A “diversunidade” em forma de poesia

 

Haicais, versos livres, limeriques, poemas concretistas, sonetos e trovas: essa é a “diversiunidade” do novo livro de Rogério Trentini, Parla, palavra. Com ilustrações de Gustavo Duarte, a obra convida leitores a adentrar a diversidade poética, “mostra que qualquer forma poética comporta o manejo, a manipulação de palavras”, explica o poeta, revisor de texto e também autor de As falações de Flávio e As invenções de Ivo. “Especialmente quando se trata de leitores iniciantes, é sempre benéfico abordar formas e conteúdos, quaisquer que sejam, de maneira abrangente e diversa.”

Ilustração de Gustavo Duarte para o livro "Parla, palavra"

 

Em Parla, palavra, assim como em obras anteriores, o autor faz uso também do recurso da metalinguagem. As invenções de Ivo (2012), por exemplo, traz a história de um menino que vivia a inventar bichos, planetas, personagens e palavras, em uma analogia com a escrita ficcional. No livro que acaba de lançar, essa homenagem à linguagem vem nos mais diferentes textos que carregam essa temática. Um exemplo é o poema Trocando palavras:

“Tirei o f do frio:

pulei no rio.

Pus um m no ar:

Pulei no mar.”

Para o autor, essa escrita sobre a nossa relação com as palavras auxilia o novo leitor a desenvolver uma “consciência da linguagem”. “O aprendizado de uma língua também é sempre metalinguístico, e a poesia infantil tem nessa função da linguagem um colaborador importante, assim como conta com a ajuda de outros recursos imprescindíveis para a descoberta do universo linguístico-poético pelo leitor, como o humor, a sonoridade e a rima (esta última, menosprezada, não sem razão, na poesia contemporânea, mas de grande valia na poesia infantil). No caso dos poemas do livro, todos esses recursos estão voltados para o reconhecimento da palavra poética.”

E essa relação com o universo das palavras surge de uma despreocupação, como algo natural. “É inevitável que um livro que trata do mundo das palavras contenha elementos metalinguísticos”, diz, defendendo o recurso. “Qualquer recurso estilístico/linguístico é válido quando está a serviço do que se pretende dizer – se ele não se insubordinar. E mesmo o fato de eu estar discorrendo aqui sobre minha linguagem, veja só, também é metalinguagem. Não temos como fugir dela.”

Aliás, o discurso que aborda a linguagem também é brincadeira em forma de poesia. As palavras e as letras tornam-se verdadeiros “brinquedos de montar”, como ele diz. “Esta, a propósito, é outra das intenções do livro: que o leitor perceba a construção dos poemas e os jogos de palavras como uma brincadeira.” É nesse jogo que ele percebe as relações entre infância e poesia, com falas que saem das bocas dos pequenos capazes de nos desnortear tanto quanto versos de poemas. “Nestes tempos de antipoesia e embrutecimento, seria bem-vindo um esforço utópico para se voltar a ver as coisas com esses olhos.”

 

Ilustração de Gustavo Duarte para o livro "Parla, palavra"

 

É por isso que o autor, que conclui suas obras anteriores com convites ao leitor ao universo da fala e da invenção, abre este último lançamento para um leque de oportunidades. “Pode-se propor às crianças, por exemplo, que inventem novas palavras ou deem novos significados a palavras já conhecidas. Ou que descubram palavras que existem escondidas dentro de outras, como no poema Trocando palavras. Ou ainda que interpretem os poemas a partir das incríveis ilustrações do Gustavo Duarte, sugerindo então novas imagens. E fazê-las por fim partirem de todas essas ideias para que elas mesmas construam seus poemas.”

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