Um mar de possibilidades pela literatura do outro

 

Os alunos do primeiro ano do ensino fundamental da Unidade Municipal de Educação Padre Waldemar Valle Martins, na cidade de Santos (SP), já estão habituados às viagens da literatura infantil. A professora Maria de Lourdes Garcia, que há 27 anos trabalha como educadora, realiza leituras diárias com os estudantes que estão em período de alfabetização. Assim, os momentos de reflexão coletiva acerca dos conteúdos lidos se tornaram parte da rotina, permitindo que os alunos ultrapassem as folhas dos livros e façam conexões com a própria realidade para uma compreensão ampla a respeito da narrativa.

 

 

Em um desses vários encontros, entre a turma e a leitura, a história de uma protagonista de uma das muitas histórias lidas , uma menina que realizava desejos com uma varinha de condão, provocou um comentário que surpreendeu a professora. Quando perguntado aos alunos o que gostariam de realizar caso também tivessem uma varinha de condão, um deles, Raphael Souza, respondeu que gostaria de ajudar os refugiados. Para Lourdes, o assunto parecia distante de uma criança de sete anos. Mas o garoto estava acostumado a assistir ao noticiário com a família e se sensibilizou com a causa.

Passado um tempo, seria necessário escolher o projeto da sala para a Feira de Ciências da escola. Foi, então, que, em uma conversa com a professora Cecília Costa, que também dá aulas para o primeiro ano, o comentário do Raphael surgiu como inspiração. A história de Malala já havia sido trabalhada por Cecília com uma outra turma e seria o encaixe ideal para tratar a questão dos refugiados em concordância com o tema da feira: “Com empatia no olhar, um novo mundo surgirá”. “O projeto foi bem longo, e começou com rodas de conversa para saber o que as crianças tinham de informação a respeito da Malala e dos refugiados”, comenta Lourdes.

 

 

Depois de abertas as discussões, foi percebido que os alunos sabiam pouco sobre o tema. Assim, começou o mergulho na literatura infantil para desbravar os oceanos sobre o outro. Diversas obras sobre empatia serviram de base para atividade, como A viagem (V & R Editoras), Eloísa e os bichos (editora Pulo do Gato) e, claro, Malala - A menina que queria ir para escola (Companhia das Letrinhas), de Adriana Carranca. Esta última recebeu tratamento de documento histórico, o que, considerando o trabalho de investigação da autora, não deixa de ser. As fotos ali apresentadas foram fundamentais para que os estudantes se familiarizassem com a cultura paquistanesa. 

Terminada a etapa de reconhecimento do tema, foram feitas cartas hipotéticas para amigos refugiados, uma pesquisa sobre os brinquedos e as brincadeiras do Paquistão, maquetes com massinha de modelar e bonecas de papel de Malala, evidenciando os trajes típicos de onde se vive. O desenvolvimento do projeto coincidiu com o momento em que as crianças aprendiam a escrever o próprio nome. Assim, tomando como motivo a informação de que as mulheres paquistanesas só obtinham um sobrenome depois de casadas, os alunos criaram uma árvore genealógica diferente, expondo os nomes e desenhos de suas famílias.

 

 

O objetivo de todo projeto foi mostrar os pontos de contato entre Brasil e Paquistão, literatura e realidade. A noção de perto e longe foi explicada, por exemplo, quando as crianças tiveram que encontrar no globo terrestre e no mapa-múndi o país de Malala. A percepção da realidade dos refugiados foi conhecida pelos relatos da mais jovem ativista a receber o Prêmio Nobel da Paz. No dia da feira, todos os trabalhos foram apresentados, e as turmas de Lourdes e Cecília ainda fizeram um coro da canção De toda cor, de Renato Luciano. “Passarinho de toda cor / Gente de toda cor / Amarelo, rosa e azul / Me aceita como eu sou”, são alguns dos versos. 

Existem temas que, pela dificuldade de serem abordados, parecem exclusividade de adultos. A crise dos refugiados é um deles. Mas, quando esses mesmos temas envolvem crianças e apontam para preconceitos que podem ser combatidos justamente na infância, será que não devem ser explicados aos mais jovens? Na UME Padre Waldemar Valle Martins, o assunto pesado dos jornais foi adaptado ao universo das crianças. De modo que ainda prevalecesse o entendimento da realidade. Um projeto multidisciplinar para abarcar a complexidade do que é a experiência do outro. Tarefa que parece ter sido bem-sucedida quando, alunas como Mel de Araújo definem: “A Malala era mais forte que os talibãs porque eles usam armas e ela não”. Assim, leitores continuam a cruzar oceanos pelos livros.

 

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