Um encontro marcado com mestres da literatura infantil

 

As meninas atrevidas da literatura infantil, personagens desajustados, a arquitetura do livro para crianças. Esses são alguns temas presentes na segunda temporada do programa sobre literatura do SescTV, o Super Libris, que estreia nesta segunda-feira (14). Sob a direção do escritor José Roberto Torero, que tem publicado pela Companhia das Letrinhas livros como Branco, Belo e CindereloChapeuzinhos coloridos e Os 33 porquinhos, o programa conta ainda com a curadoria do jornalista Manuel da Costa Pinto e do escritor e roteirista Marcus Aurelius Pimenta, que escreve suas obras infantis em parceria com Torero.

 

José Roberto Torero, diretor do programa Super Libris, já em sua segunda temporada

 

O primeiro episódio, que será exibido às 21h no canal de TV, tem a participação do músico e escritor Chico Buarque, autor de O irmão alemão e Budapeste. Os 26 episódios que compõem essa segunda temporada, no entanto, também trazem entrevistas com autores da literatura infantil, como Ana Maria Machado, Eva Furnari, Pedro Bandeira e Angela-Lago, falecida em setembro do ano passado.

"Não tenho certeza, mas creio que, no caso destes quatro, escolhemos antes o autor e depois o tema. São quatro escritores muito importantes na literatura brasileira, que não podiam ficar de fora de um painel como o Super Libris", comenta Torero. Ele ainda nos conta das mudanças em relação à primeira temporada do programa, que está disponível na íntegra no site do SescTV: saíram os quadros “Colofão”, que abordava as profissões em volta do livro, e “Ptolomeus”, que mostrava bibliotecas curiosas pelo Brasil. Em compensação, entrou “Epígrafe”, que fala sobre as adaptações de livros para outras artes, como cinema, teatro, HQ e música.

Além disso, as entrevistas com os autores ficaram mais compridas. “Dava dó jogar tanta boa coisa fora. E desta vez conseguimos caçar alguns escritores mais ariscos, como Luiz Vilela, que fomos entrevistar em Ituiutaba, R. F. Luchetti, que vive em Jardinópolis e escreveu mais de mil livros (seu assunto foi "Literatura de banca de jornal"), e Chico Buarque.”

O que não mudou foi o quadro "Prefácio", dedicado inteiramente a falar de literatura infantil com as especialistas Cristiane Tavares, Dolores Prades e Sandra Medrano. "Achamos que o quadro deu muito certo e não deveria ser mexido. Ele é belo, informativo e trata-se de um dos poucos espaços na TV para a literatura infantojuvenil. Talvez o único", explica Torero.

 

Angela-Lago, durante momento de entrevista para o episódio "Palavra desenhada"

 

Um destaque da temporada é o episódio “Palavra desenhada”, com a participação da autora Angela-Lago, que nos deixou no ano passado. Com a temática do livro-álbum, seu objeto de expressão durante toda a vida, a autora de O caixão rastejante e outras assombrações de família fala da falta da unidade da sua obra e da experimentação no que ela chama de “arquitetura do livro”: as margens, dobras e pausas do virar de páginas.

"Foi um encontro sensacional. Fomos até o sítio em que ela vivia, no interior de Minas Gerais, e toda a equipe saiu encantada. Ela falou como uma mestra zen-budista", nos conta Torero, que realizou o que seria uma das últimas entrevistas concedidas pela artista. "Suas respostas foram sinceras, surpreendentes e pensadas. A gente podia ver ela tecendo o raciocínio, e sempre de um modo muito livre, sem preconceitos nem lugares comuns. Foi um encontro tão agradável que até fizemos um livro em dupla, com ilustrações do Pedro Hamdam. Infelizmente, por razões legais, o livro deve ficar no estaleiro por um bom tempo."

 

Ana Maria Machado, que, entre outros temas relevantes, falou dos autores da geração 70

 

Outro grande nome da literatura infantil presente na temporada é a escritora Ana Maria Machado, que ganha destaque no episódio "As meninas atrevidas da literatura infantil". A entrevista gira em torno de dois temas principais: a obra de Monteiro Lobato e a geração de escritores para infância da década de 70, da qual a autora participou.

Sobre Lobato, a autora de A princesa que escolhia destaca sua genialidade e a importância em certo momento da literatura brasileira, apesar da pouca sensibilidade para tratar de questões raciais. Para um escritor que fala de irreverência e independência (principalmente a partir da boneca Emília), ele esquece da independência dos descendentes de escravos em uma época de memória da escravidão muito viva e recente.

Já em relação aos escritores da década de 70, como Ziraldo, Ruth Rocha, João Carlos Marinho, Pedro Bandeira e Lygia Bojunga, ela expõe uma teoria. Acredita que boa parte dessa geração migrou para a literatura infantil devido ao tolhimento da ditadura militar em outros tipos de arte. A infância seria o espaço de expressão mais livre, poético e ambíguo.

 

Eva Furnari, autora entrevistada no episódio "Pequenos desajustados"

 

De ambiguidade entende bem a autora Eva Furnari, que teve a sua participação no episódio “Pequenos desajustados”. Fala sobre seus personagens que desafiam as convenções entre bem e mal e investigam a fundo as questões humanas ligadas a um ideal de perfeição. Na sociedade atual, enxerga uma discussão mais madura sobre heróis e vilões, uma capacidade maior de aceitar que o mal não pode ser destruído – ele está em todos os seres, assim como o bem. No entanto, acredita na potência da literatura em mostrar às crianças o esquisito, o diferente, a ensiná-las regras sociais e ajudarem-nas a lidar com a frustração na vida adulta. 

 

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