Uma nova leitura das histórias em quadrinhos

 

A linguagem dos quadrinhos tem características próprias e uma forma peculiar de contar suas histórias, diferente do cinema, do teatro e da literatura. Hoje, Dia Internacional da História em Quadrinhos, cabe a pergunta: o que é, então, essa arte que inclui gibi, mangá, tira, graphic novel…? São publicações voltadas apenas para crianças e jovens? É possível indicar essas obras entre as leituras escolares?

Ao buscarmos as primeiras raízes das artes com imagens sequenciais, chegamos às pinturas rupestres, nas quais os homens pré-históricos narravam suas caçadas e seu cotidiano. Em outro momento, os quadros das igrejas medievais retratavam a via sacra. “O certo é que, desde seu início, o homem usou o desenho para se comunicar com seu semelhante”, afirma Waldomiro Vergueiro, coordenador e fundador do Observatório de Histórias em Quadrinhos da Escola de Comunicação e Artes (ECA/USP), e editor da 9ª Arte, revista brasileira de pesquisas em HQs.

A figura sempre foi uma linguagem popular, mas foi com o surgimento da imprensa que esse uso se tornou mais frequente e comercializado, explorando elementos humorísticos com a charge política e a caricatura. Essas obras sedimentaram o uso dos desenhos aliados à escrita, tornando o solo fértil para o aparecimento das histórias em quadrinhos no final do século XIX. Durante esse tempo, as histórias em quadrinhos evoluíram e se manifestaram em formatos diferentes de acordo com sua complexidade, temática, produção, público-alvo e por espaços de comercialização.

 

Imagem: Laerte

 

As diferentes histórias em quadrinhos

De acordo com o pesquisador do Observatório das Histórias em Quadrinhos, ao falarmos em gêneros de quadrinhos, estamos nos referindo às charges, aos cartuns, às tiras, as revistas em quadrinhos, aos álbuns e às graphic novels. Emilio Fraia, editor da Quadrinhos na Cia, selo da Companhia das Letras, completa: “É um universo muito variado. Há as graphic novels, os gibis de super-heróis, os mangás, toda cultura otaku. A combinação entre texto e imagem abre possibilidades surpreendentes”. Para o editor, o mercado de HQ que preze simultaneamente pela alta qualidade e dialogue com um público amplo tem tudo para crescer.

Um ponto em comum da charge, do cartum e da tira é a narrativa curta, em geral humorística, tradicionalmente publicados em jornais, produzidos por autores consagrados – a exemplo dos brasileiros Angeli, Laerte e Caco Galhardo. “Infelizmente, muitos jornais pararam de publicar quadrinhos nas últimas décadas, deixando de ser um espaço privilegiado para seus autores. Mas as tiras em quadrinhos ampliaram seu espaço nos meios eletrônicos, podendo ser encontradas em grande quantidade na internet, especialmente nas redes sociais, sendo consumidas por um público ávido e entusiasmado. Autores como Carlos Ruas e André Dahmer são verdadeiros ícones no meio”, explica Vergueiro.

 

Imagem: André Dahmer

 

Já o gibi possui narrativa mais longa, em geral incluída em um universo narrativo específico, o infantil (como as histórias de Mauricio de Sousa), o da ficção científica (como os consagrados super-heróis) ou da fantasia (como os contos de fada ou as histórias de animais antropomorfizados da Disney). Esse modelo de revistas em quadrinhos são vendidos preferencialmente em bancas de jornais.

“Felizmente, o Brasil não abandonou as bancas de jornal como espaço de comercialização de histórias em quadrinhos, como aconteceu com outros países como a Argentina e os Estados Unidos”, comenta o pesquisador. “As bancas de jornais permitem o acesso ao comprador eventual, ao não colecionador, àquelas pessoas que compram uma história em quadrinhos por impulso, pela atração da capa ou por achar o personagem interessante, ou mesmo para aqueles que compram quadrinhos não para si, mas para alguém da família, em geral, os filhos ou os netos.” A produção de revistas em quadrinhos de super-heróis, vinda dos Estados Unidos, é responsável por grande parcela desse mercado.

 

Capa da série especial Grande Encontro: Turma da Mônica e Liga da Justiça

 

Outra parcela é preenchida pelos mangás, produção que se origina no Japão e invadiu o Ocidente há algumas décadas. Essas produções carregam fortes marcas regionais, levando a uma expectativa discursiva ligada à produção de quadrinhos de origem japonesa, que tem características narrativas próprias: “Histórias que se prolongam apenas até um determinado momento, com um encerramento esperado depois de um número fixo de fascículos – que pode variar, de acordo com o sucesso do produto”, explica o pesquisador.

As publicações japonesas também têm suas subdivisões, sendo um dos primeiros modelos a pensar numa criação de quadrinhos voltada para o público feminino. Já a banda desenhada remete à produção europeia, que também tem características narrativas próprias, envolvendo uma produção de histórias fechadas (geralmente em formato álbum), cujo conjunto forma uma narrativa coerente.

 

Capa e contracapa do mangá Hataraku saibou, mais conhecido como Cells at work!

 

Os álbuns e graphic novels podem abranger sagas especiais de determinados personagens originalmente publicadas em revista (especialmente da DC Comics e da Marvel), biografias, reportagens, adaptações literárias, entre outras temáticas voltadas para um público mais maduro no formato de linguagem quadrinística. Destinam-se a um público mais adulto e também mais exigente, tendo publicações com maior cuidado editorial, próximo do livro. Por isso há uma produção elaborada tanto em sua forma física – com um papel de melhor qualidade, lombada quadrada, encadernação sofisticada, material extra (capas originais, posters, making off, análises históricas, prefácios) – quanto na escolha de seu espaço de comercialização (as livrarias e comic-shops, ou gibiterias).

O professor da USP aponta para a colaboração direta desses ambientes para o aparecimento de novos leitores: “Ao incluir as histórias em quadrinhos em seu acervo, as livrarias ajudaram a elevar a visão que a sociedade tem desse meio de comunicação, valorizando-o e ajudando a levá-lo a novos públicos”, enquanto os espaços específicos como as comic-shops são importantes pontos de encontro desse nicho, criando um ambiente de discussão e incentivo aos leitores. “Prestam um excelente trabalho ao meio”, comenta.

 

A importância da HQ na educação

Os primeiros registros do uso de quadrinhos com objetivos didáticos aparecem nas décadas de 40 e 50, com as versões em quadrinhos de clássicos das literatura como O corcunda de Notre Dame, de Vitor Hugo, e O guarani, de José de Alencar, nas escolas brasileiras de elite. Mais tarde, em 1967, os quadrinhos começam a entrar nos livros didáticos brasileiros com a inovadora obra do professor de história Julierme de Abreu e Castro publicada pelo Instituto Brasileiro de Edições Pedagógicas (Ibep). Nos anos 1980, já existem estudos brasileiros sobre o uso de HQs como Asterix em aulas de história.

“Nesse sentido, toda pesquisa nessa área e toda iniciativa desenvolvida com esse objetivo serão sempre bem recebidas. Mas as histórias em quadrinhos, sozinhas, não poderão mudar substancialmente a qualidade do ensino no Brasil. Para isso, serão necessárias muitas outras medidas, especialmente a definição de políticas educacionais mais adequadas. Esperamos que essas mudanças venham logo. E temos certeza de que elas não prescindirão da colaboração das histórias em quadrinhos”, diz Vergueiro.

De acordo com o especialista, a inclusão dos quadrinhos no Programa Nacional Biblioteca na Escola (PNBE) foi o incentivo às editoras nacionais: “Várias dessas casas publicadoras, que nunca haviam publicado histórias em quadrinhos, passaram a fazê-lo com o objetivo de ocupar esse espaço ou atender a essa demanda que era feita pelo governo federal”. O editor da Companhia das Letras lembra que essa demanda reforça a importância do gênero na sala de aula: “Muitos temas podem ser tratados de um jeito especialmente atrativo e dinâmico através das HQs, sem perder o rigor, com profundidade”.

No contexto das compras governamentais, as adaptações literárias ganharam relevância. Não à toa: muitas vezes essas adaptações proporcionam ao aluno o primeiro contato com a obra, abrindo caminho para a utilização do texto original como objeto de apoio e, talvez mais tarde, a leitura completa da obra, consolidando-se como um processo gradativo. Do contrário, somente com a obra literária e sem qualquer mediação, a imposição de publicações que não fazem parte do universo do aluno (seja em seu tema, seja em sua forma) causa no jovem o sentimento de obrigatoriedade que, por vezes, desestimula a leitura.

Para o editor, uma das motivações e vantagens de trazer obras clássicas para o formato de quadrinhos é ser uma porta de entrada para o universo de determinado autor: “No catálogo da Quadrinhos na Cia., além de A revolução dos bichos, destacaria a versão de Seymour Chwast para A Divina Comédia de Dante”.

 

Capa da HQ de Memórias póstumas de Brás Cubas (Editora Ática)

 

Vergueiro explica que, no momento da produção de uma história em quadrinhos, a narrativa é fragmentada, conservando-se apenas elementos essenciais que possam permitir a construção de sentido pelo leitor, postos nas imagens. No momento da leitura, ocorre o inverso, já que o leitor completa o sentido da obra acrescentando à narrativa quadrinística aqueles componentes que lhe foram retirados de modo planejado. Assim, os quadrinhos possibilitam uma dinâmica de participação de leitura que poucas outras formas narrativas possuem, sendo a “alfabetização” dessa linguagem específica indispensável para que o aluno decodifique as múltiplas mensagens neles presentes e, também, para que o professor obtenha melhores resultados em sua utilização.

Além das adaptações literárias, as escolas podem fazer uso da linguagem com outros temas. Uma ideia seria abordar em aula temas históricos e geopolíticos por meio das reportagens em quadrinhos, como os trabalhos de Joe Sacco, Guy Delisle e Art Spiegelman, que mostram um bom proveito dos recursos visuais da linguagem para suas obras, possibilitando para o jornalista, o historiador ou o cientista político explorar aspectos que apenas a linguagem textual não permite.

 

Páginas de Palestina: na Faixa de Gaza, do jornalista Joe Sacco

 

Para o especialista, os benefícios diretos dos quadrinhos à educação, nas diversas faixas de ensino, são muitos e ainda não suficientemente explorados: “Fala-se da questão da ludicidade, uma vez que os quadrinhos trariam um elemento lúdico que colabora para aumentar o interesse dos alunos pelo ensino. Fala-se da questão da imagem, tão presente em nossa sociedade pós-moderna e tão pouco compreendida pelos consumidores. Fala-se da questão das possibilidades que os diversos produtos de quadrinhos, em seus diversos gêneros e temáticas, oferecem ao ensino para a discussão de temas contemporâneos. Fala-se, enfim, da importância do domínio da linguagem dos quadrinhos pelos estudantes de todos os níveis, uma vez que eles fazem parte de seu dia a dia. Tudo isso é importante e verdadeiro. É inquestionável que as histórias em quadrinhos, em seus aspectos linguísticos, históricos, comunicacionais e sociológicos, entre outros, têm muito a contribuir para a melhoria da educação formal no Brasil.”

Para incentivar a leitura desse gênero, o Blog da Letrinhas montou uma lista com dez histórias em quadrinhos imperdíveis para a sala de aula.

 

A Divina Comédia de Dante (Seymour Chwast)

A obra mostra a versão do designer americano Seymour Chwast para o poema épico renascentista do italiano Dante Alighieri em estilo noir, guiando visualmente o leitor pelos nove círculos do Inferno ao Purgatório, e dele ao Paraíso. Com ilustrações ora explicativas ora irônicas, a HQ consegue entreter e inserir seus leitores no universo da obra original de Dante, a partir de uma leitura mais leve e moderna, mas não necessariamente menos complexa.

 

À sombra das torres ausentes (Art Spiegelman)

Art Spiegelman, um dos mais aclamados autores de romances gráficos, era vizinho das Torres Gêmeas quando chegou o 11 de setembro de 2001. Inconformado, questionador e com um tom irônico, o autor reflete sobre os rumos seguidos pelo governo americano após os ataques ao World Trade Center e suas conseqüências para os Estados Unidos e o mundo. A capa desta edição reproduz a que Spiegelman fez para a revista The New Yorker após o atentado: toda preta, com as torres gêmeas num tom mais escuro.

 

A revolução dos bichos (Odyr)

O ilustrador gaúcho Odyr transforma o livro homônimo de George Orwell, um dos maiores clássicos da literatura mundial, em uma HQ desenhada com tinta acrílica, fazendo com que cada página se tornasse uma verdadeira obra de arte. A escrita original de Orwell é transportada para as ilustrações com alguns cortes, já que a linguagem dos quadrinhos exige um tratamento mais sintético. Já o formato de fábula da narrativa original, com um elenco fantástico de animais e cenários naturais, possibilita uma leitura visualmente rica e acessível dessa alegoria universal sobre as fraquezas humanas que levam à corrosão de ideias e projetos de revolução política.

 

Ah, como era boa a Ditadura… (Luiz Gê)

O chargista Luiz Gê reúne neste livro suas obras publicadas no jornal Folha de S.Paulo durante o governo de João Figueiredo, último presidente da ditadura militar brasileira, narrando com humor os fatos políticos e sociais da época, da explosão da dívida externa, passando pela derrocada econômica até o processo de abertura política no país. Impulsionado pelo saudosismo da ditadura após as manifestações de 2013, o livro ganhou o Troféu HQ Mix de 2016 na categoria "melhor publicação de humor gráfico".

 

As barbas do Imperador (Lilia Moritz Schwarcz e Spacca)

A edição em quadrinhos feita pelo desenhista Spacca é uma adaptação do livro homônimo de Lilia Moritz Schwarcz, vencedor do Prêmio Jabuti de 1999, que narra vida e morte de D. Pedro II, bem como o contexto político da época. Essa parceria entre os autores, que acontece desde a publicação de D. João Carioca, dá continuidade ao revisionismo de fatos e personalidades da história nacional, questionando a imagem conhecida de D. Pedro II, ao mesmo tempo em que relata nuances e peculiaridades do governo mais duradouro do Brasil, de 1831 a 1889.

 

Anne Frank (Sid Jacobson e Ernie Colón)

Esta HQ não é uma reprodução gráfica do Diário de Anne Frank, um dos testemunhos mais célebres do Holocausto, mas sim um estudo ao redor de Anne. A obra traz uma biografia rica em informações históricas para que o leitor possa compreender melhor o contexto geral ‒ por exemplo, a crise econômica pela qual passava a Alemanha no início da década de 30. Para isso, os autores contaram com o apoio da Casa de Anne Frank, museu que funciona nas instalações em que Anne permaneceu escondida durante a 2ª Guerra Mundial, com acesso total aos arquivos. A obra possui um tom delicado tanto no texto quanto nas imagens, retratando o testemunho e os momentos históricos com uma preocupação em não tornar gráfico os horrores do nazismo de forma tão pungente e realista.

 

D. João Carioca (Lilia Moritz Schwarcz e Spacca)

O príncipe regente, Dom João, é o personagem central da obra que mais uma vez reuniu o cartunista Spacca e a historiadora Lilia Moritz Schwarcz, narrando essa passagem da história brasileira com a irreverência dos quadrinhos e o rigor histórico que o leitor merece. Elaborado a partir de extensa pesquisa documental e historiográfica, o livro é pautado na iconografia da época. A obra traz ainda uma bibliografia sobre o tema, uma cronologia que ajuda a entender os fatos no calor da hora e inclui uma galeria de esboços preliminares e estudos de personagens, cenários e vestimentas, detalhando o processo de criação, e suas influências.

 

Maus: a história de um sobrevivente (Art Spiegelman)

Maus é uma história dentro de outra história, construída a partir da relação entre o autor e seu pai, Vladek Spiegelman, que relata os difíceis anos que viveu durante invasão alemã à Polônia e depois nos campos de concentração. O título vem do termo alemão “rato" e, nas tiras, os judeus são desenhados como ratos e os nazistas ganham feições de gatos, poloneses não-judeus são porcos e americanos, cachorros. Esse recurso, aliado à ausência de cor dos quadrinhos, reflete o espírito do livro: trata-se de um relato incisivo e perturbador, que evidencia a brutalidade da catástrofe do Holocausto, sendo em 1992 a primeira graphic novel a ganhar o Prêmio Pulitzer de Literatura. Uma grande narrativa sobre a Segunda Guerra.

 

Notas sobre Gaza (Joe Sacco)

Uma década depois de ter surpreendido o mundo com seus relatos em quadrinhos sobre o conflito entre israelenses e palestinos – que lhe valeram um American Book Award em 1996 ‒, Joe Sacco voltou à Faixa de Gaza para este novo trabalho. Entre pesquisas e entrevistas com mais de 100 pessoas, o quadrinista frequentou a região por mais de sete anos. O livro é um relato de sua experiência in loco como jornalista, retratando com uma ilustração nua e crua os episódios do passado palestino e suas consequências atuais, tornando-se uma referência global do estilo – o autor liderou a mesa "A História em HQ" na Feira Literária Internacional de Paraty (Flip) de 2011.

 

Persépolis (Marjane Satrapi)

No contexto da revolução islâmica, a autobiografia ilustra a vida da garota iraniana e seu crescimento em meio aos fatos históricos da época, tratados de maneira clara, leve e direta. Pelos olhos da protagonista, temos um belo relato de vida permeado por um momento histórico riquíssimo e repleto de reflexões. Com esta HQ, a autora venceu o Prêmio Revelação do Festival Internacional de Quadrinhos de Angoulême, em 2001, premiação francesa considerada a mais importante do gênero, além de ganhar, em 2008, uma animação dirigida pela autora em conjunto com Vincent Paronnaud. História arrebatadora, para todas as idades.

 

A origem do mundo (Liv Strömquist)

“Uma história cultural da vagina ou a vulva vs. o patriarcado” é o subtítulo da graphic novel que aborda o tabu em relação à genitália feminina. A obra já foi traduzida para mais de dez línguas, sempre com humor afiado, com o qual a artista sueca expõe as mais diversas tentativas de domar, castrar e padronizar o sexo feminino ao longo da história. Com o objetivo de empoderar as leitoras em relação ao próprio corpo e sexualidade, a obra traz uma crítica hilária, libertadora e instrutiva sobre o sexo feminino.

 

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