Uma viagem pelas águas da literatura

 

Por Mell Brites

 

No segundo dia da Flipinha, teve bate-papo sobre bruxas nos livros infantis e seu espaço na escola, lançamento do novo livro do Gilles Eduar, conversa sobre literatura afrobrasileira e a autoestima da criança, leitura em família e tantas conversas mais que recheiam as diversas casas paralelas e a tenda principal da programação de literatura infantil da Festa Literária Internacional de Paraty.

Logo cedo, um evento se destacou: a Caixote, uma editora de livros interativos que existe há apenas 5 anos, organizou uma viagem de barco para promover seu livro recém-lançado para jovens, Amal, sobre uma mulher síria que teve que recorrer ao refúgio e sua jornada daí para frente. Mas é a fundadora da editora, Bel, quem vai contar sobre essa experiência e sobre outros livros digitais que produz. Veja que bacana!

 

 

Mell Brites: Bel, conta da sua experiência hoje na Flipinha. Você fez um evento literário num barco?

Bel: Fizemos um evento que começou num barco hoje e que tinha um nome bem pretensioso: “O percurso mais importante da sua vida”. Na verdade, fizemos esse percurso por barco e outro por terra também, com o mesmo nome, que é uma referência ao subtítulo do livro Amal, que é “A viagem mais importante da sua vida”. A atriz e diretora Livia Camargo levou as pessoas para a Biblioteca Casa Azul à pé, e a atriz e cantora palestina Oula al-Saghir foi de barco. Ambas rumo à biblioteca, onde fizeram uma bela encenação de Amal, utilizando-se de trilha sonora e animações projetadas como cenário. 

Oula, que está refugiada no Brasil há quatro anos, fez uma fala muito emotiva sobre travessias no meio do mar, relacionando a história dela e da protagonista do livro, já que ambas saíram da Síria por causa da guerra. Foi lindo parar o barco em plena Baía de Paraty pra Oula contar sobre a sua jornada, a de Amal [personagem da obra Amal] e pra perguntar pros presentes: “E você, o que você imaginava do percurso mais importante da sua vida? Qual é a sua travessia mais importante?”. Olha, quando ela cantou a música Partidas e Despedidas, no meio do mar, porque ela acha que resume bem a vida... Ninguém passou imune. Oula é uma artista de muita potência, assim como é a menina Amal, que cruzou mares e países inteiros sozinha em busca de refúgio.

 

Mell Brites: Conta um pouco mais sobre Amal.

Bel: Amal surgiu de uma inquietação sobre como contribuir para a causa dos refugiados, que é cada vez mais urgente. Mais precisamente, quando foi divulgada a foto de Alan Kurdi, aquele menino sírio de 3 anos que apareceu morto, de bumbum pra cima, na praia. Eu já conhecia a Carolina Montenegro, a autora do livro, e puxei uma conversa emocionada sobre o tema com ela, já que ela trabalha com o assunto como correspondente há vários anos. Aquilo me tocava muito. Ela veio com a sugestão de fazer o livro juvenil. A gente se apaixonou pela ideia de fazer um livro pras crianças e adolescentes, sobre essas outras crianças e adolescentes que vivem uma realidade tão impensável. De lá pra cá, foram três anos.

Amal é, portanto, um livro de ficção baseado na história real de muitas crianças. No livro impresso, há um texto falando sobre muitas delas. E não deixa de ser, ao mesmo tempo, uma homenagem e um apelo de sensibilização. As gerações futuras precisam fazer diferente.

 

Mell Brites: Você falou de livro impresso, mas você publica principalmente livros interativos, ou livro aplicativo, não é? O que é exatamente um livro aplicativo?

Bel: Publicamos Amal em edição impressa, que é a primeira (de muitas) da Caixote, e como livro-aplicativo. Livros-aplicativos são livros mesmo, ou experiências de leitura publicadas nesse formato, pra celulares e tabletes, e que utilizam as potencialidades do digital para contar a história. Como animações, interatividades, trilha e efeitos sonoros, interface. E por aí vai. Cada um é um, porque são softwares construídos para dar conta dessas funcionalidades.

 

Mell Brites: E por que você resolveu entrar para o universo digital?

Bel: Eu tinha dois fatores que me puxavam para o digital há 5 anos. O primeiro deles era poder utilizar as potencialidades do digital para criar experiências de leitura interessantes, como essas que eu citei: sons, movimentos, interatividades. Acredito que é possível estimular o prazer pela leitura usando esses elementos e que isso não briga com o impresso. São possibilidades diferentes dentro de um “cardápio” de leitura que tem bastante a acrescentar ao público infantojuvenil. O segundo fator era a possibilidade de criar produtos editoriais que não dependessem tanto de logística, que pode ser massacrante para pequenas editoras. Era um tempo em que ainda não existiam os coletivos, e as feiras de editoras independentes não tinham essa força. Enfim, eu achava que, dessa maneira, eu viabilizaria a editora, porque conseguiria distribuir meus livros mundialmente e tal. É claro que nada é tão simples. De fato, vendo mais livros aplicativos em outros países do que no Brasil, onde o mercado ainda é pequeno. Mas isso não significa que a coisa aconteça de forma tão “automática” como imaginei. Tanto que, agora que estou fazendo a distribuição da edição impressa de Amal, estou achando até divertida essa relação com as livrarias.

 

Mell Brites: Você acha que esse universo dos livros aplicativos é o futuro do livro?

Bel: Não. Mas eu acho que é uma das possibilidades, e dentro daquela ideia do cardápio de possibilidades às quais os leitores têm acesso. Acredito que ainda há muito para acontecer, no que diz respeito a formatos, exigências técnicas e formas de distribuição, quando falamos de digital. Mas não vejo essa possibilidade do digital sair das nossas vidas.

 

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