Um verdadeiro mergulho no reino lobatiano

Por Luciana Sandroni

 

Tenho a lembrança bem clara do momento em que surgiu a ideia de escrever o Minhas memórias de Lobato. Eu trabalhava na biblioteca da escola Senador Correia, no Rio, no início dos anos 90. A professora da quarta série, Vera, começou a ler os livros do Sítio do Picapau com os alunos e foi tanta empolgação que a equipe inteira se mobilizou: a professora de artes fez com eles um Visconde gigante para a entrada da escola, havia desenhos dos personagens espalhados por vários cantos, pais e avós trouxeram edições antigas. Um verdadeiro mergulho no reino lobatiano.

Um dia, Vera me perguntou se eu conhecia alguém para falar sobre a vida do Lobato e convidei o amigo e escritor Luiz Raul Machado, um legítimo “lobatólogo”. Durante a palestra, as crianças ficaram muito empolgadas, especialmente um menino. Ansioso, ele a todo momento interrompia o palestrante revelando que sabia tudo: “O Lobato foi fazendeiro!”; “ele vendia livro em padaria!”; “ele vendeu 1 milhão de livros!”; “ele foi preso!”.

Aquela cena me marcou: um menino de nove anos com tanto interesse pela vida de um escritor clássico, e esquecido da TV naquele momento, só preocupada com shows infantis. Além disso, lembro que na época eu lia com empolgação o Anjo Pornográfico, de Ruy Castro, e acredito que juntei uma ponta na outra e tive ideia de fazer uma biografia do Monteiro Lobato para crianças. Mas como?

Comecei a reler alguns livros do Sítio e Memórias de Emília me chamou a atenção. Nessa aventura, Emília obriga o Visconde a escrever as memórias dela e, no final, ela o demite e começa a inventar coisas que nunca aconteceram, como ir para Hollywood e virar uma estrela de cinema... O livro me inspirou totalmente.

Parti para a pesquisa lendo as cartas de Lobato para o amigo Godofredo Rangel – A Barca de Gleyre – e a biografia do Edgar Cavalheiro, Monteiro Lobato – vida e obra. Fiquei sabendo de fatos íntimos da vida do escritor dos quais nunca ouvira falar: a querida avó, Dona Anacleta, não era a legítima esposa do avô, Visconde de Tremembé. Isso pode explicar a figura dominante de Dona Benta, proprietária do Sítio, que quase nunca se refere ao finado marido. O  avô Visconde possuía uma incrível biblioteca, que, na história lobatiana, é o lugar preferido do Visconde de Sabugosa...

Mas não posso negar que foi bastante divertido criar as partes em que a Emília inventava tudo, e não queria saber da pesquisa.

Por essa época, eu também fazia o mestrado em São Paulo, sobre processo de criação na literatura infantil e juvenil. Conheci vários escritores, entre eles, o querido João Carlos Marinho. Foi ele quem me alertou da necessidade de entrar em contato com a família do Lobato. Então mandei o texto para eles que, felizmente, gostaram muito. Também conheci a Heloisa Prieto, que publicava pela Companhia das Letrinhas e me passou o contato da Lili Schwarcz. Foi a primeira vez que mandei um texto por e-mail... E a Lili se entusiasmou e quis publicar!

O livro saiu em 1997 – há  20 anos! Quando o vi pela primeira vez, não acreditei: as ilustrações da Laerte eram maravilhosas, o projeto gráfico, incrível, fotos do Lobato, um capricho que nunca tinha visto igual. Foi realmente muito marcante.

Lembro de um lançamento no Rio, na livraria Malasartes, com amigos e familiares. Lançamos o livro também em São Paulo e achei que iria pouca gente, apesar de ter avó e tios paulistas. Foi numa livraria de shopping e a Companhia convidou uma atriz, indicada pela família do Lobato, para entreter as crianças representando a Emília. Ela estava caracterizada de boneca e foi tão divertida, tão engraçada que as crianças que passavam ficaram loucas com aquela Emilia perdida no shopping. De vez em quando, a atriz conversava comigo na mesa, comentando coisas do texto, falando mal do Visconde enquanto eu defendia o sabugo. Foi tão divertido que alguém perguntou se tínhamos ensaiado... Enfim, foi um dos melhores lançamentos que já tive, com uma fila enooorme, tudo graças à atriz/Emília...

No ano seguinte, o livro foi duplamente premiado e entrou no projeto do governo, Literatura em minha casa – os  livros eram entregues para os alunos levarem para casa. A Lili sugeriu que eu fizesse uma nova biografia e deu a ideia do Mário de Andrade! E criamos essa “coleção” de biografias para crianças sempre com um pé na ficção...  

No final dos anos 90, a TV Globo voltou a se interessar em adaptar novamente o Sitio. A família do Lobato, dona Joyce e seu Jorge, me indicaram para o diretor Roberto Talma, que me convidou para fazer parte da equipe dos roteiristas da nova versão.

Enfim, o Minhas Memórias de Lobato tem muitas histórias para contar!

 

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Luciana Sandroni nasceu no Rio de Janeiro, em 1962. Formou-se em Letras pela PUC do Rio de Janeiro e fez mestrado em Comunicação e Semiótica pela PUC de São Paulo. Autora de vários livros infantis e juvenis premiados pela Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil, Luciana também recebeu o Prêmio Jabuti de Melhor Livro Infantil pelo livro Minhas Memórias de Lobato e indicação para a lista de honra do Ibby, International Board on Books for Young People. Algumas de suas obras são Memórias da Ilha, O Mário que não é de Andrade, Joaquim e Maria e a estátua de Machado de Assis.

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Ilustração Marcelo Tolentino