18 anos sem Astrid Lindgren, a mãe da Píppi Meialonga

Em 28 de janeiro de 2002, aos 94 anos, Astrid Anna Emilia Lindgren morreu em sua casa em Estocolmo, ao lado de sua filha, Karin, onde havia morado desde 1941 e onde escreveu seus 41 livros ilustrados. Ao saber da notícia, milhares de fãs foram até a residência levar flores e velas. Astrid, a mãe da icônica personagem Píppi Meialonga, é a 18a autora mais traduzida do mundo, segundo lista da Unesco: tem 165 milhões de livros vendidos, em 107 línguas e 77 países. Mais que isso: ela foi uma incansável lutadora pelos direitos humanos e das crianças, dos animais, da preservação da natureza, da literatura infantil e da paz, provocando a mudança de muitas leis suecas.

(Crédito: Astrid Lindgren Company)

Astrid fez o que poucos se atreveram em sua época. Muito antes de o feminismo estabelecer o poder das meninas para serem e fazerem o que quiserem, ela inventou uma personagem que podia tudo: tinha superforça, enfrentava ladrões, fugia de policiais, vivia sem os pais – apenas com seu cavalo e um macaquinho –, era independente, ousada e muito confiante. Píppi Meialonga, a menina sardenta, de cabelos ruivos e tranças, foi criada em 1941, a pedido de sua filha Karin, que estava doente. Como o nome da personagem já era esquisito, Astrid imaginou que ela não deveria ser muito normal. E assim nasceu a irreverente Píppi, cujo manuscrito foi recusado pela primeira editora, com medo de que o livro fosse uma má influência para as crianças.

Uma garota de coragem

De certa maneira, Píppi carrega muito da infância e da coragem de Astrid. A autora nasceu em 14 de novembro de 1907, em uma cidadezinha sueca chamada Vimmerby. Segunda filha de quatro, cresceu em uma casa vermelha, rodeada de macieiras, como certa vez contou, na propriedade rural chamada Näs. Quando criança, ajudava os pais no trabalho com a fazenda e divertia-se em brincadeiras livres. Ela contava que, aos quatro anos, ao escutar sua primeira história, sentiu algo mágico acontecer na sua vida. Ler e ouvir histórias foi a forma de se transportar para outros mundos – e ver sua cozinha ser invadida por bruxas, magos e criaturas imaginárias. Entre seus livros preferidos estavam “A ilha do tesouro” (1883), de Robert Louis Stevenson, “A pequena princesa” (1905), de Frances Hodgson Burnett, e “Papai Pernilongo” (1912), de Jean Webster.

(Crédito: Astrid Lindgren Company)

Astrid foi para a escola em 1914, ano em que começou a Primeira Guerra Mundial. Aos 13 anos, publicou seu primeiro ensaio no jornal de Vimmerby e, aos 16, foi contratada. Nunca foi uma garota como a maioria. Na adolescência, por exemplo, foi a primeira mulher de sua cidade a cortar os cabelos curtos – as pessoas chegavam a pará-la na rua e pedir para que tirasse o chapéu para observarem. Aos 19, engravidou de seu editor-chefe, que ainda não havia se divorciado, e precisou sair da cidadezinha para sua família não sofrer com as fofocas. Mudou-se para a capital sueca, Estocolmo, onde morou em um quartinho enquanto fazia curso de secretária. Foram anos difíceis.

 

“Eu quero escrever para um público que possa criar milagres. Crianças criam milagres quando elas leem” (Astrid Lindgren)

 

Em novembro daquele ano, 1926, foi para Copenhagen, capital da Dinamarca, para parir seu filho no único hospital que não exigia o nome do pai da criança – ela ainda tinha esperanças de que ele se divorciasse e pudessem se casar. Seu filho, Lars, nasceu em 4 de dezembro e ela o deixou com uma família adotiva, embora mandasse cartas para o menino de três em três meses.

(Crédito: Astrid Lindgren Company)

Em 1927, Astrid começou a trabalhar para uma rádio e, no ano seguinte, foi empregada pelo Royal Automobile Club, onde conheceu seu patrão e futuro marido: Sture Lindgren. Quando Lars tinha 3 anos, ela voltou a Copenhagen para pegá-lo, já que a mãe adotiva estava doente e não conseguia mais cuidar do menino. Se hoje não é fácil ser mãe solteira, na época, era um estigma e um peso muito maior. Como o garoto tinha muita tosse, e ela não conseguia dormir para cuidar dele, corria o risco de perder o emprego – o menino, então, foi levado para a fazenda dos avós. E Astrid desfilou com ele pela cidade para que os comentários logo cessassem. Ao casar com seu chefe em 1931, após a separação dele, Astrid trouxe Lars para viver com ela. Em 1934, o casal teve Karin e Astrid virou dona de casa – mas não por muito tempo. Era uma mãe incomum. Nesse período, ao levar os filhos ao parquinho, destacava-se das outras que ficavam sentadas observando as crianças: ela brincava junto e se divertia tanto quanto os pequenos.

A guerra muda sua vida

Quando a Segunda Guerra Mundial começou, em 1939, Astrid passou a escrever seus “diários de guerra”, com artigos recortados, comentários sobre o conflito e seu dia a dia. Ao fim da guerra, em 1945, tinha escrito 17 volumes, que mais tarde viraram livro. Por esse período, a escritora trabalhou para o serviço secreto, no departamento de censura, lendo cartas. Essas experiências mudaram sua vida: ela viraria uma ativista pela paz, pelos direitos humanos e das crianças.

 

“Eu escrevo como eu gostaria que fosse o livro, se eu fosse uma criança. Eu escrevo para a criança dentro de mim” (Astrid Lindgren)

 

Foi nessa época de guerra que ela começou sua promissora carreira, inventando histórias de Píppi para sua filha, Karin. Em 1944, três anos depois do início, resolveu colocar essas aventuras no papel, como presente de aniversário pelos dez anos da caçula. O manuscrito foi oferecido para a editora Albert Bonnier, que recusou. No entanto, ela havia participado, neste mesmo ano, de um concurso da pequena editora Rabén & Sjögre e tido sua história “The confidences of Britt-Mari” publicada. Assim, no ano seguinte, inscreveu Píppi no concurso e ganhou. Foi um sucesso tremendo.

(Crédito: Astrid Lindgren Company)

 

Escritora de sucesso

Somente as histórias de Píppi venderam cerca de 60 milhões de livros e foram traduzidas para 76 línguas, além de renderem oito filmes, duas séries televisivas e duas películas para TV. Em 2020, ano em que Píppi completa 75 anos, um novo filme está sendo produzido, em parceria com STUDIOCANAL, Heyday Films e Astrid Lindgren Company. Entre as comemorações, a empresa que cuida de seu legado anunciou uma parceria com a ONG Save The Children – para ela, as Píppis superpoderosas de hoje são as meninas refugiadas.

Entre 1944 e 46, Astrid escreveu seis livros. Em 1952, seu marido morreu e ela nunca mais se casou. Nessa década, manteve uma média de um lançamento por ano e começou a rodar o mundo para falar de seus livros e defender a literatura infantil como merecedora da mesma qualidade que as obras para adultos. Além de escrever durante as manhãs, trabalhava como editora infantil à tarde na Rabén & Sjögren, cargo que ocupou por 24 anos, até 1970. Também manteve uma incansável troca de correspondências, com mais de mil cartas – 600 das quais trocadas somente com a amiga Louise Hartung, que também virou livro. “Rônia”, sua última obra infantil, publicada em 1981, vendeu mais de 11 milhões de exemplares.

 

“Tudo de bom que aconteceu no mundo aconteceu primeiro na imaginação de alguém” (Astrid Lindgren)

 

Aos 91 anos, Astrid teve um derrame, que limitou seus movimentos, mas ela continuou respondendo as correspondências, com a ajuda de sua secretária, até o Natal de 2001. Um mês depois, nos deixou. Seu funeral foi realizado em 8 de março, Dia Internacional da Mulher.

(Crédito: Astrid Lindgren Company)

Seus livros marcaram a infância de milhões de pessoas, entre as quais Michelle Obama, que chegou a dizer que “Píppi Longstocking was my girl”, sua paixão de criança. Astrid foi homenageada com o nome de um asteróide e do primeiro satélite sueco, e recebeu mais de cem prêmios. No Brasil, seus livros começaram a ser publicados em 2003 pela Companhia das Letrinhas: “Píppi Meialonga”, “Píppi a bordo”, “Píppi nos mares do Sul”, “Você conhece a Píppi Meialonga?”, “Emil e a grande fuga”, “Karlsson no telhado” e “Rônia”.

Desde 2003, o governo sueco premia um autor de literatura infantil com o Alma – Astrid Lindgren Memorial Award, uma das premiações mais respeitadas do setor. A única brasileira que ganhou foi Lygia Bojunga, em 2004. O ilustrador e escritor Roger Mello concorre este ano pela quinta vez ao prêmio, a ser divulgado em 31 de março.

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