Uma educadora cheia de prosa

 

Neide Palumbo é uma educadora cheia de histórias. É que já no início de carreira foi viver ao lado de uma comunidade caiçara de São Sebastião, no litoral de São Paulo, onde atuou como professora por muitos anos e passou a ouvir uma porção de causos. As memórias e as experiências daquele tempo se transformaram nas narrativas que ela conta até hoje, preservando o sotaque transformado pelas diversas culturas que chegaram com a estrada Rio-Santos na região.

Para a educadora, caiçara é aquele que olha para o céu e sabe dizer se vai dar “treboada”, é quem tem o mar como fonte de sustento. Ela gosta de se relembrar desse tempo com as apresentações que faz pela cidade do litoral paulista e pretende eternizar suas histórias em vídeos a partir de uma campanha de financiamento coletivo. A ideia é disponibilizar essas experiências em forma de causos em escolas pelo país.

 

 

Os tempos de convívio com os caiçaras são marcados por muitos aprendizados. "O que tínhamos de material na escola era lápis, caderno, um giz e a lousa, mas eu procurava fazer com que tudo tivesse uma vida, que tudo fosse com alegria", lembra a professora, com um sorriso no rosto. Para isso, inventava piqueniques na praia, fazia amizade com as famílias da ilha. Quando as crianças não iam bem na escola, o jeito era passar as tardes na casa de Neide estudando mais um pouquinho. "Uma pessoa tem que ter bom humor. Senão, não adianta nada ser bem sabida, muito culta. As crianças aprendem com alegria", explica.

Não que a vida da educadora fosse fácil. Faltavam estradas e a principal condução entre a cidade e a ilha era o barco. Se o mar "virava", não dava para realizar a travessia. Era o que acontecia com frequência com as professoras da região, que uma vez por mês tinham presença obrigatória em uma reunião pedagógica na cidade. Era o mar ficar "grosso" que as aulas eram suspensas por até uma semana. E mesmo em dias de boa navegação, era preciso esperar o intervalo entre uma onda e outra para chegar em terra firme. Neide lembra a adrenalina de descer daquela canoa e "pular na praia".

 

Ilustração Marcelo Tolentino

 

Para poupar as aventuras e garantir a constância das aulas, ela ficava hospedada em uma casa da comunidade. De lá até a escola era um quilômetro de caminhada na areia, trajeto que deixava como recordação as abundantes picadas de borrachudos e bichos-de-pé. O jeito era andar pela ilha com a meia para fora da calça. Apesar desses desafios, a educadora não reclama daqueles tempos em que era tratada com distinção. Na comunidade caiçara, a professora, mulher que "trazia a cultura", recebia o melhor pedaço de peixe fresco, a melhor fruta. "A gente era muito paparicada.”

A experiência da escola era breve para as crianças caiçaras, que estudavam até a quarta série. A formatura era evento marcado no cinema da região, oportunidade para os estudantes exibirem seus talentos musicais, com direito a apresentação de canto e de bailados, ensaiados por meses. A partir daí, se não continuavam seus estudos em Santos, os meninos começam suas atividades como pescadores. As meninas, já treinadas na arte de fazer bordados, aprimoram seus talentos em casa, dedicavam-se aos roçados, faziam farinha e trançavam esteiras com a folha da bananeira.

A prosa com a professora segue comprida quando o assunto é a vida das crianças caiçaras, que viviam no mato, colhendo goiaba e manga direto do pé. Já o dever dos homens era o comércio, vendendo cachos de banana aos barcos que visitavam as casas todas as quartas e domingos. Banana bem cotada, o dinheiro era bom e ajudava na subsistência. Entre famílias, no entanto, a moeda não era tão comum. Trocava-se abacate por laranja, mexerica por coco. A carne era de caça, atividade antes liberada e que ainda contava com o auxílio do cão da família. Outra opção era comprar do açougueiro, que uma vez por semana matava um boi.

Mas, com o mar tão presente na vida dos caiçaras, uma refeição à base de carne era raridade. Foi um dos estranhamentos de Neide, carnívora de carteirinha. Peixe no almoço e na janta. Quando o mar tornava bravo, era peixe seco. Outra saudade culinária era o pão, que simplesmente não existia na região. Café da manhã era à base de abacate, batata-doce, mandioca, inhame, cará, farinha… Uma variedade de inusitados sabores.

Desse tempo sobraram as histórias a contar, feito que Neide pratica desde que resolveu se aposentar. O sotaque caiçara dá um toque especial aos causos cobertos de humor, cuja veracidade ela certifica. Seu ritmo hipnotizante nos remete a tempos à beira da fogueira ou do fogão de lenha. "É uma coisa que eu tenho dentro de mim e nunca vou perder, uma riqueza minha”, conta a educadora, cheia de prosa.

 

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