5 curiosidades sobre a vida de Lewis Carroll

Hoje é o aniversário dele, que nos presenteou com a metáfora de entrar no buraco atrás do coelho e cair, cair, cair, até uma dimensão onde tudo está deslocado e todo mundo é meio louco (tão adequada para este infinito presente pandêmico, não?).

O criador dos livros de Alice, Lewis Carroll, na verdade se chamava Charles Lutwidge Dodgson, era tímido e acometido por uma gagueira tão severa que fazia seu lábio superior tremer.

Em homenagem a Carroll, que nasceu em 27 de janeiro de 1832, selecionamos mais cinco curiosidades que talvez nem todos saibam, introduzidos por trechos famosos de Alice no país das maravilhas (Zahar, 2013):

Ilustração de John Tenniel

“Quem é você?” perguntou a Lagarta.

Não era um começo de conversa muito animador. Alice respondeu, meio encabulada: “Eu... eu mal sei, Sir, neste exato momento... pelo menos sei quem eu era quando me levantei esta manhã, mas acho que já passei por várias mudanças desde então.”

1) A Alice dos livros foi inspirada na menina Alice Liddell, filha do reitor do Christ Church, a faculdade onde Carroll lecionava (e que viria a ser tornar a Universidade de Oxford). O autor gostava muito de interagir com crianças e fez amizades com muitas delas ao longo da vida (assunto que ainda gera muita controvérsia), mas sua amiga mais querida foi Alice. Ele convivia com ela e suas irmãs e sempre lhes contava histórias, adivinhas e piadas. Numa tarde de verão, inventou a história que viria a ficar famosa, e Alice gostou tanto que pediu para ele escrevê-la. A primeira versão se chamava Aventuras subterrâneas de Alice e foi ilustrada pelo próprio Carroll. Alice no país das maravilhas foi publicado pela primeira vez em 1865.

 

Ilustração de John Tenniel

“Mas não quero me meter com gente louca”, Alice observou.

“Oh! É inevitável”, disse o Gato; “somos todos loucos aqui. Eu sou louco. Você é louca.”

“Como sabe que sou louca?” perguntou Alice.

“Só pode ser”, respondeu o Gato, “ou não teria vindo parar aqui.”

2) Não dá para afirmar se ele era louco com a mesma certeza do Gato de Cheshire, mas Carroll era bastante excêntrico, cheio de manias e muito tímido. Tanto que,  segundo o estudioso Martin Gardner, que assina a introdução e as notas de Alice – Edição comentada e ilustrada (Zahar, 2013), “podia ficar horas numa reunião social sem nada contribuir para a conversa”. Durante a infância, brincava com marionetes e ilusionismo, e sempre gostou de fazer passes de mágica, especialmente para crianças.

 

Ilustração de John Tenniel

"Então deveria dizer o que pensa”, a Lebre de Março continuou.

“Eu digo”, Alice respondeu apressadamente; “pelo menos... pelo menos eu penso o que digo... é a mesma coisa, não?”

“Nem de longe a mesma coisa!” disse o Chapeleiro. “Seria como dizer que ‘vejo o que como’ é a mesma coisa que ‘como o que vejo’!”

“Ou o mesmo que dizer”, acrescentou a Lebre de Março, “que ‘aprecio o que tenho’ é a mesma coisa que ‘tenho o que aprecio’!”

3) Carroll inventava enigmas de linguagem e matemática, que usava para divertir as crianças. Durante quase todo o período em que trabalhou em Christ Church, foi professor de matemática, mas, de acordo com Martin Gardner, suas aulas eram “insípidas e enfadonhas”. Apesar de não ter contribuído de maneira significativa para a ciência, publicou livros sobre lógica e matemática que são “escritos de maneira curiosa, com muitos problemas divertidos”.

Ilustração de John Tenniel

“Alice pensou que nunca vira um campo de croqué tão curioso na sua vida; era cheio de saliências e buracos; as bolas eram ouriços vivos, os malhos flamingos vivos, e os soldados tinham de se dobrar e se equilibrar sobre as mãos e os pés para formar os arcos.”

4) O autor adorava jogos de todos os tipos, especialmente “xadrez, croqué, gamão e bilhar”, diz Gardner. Também ensinava as crianças a fazer barquinhos de papel e pistolas de papel, “que estalavam quando vibradas no ar”. Tinha muito interesse pela incipiente arte da fotografia e acabou se especializando em retratos de crianças e pessoas famosas. As irmãs Liddell foram fotografadas diversas vezes.  

Ilustração de John Tenniel

“Poderia me dizer, por favor, que caminho devo tomar para ir embora daqui?”

“Depende bastante de para onde quer ir”, respondeu o Gato.

“Não me importa muito para onde”, disse Alice.

“Então não importa que caminho tome”, disse o Gato.

“Contanto que eu chegue a algum lugar”, Alice acrescentou à guisa de explicação.

“Oh, isso você certamente vai conseguir”, afirmou o Gato, “desde que ande o bastante.”

5) Os interesses de Carroll – a lógica, a matemática, os jogos, as brincadeiras com a linguagem e a convivência com as crianças – parecem ter se amalgamado “magicamente para produzir duas histórias imortais”. De acordo com Gardner, “ninguém suspeitou na época que esses livros se tornariam clássicos da literatura inglesa. E ninguém teria sido capaz de adivinhar que a fama de Carroll acabaria por suplantar a do pai de Alice e a de todos os seus colegas de Oxford”.

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