras coreografias e incorporava essas novidades. E cada uma dessas novidades era ‘charingada’, os moleques queriam ser ‘charingados’”, conta Júlio.

A partir das batalhas e dos duelos informais, o produtor e agitador cultural Rafael Mike levou a Júlio a ideia de formalizar as batalhas, criando eventos que reunissem os dançarinos. Muitas delas aconteceram nos Sescs do Rio e nas próprias favelas, atraindo públicos gigantescos e até atenção de programas de TV, como o Esquenta, de Regina Casé, e a Xuxa.

Dá o play nesse vídeo para ver o bate-papo de lançamento do livro De passinho em passinho, com o autor Otávio Júnior, Lellê, Júlio Ludemir e o cineasta Emílio Domingos, que dirigiu o documentário A batalha do passinho:

 

De passinho em passinho, eles chegam lá

Como manifestação artística urbana, o passinho foi declarado Patrimônio Cultural Imaterial do Rio de Janeiro, em lei aprovada em 2018. Isso depois de ter chegado a lugares como o encerramento das Paraolimpíadas de Londres, em 2012, o Lincoln Center, de Nova York, em 2014, o Teatro Municipal do Rio de Janeiro, em 2015, e a cerimônia de abertura das Olimpíadas do Rio, em 2016.

“A gente lotou o Teatro Municipal com um público popular, como nunca tinha acontecido na história do Teatro Municipal do Rio de Janeiro. Tinha um corpo popular no palco e um corpo popular na plateia, foi uma apoteose aquilo”, relembra Júlio.

Mas ele considera que a abertura das Olimpíadas do Rio foi um dos grandes momentos da dança, representando o “liquidificador” de culturas que o passinho condensa. “Eles estão no centro da cena daquela cerimônia de abertura e de encerramento. O passinho se torna um símbolo nacional, um símbolo daquele Brasil, que termina exatamente em 2016 com o impeachment. Acho que ali é o auge do passinho em termos de empregabilidade, em termos de inserção dessa molecada”.

Cena da apresentação do passinho na abertura da Olimpíadas 2016, no Maracanã

Carol Felix estava na plateia como convidada no Maracanã e relembra o momento de auge: “Foi uma coisa muito emocionante, eu fui convidada pela Secretaria de Cultura para representar o movimento do passinho na plateia e foi um dos momentos mais emocionantes da minha vida, estar numa Olimpíada, dentro do meu país, dentro do meu estado. Ao mesmo tempo, uma coisa totalmente Internacional porque tinha diversos atletas de todo mundo naquele lugar, do meu lado tinha gente de Japão, de tudo quanto era lugar, e foi muito emocionante mostrar pra toda aquela galera que o movimento do passinho sacudiu o Maracanã. Foi extraordinário”.

 

E o céu não é o limite

Carol e Lellê consideram que hoje a cena é muito mais favorável para as meninas que querem dançar. No início, o movimento era muito masculino, inclusive com o elemento da sedução das garotas, que era muito presente. Os dançarinos chamavam atenção e ganhavam status com as garotas.

Para Lellê, apesar de sempre haver mulheres no meio, “é como se essas mulheres não tivessem o mesmo alcance que esses caras, o mesmo respeito. Hoje eu acho que está muito mais tranquilo, muito mais amplo e por conta dessas mulheres também que começaram a dançar e bater de frente com esses caras dentro da dança e mostrar para eles que a gente também é dançarina, que a gente merece nosso respeito”.

Neste vídeo, Carol Felix fala sobre a importância artística e cultural do passinho:

 

Carol Felix concorda e acrescenta que, “naquela época, as mulheres não tinham tanta voz. Dançávamos às vezes com roupas masculinas para ganhar o respeito dos meninos e mesmo assim era bem difícil. Mas hoje em dia as meninas estão representando muito bem, estão batendo de frente mesmo. Estão duelando com homem olhando no olho, é muito impressionante e muito bom ver a revolução feminina dentro do movimento do passinho”.

O passinho me trouxe um universo onde eu sempre quis estar. Foi o passinho que me levou a isso, não foi outra coisa, não. Tem todo um contexto, um estilo de vida mesmo. E isso salvou minha vida porque me trouxe muitas oportunidades de estar em lugares, em palcos, teatros, festivais, TV, enfim. Eu sempre amei a dança. E aí, quando o passinho chegou daquele jeito tão diferente, eu pude também me ver de uma outra forma. E acabou que eu fui treinando, treinando, treinando, virando uma das melhores. E isso mudou minha vida porque eu me entreguei muito para esse movimento, para esse estilo de dança.

Lellê

Houve também a criação de companhias de dança, como a Passinho carioca, fundada por Thiago de Paula, que promove ensaios, aulas e espetáculos de passinho entre jovens e crianças. 

Segundo Júlio Ludemir, as grandes estruturas do passinho parecem estar mais desconectadas do que já estiveram neste momento. Ele acredita que a forma de produção e de remuneração dos dançarinos voltou para a favela, de certa forma. O produtor cultural percebe também que o passinho tem se realimentado em outras cenas do país, como São Paulo, por exemplo, ainda que o passinho paulista use mais os braços, sendo mais influenciado pelo hip-hop que o passinho carioca.

Apesar disso, Cebolinha, que hoje é um influencer, além de dançarino, reflete que atualmente existe mais suporte para o movimento do que na época em que ele começou. “Mudou muita coisa, a questão profissional, principalmente. O reconhecimento do passinho como cultura urbana brasileira, uma dança urbana brasileira de fato. Hoje você consegue escrever um edital pra passinho, e por aí vai. A mudança foi pra melhor, foi bem importante pra dar um combustível no movimento, pra que nós pudéssemos ser profissionalizados. O passinho foi algo que mudou minha vida no sentido de que eu comecei a ser remunerado por dançar, a viver da dança”. 

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