Um abecedário de jeitos de estar no mundo

Entre as muitas discussões relevantes da última Feira Internacional do Livro de Guadalajara, uma tratava da introdução da criança no mundo das letras, por meio dos abecedários. O evento, um dos mais importantes no segmento literário e a maior reunião do mundo editorial em espanhol, ocorreu entre 26 de novembro e 4 de dezembro e reuniu autores, agentes literários, bibliotecários, livreiros e editoras de mais de 40 países.

Os abecedários costumam ser feitos de coisas – armário, dado, zabumba –, substantivos que ajudam a criança a nomear as coisas no mundo. Mas e se fossem compostos por ações, os jeitos de estar no mundo? Foi essa a pergunta dos autores do livro Abecedário – Abrir, brincar, comer e outras palavras importantes, de Ruth Kaufman e Raquel Franco, ilustrado por Diego Bianki.

Numa mesa mediada por Mell Brites, editora da Companhia das Letrinhas, Raquel e Diego falaram sobre a proposta do livro, que rompe com uma ideia tradicional ligada à alfabetização. “Os abecedários foram as primeiras ferramentas pedagógicas a ensinar a ler. Tradicionalmente vinculavam um som a uma letra. Para ‘d’, dedo ou dedal”, diz Raquel, que, em parceria com Diego e Ruth Kaufman, dirige desde 2012 a Pequeño Editor.

Mas a pesquisa sobre essa ferramenta começou bem antes de o projeto nascer. Diego, em sua primeira visita à Feira de Bolonha, em 2002, conheceu um infinidade de abecedários. “Descobri que eram um gênero.” Entre os muitos achados naquelas prateleiras, encontrou um abecedário de Bruno Munari, “um grande mestre”, que serviu como importante fonte de inspiração.

Segundo a autora, a chave da linguagem hoje está nas ações. “Nos relacionamos e nos comunicamos por meios das ações, dos verbos”, afirma. Então, para a letra “d”, o verbo pode ser ‘dar com carinho’. “Queríamos criar um sentido de linguagem muito mais significativo do que o dado pelos substantivos”, diz Raquel. A linguagem se amplia por meio dos verbos: nascer (nascer de um ovo, nascer de uma hora para outra, nascer na África).

O livro traz os verbos, acompanhados de diversas frases verbais, como um convite a um jogo. Cada criança pode inventar seu próprio uso para o verbo nascer. “Esse era um dos objetivos do livro: mais do que criar uma situação de leitura, a gente desejava criar uma situação de jogo”, conta a autora, que destaca que a obra integra uma coleção de textos informativos, lúdicos e quase gráficos.

As palavras, claro, carregam uma forte visão de mundo – assim como “l” de “ler em braile”; “p” de pentear os cabelos crespos” ; “q” de “querer e não poder”. Por isso o desafio primeiro era a escolha dos verbos. “É diferente ‘dar um presente’ e ‘dar de coração’. ‘Dar de coração’ tem a ver com uma entrega não só linguística. Procuramos para cada verbo um sentido muito profundo, nada banal”, explica Raquel.

Questões de identidade e de diversidade são outra marca forte da obra. Há um intenso diálogo entre culturas permeando as ações: “c” é “comer com palitinhos” ou “comer com as mãos”. “Não pensamos num livro só para nosso território, pensamos num livro universal, com verbos universais”, conta o Diego, candidato argentino ao Hans Christian Andersen em 2016.

É por isso que suas ilustrações trazem personagens representando todos os continentes. Asiáticos comendo de palitinhos, africanos vendo uma girafa nascer, latinos dançando salsa, entre uma diversidade de personagens que convidam a pensar sobre os muitos jeitos de estar e viver no mundo.

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