Silêncio e silenciamento na literatura infantil

 

O Congresso Bienal da Sociedade Internacional de Pesquisa para Literatura Infantil (IRSCL), um dos maiores encontros da área, chegou a sua 24º edição em Estocolmo, na Suécia, entre os dias 14 a 18 de agosto deste ano. Mell Brites, editora da Companhia das Letras, uma das poucas especialistas nacionais a participar do evento, compartilha suas reflexões sobre o painel que integrou ao lado de outros brasileiros e também conta um pouco sobre o que viu e ouviu por lá.

 

 

O tema Silêncio e silenciamento foi o mote para os cinco dias de palestras e conversas. A ideia principal era trazer “novas ideias e impulsos, de encontrar velhos amigos e fazer novos, de estar juntos, de experimentar sons e silêncios“, como indica o texto do programa do IRSCL. Com um público misto de autores, editores e pesquisadores dos mais variados países do mundo, o trabalho às vezes solitário e silencioso de estudar ou produzir a literatura infantil foi substituída, brevemente, pela união e animação de tantos grupos alinhados num mesmo ofício.

A inspiração para esse recorte veio dos clássicos das crianças nórdicas, como A Pequena Sereia de Andersen, que abandona sua voz por amor, e o Hemulen, que busca um pouco de paz e quietude em O Hemulen que amava o silêncio, de Tove Jansson. E também nos seus opostos, com protagonistas estrondosos e vocais, como Píppi Meialonga, de Astrid Lindgren. O mesmo dinamismo da pausa e do som também aconteceu entre os participantes, para os quais o ouvir e o falar se revezavam para uma compreensão mútua das diferentes realidades que as 500 vozes de palestrantes trouxeram – um recorde de público no evento.

“Pessoas do mundo inteiro! Acho que o evento contou com mais de 50 países representados. O congresso abria diariamente com uma mesa às 8h45 da manhã, com algum professor de alguma universidade do mundo. Depois dessa palestra de abertura, aconteciam sessões com várias mesas e apresentações de uma média de três papers por sala, cada um trazendo uma pesquisa sobre esse tema. Teve um pouco de tudo, conversas e palestras sobre autores, sobre ditadura em determinados países e como isso afeta a produção dos livros infantis”, conta.

E foram diversas as conversas geradas a partir do tema central do congresso. Entre tantas vivências e experiências diferentes que circularam pelos painéis diários, uma questão primária surgiu: o silenciamento da própria literatura infantil sob todo o espectro literário. Mell comenta: “Mesmo em países que têm uma valorização maior da literatura infantil dentro ou fora do universo acadêmico, ela é vista como menos valorizada do que deveria ser. Essa busca pela valorização da literatura infantil é nossa, mas também é desses países que a gente imagina ser o paraíso. Isso foi interessante de ver, como todo mundo tem essa sensação muito parecida de que é ainda um gênero silenciado de um modo geral”.

 

 

 

“Esse tema rondou também muitas outras facetas.” Foi discutido, por exemplo, o silenciamento das traduções e adaptações que escondem o texto original, fora todos os silêncios das vozes das minorias que não são representadas nos livros infantis, para os quais o congresso buscou trazer mesas sobre representação e representatividade dos negros, das mulheres, de pessoas com deficiência. “Até, claro, esse silenciamento que a gente está vivendo aqui de uma censura não formal“, destaca. “Que não vem na forma de uma censura do Estado propriamente, apesar de o nosso presidente falar e criticar os livros abertamente. Outros países vivem situações semelhantes, acho que a sensação geral é a de que esse é um tema muito premente, muito atual, essa questão do silenciamento e do silenciar está pegando todo mundo de uma forma ou de outra.”

Mas, assim como apontaram as falas no IRSCL, em contrapartida, também há muita coisa sendo feita. “As mesas falaram bastante sobre essa questão atual de representatividade, diversidade, censura, um pouco sobre tudo isso que tá tão em voga porque estamos nesse mundo tensíssimo, né?“ Mell, ao lado de Isabel Coelho, João Luís Ceccantini e Roger Mello, participou do painel Cala a boca já morreu, em que foi abordada a relação do livro com a escola, traçando um breve histórico da literatura infantil brasileira até chegar aos casos atuais.

“Falei sobre como a literatura infantil hoje está nos holofotes como um veículo transmissor de ideologias, como a gente virou de repente um centro de atenção. E o Roger falou uma coisa muito legal, que é como os livros infantis na época da ditadura tinham esse poder de subversão, pois as pessoas não davam atenção para esse tipo de literatura. Então as coisas passavam, era um modo de trazer mensagens tidas como subversivas nos livros infantis. Isso hoje é bem diferente. Está mais difícil porque de repente os livros infantis viraram o foco do olhar de certos grupos da sociedade, tanto os da direita quanto os da esquerda.”

 

Livro Aparelho sexual e Cia da autora francesa Hèlene Bruller, alvo de uma notícia falsa na época das eleições presidenciais

 

E completa: “Então, de um lado, a gente vê um movimento muito conservador no plano geral, e do outro, vários pequenos movimentos de pessoas e grupos que estão tentando enfrentar isso. Se por um lado estamos em um momento de trevas,  um pouco a sensação do que as pessoas diziam no congresso, por outro, há coisas inéditas acontecendo. É um momento fascinante de todo modo”.

Ainda pensando no silenciamento do próprio gênero, em uma keynote, como chamaram as mesas de abertura, outro pesquisador trouxe uma visão sobre Munro Leaf, autor de O touro Ferdinando, num bate-papo sobre seu papel político em termos de disseminação da literatura infantil no mundo. A editora também destaca uma mesa sobre o autor australiano Shaun Tan, na qual falou-se sobre o livro A chegada, que narra “as peripécias de um homem que tem de se adaptar a uma nova terra e como ele se vê no trabalho...”, explica Mell. “Foi uma sessão em que três pessoas diferentes falaram sobre o autor e como os livros dele dialoga com esse tema do silenciamento de diversas maneiras: esse homem imigrante que chega a uma cidade nova e como ele é visto pelos outros ou como ele mesmo se vê dentro desse novo lugar. Conversaram sobre as técnicas do artista, sobre a pessoa, a personalidade, foi muito interessante, gostei muito dessa mesa.”

Entre tantas outras vozes inspiradoras que ouviu, Mell destaca uma frase de Jack Zipes que poderia resumir os dias de congresso: "The serious writers today don't provide happy endings, they provide hope endings" [Os escritores sérios de hoje não entregam finais felizes, eles entregam finais esperançosos].

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