Um museu para pensar a mulher e o feminino

(Reprodução de obra de Beth Moysés - imagem da performance "Desatar tiempos" -, integrante da exposição "Meu corpo, minha língua", no MIMA)

 

Em 25 de novembro, a artista plástica, escritora, jornalista e professora paulistana Katian Canton inaugurou a primeira exposição do Museu Internacional da Mulher Associação (MIMA), em Lisboa, no papel de diretora artística da instituição. A capital portuguesa ganhou, assim, um espaço para pensar as relações e papéis de gênero e mostrar o trabalho de artistas incríveis, especialmente mulheres, sobre as questões do feminino, do feminismo e das mulheres. Não há, no Brasil, iniciativa análoga. E é uma pena, porque meninas e meninos, mulheres e homens têm muito a ganhar com um espaço destinado a esse tipo de produção e reflexão. Convidamos Katia Canton para contar um pouco mais sobre a importância de um museu como este para a sociedade, a linha de pensamento do MIMA e como ela acabou na direção artística deste espaço.

 

Por Katia Canton

O convite para integrar o MIMA

Em 2016, comecei um intercâmbio com o programa Interarte do Centro de Literaturas e Culturas Lusófonas e Europeias (CLEPUL) da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, com a professora Annabela Rita. No ano seguinte, realizei uma exposição na galeria da universidade chamada “A Cura pelas Histórias” e falei de minha pesquisa sobre os contos de fadas, que começou no meu mestrado, em 1987, na Universidade de Nova York, continuou pelo doutorado e dura até hoje.

Na exposição, mostrava pinturas e desenhos feitos com medicamentos de tinturas, como Povidine, mercúrio cromo, iodo, violeta genciana, azul de metileno, rifocina. Era sobre a cura das narrativas e, sobretudo, do feminino. A jornalista portuguesa Paula Castelar, presidente da associação do MIMA e a pessoa que teve a ideia do museu em Lisboa, viu a exposição. Conversamos, ela soube de minha experiência no MAC-USP [Katia foi curadora e vice-diretora], e me convidou para assumir a direção artística do museu.

 

Nada muda sem educação. E um museu da mulher serve, em primeiro lugar, como um local, uma plataforma de imagens e vozes que nos fazem pensar diferente.

 

As mulheres e os contos arcaicos

 

(Reprodução de obra de Katia Canton, integrante da primeira exposição do MIMA)

Nos contos maravilhosos mais arcaicos, antes mesmo da descoberta da escrita, os seres humanos já usavam a narrativa para expressar sua vida e também seus desejos, na maioria das vezes satisfeitos  apenas na fantasia, através de uma ajuda mágica. Nesse sentido, escrevi pela Companhia das Letrinhas o livro “A Cozinha encantada dos contos de fadas”, que comenta o fato de todos os camponeses sonharem em sentir saciedade, o que muitas vezes nunca acontecia – as pessoas morriam sem nunca sentir a barriga cheia.

Nas narrativas, as mulheres foram retratadas de formas muito diferentes ao longo do tempo. Há versões de uma mesma história onde o personagem feminino é forte e guerreiro em uma e reaparece frágil, esperando o príncipe encantado para salvá-la em outra. Um exemplo dessa fragilização está nas animações antigas da Disney, que hoje vem revisando esse lugar do feminino.

 

O Museu Internacional da Mulher Lusófona (Associação)

(Reprodução de obra de Katia Canton - "Chapeuzinho e o Lobo", integrante da primeira exposição do MIMA)

 

Trata-se do primeiro museu internacional dedicado à produção estética e ao pensamento gerado pelas mulheres do mundo lusófono, incluindo aquelas que habitam os quatros continentes, entre Europa, América, África e Ásia. O MIMA pensa a mulher como protagonista para um mundo mais sustentável. Seu projeto de arte está focado na ideia de um mundo mais equânime, com igualdades de oportunidades, direitos e deveres, onde as mulheres possam exercer sua vocação cuidadora em relação à terra, à água, aos outros seres humanos, podendo também ter a oportunidade de expressão e a potência para tanto.

Cada exposição busca unir poéticas e vozes de artistas, designers, artesãs, escritoras de países lusófonos, numa reunião de temas abordados de acordo com as discussões propostas. Também há espaço para homens, interessados em pensar junto conosco essa reconstrução de mundo.

Já realizamos uma primeira exposição, “Meu corpo, minha língua”, coincidindo com o Dia Internacional pela Eliminação da Violência Contra a Mulher. A segunda exposição, “Virtude e vulnerabilidade” será focada na mulher em relação às mudanças climáticas, pensando no papel da mulher que cuida da natureza, por um lado, e vive em condições precárias em vários países, por outro. A terceira exposição, “Mundo da moda e depois”, se propõe a pensar a fast fashion, o papel da mulher dentro de seu meio de trabalho, as consequências de sua produção e repercussões para o meio ambiente e, sobretudo, as alternativas a esse processo.

 

Por que é importante um museu da mulher lusófona?

(Reprodução de obra de Katia Canton, integrante da primeira exposição do MIMA)

 

O MIMA faz parte de um grupo de museus dedicados à mulher no mundo. Cada um deles tem uma agenda específica, mas em comum há o desejo de dar visibilidade para a produção das mulheres.

Há no mundo muitas situações em que as mulheres são sufocadas em sua potência como seres humanos. Um exemplo de luta incrível é o da Malala, a menina paquistanesa que foi baleada na cabeça ao sair da escola em outubro de 2012, quando tinha 15 anos, por lutar pelo direto das mulheres e meninas à educação. É a pessoa mais jovem até hoje a ganhar o Prêmio Nobel da Paz, aos 17 anos, e, como o dela há tantos outros exemplos de lutas que precisam ser travadas.

Sabemos que nada muda sem educação. E um museu da mulher serve, em primeiro lugar, como um local, uma plataforma de imagens e vozes que nos fazem pensar diferente. Um museu é capaz de nos modificar, nos acrescentar, nos alargar.

O MIMA é para todo tipo de gente. Para meninas e meninos, mulheres e homens. É um museu que não exclui ninguém. Ao contrário, tem exposições, eventos e discussões que propõem um mundo mais expansivo, justo e interessante. E é justamente nos projetos educativos que está o principal pilar de expansão das exposições. Durante a mostra “Meu Corpo, Minha Língua”, por exemplo, nas visitas de escolas, vários meninos se manifestaram com interesse pelo trabalho das artistas. Perguntaram sobre elas e fizeram parcerias com as meninas no sentido de criar núcleos de pesquisas para aprofundar perguntas que a mostra levantava.

 

Leia também:

+ A fabriqueta inventiva de Katia Canton

+ Ser sensível é coisa de menina?

+ Para educar crianças feministas

Acesse a Letrinhas nas redes sociais