Se essa rua fosse minha...

 

Se o imaginário das grandes cidades do mundo é marcado pelo medo, pela violência e pela solidão, isso é invenção de adulto. Para a criança, um estranho na rua pode revelar-se um amigo, bancos na praça podem ser ponto de encontro para as mães descansarem, paredes lisas podem ser telas em branco. É o que percebeu Nayana Brettas, criadora do projeto ImaginaC, visando conectar os cidadãos mais novos aos espaços urbanos a partir de ações pontuais e de jogos.

 

 

Ela começou transformando o Glicério, bairro paulistano localizado às margens do rio Tamanduateí. Em uma mudança que incluiu muitas cores, brincadeiras e imaginação, convidou a comunidade a transformar o espaço em local de convivência. A mudança foi muito mais do que material. “Só o fato de colocar a criança no centro e valorizar o que de fato ela está falando mexe em um espiral tão grande que nem temos noção”, conta a pesquisadora, que hoje (7/12) participará do primeiro bloco de maracatu dos manifestos no bairro.

No evento, convida as pessoas a ouvirem meninas e meninos e criarem o manifesto das crianças pelo direito à cidade. Ela nos conta o poder dessa mudança. “Transforma não só os espaços físicos, mas as relações entre a criança e a escola, a família, a comunidade. É um espiral de ressonância sem fim”, conta Nayana, que diz ainda carregar consigo aprendizados que obteve com as atividades que realizou na região.

 

 

Ao longo de seus anos de pesquisa, percebeu que o adulto olha a criança sempre como um grande problema. Ela só aparece em cena, por exemplo, na volta às aulas, quando o trânsito das grandes vias urbanas aumenta. Isso porque não está ajustada às loucuras de uma vida capitalista; gosta de contemplar a folha que achou entre um paralelepípedo e outro da calçada, a joaninha que achou em um buraquinho da rua. As crianças são afastadas das atividades da cidade tanto quanto os idosos, trancados em suas casas. São o que ela chama de “os dois grandes pólos de sabedoria da nossa humanidade”, porque estão conectados com a “fluidez da vida”. Considerados improdutivos, são excluídos de um espaço que não foi feito, pensado nem criado, para eles.

Ela fala mais sobre esse lugar criado por e para os adultos no estudo que desenvolveu, A cidade (re)criada pelo imaginário e cultura lúdica das crianças : um estudo em Sociologia da Infância, pela Universidade do Minho, em Portugal. Explica que há muitas cidades em uma mesma cidade. “Na cidade dos adultos, estes têm circulação livre pelos espaços urbanos, enquanto que, para as crianças, são construídas cartografias urbanas que delimitam quais são os seus espaços na cidade: os espaços do brincar, com os parques, e os espaços educativos, como a escola. Assim, os adultos vão configurando a cidade ao seu modo, sem consultar as opiniões, os desejos e as necessidades das crianças e regulando o tempo de permanência delas na cidade – veloz e efêmero. A cidade vai se construindo de forma a excluir a infância da vida urbana, um direito que será permitido somente quando adultos.”

Esses modelos de espaço urbano são prejudiciais não só às crianças, mas aos adultos que um dia virão a ser. A relação que temos hoje com o público é de medo, como disse o sociólogo Zygmunt Bauman, em seu livro Confiança e medo na cidade: “Poderíamos dizer que a insegurança moderna, em suas várias manifestações, é caracterizada pelo medo dos crimes e dos criminosos. Suspeitamos dos outros e de suas intenções, nos recusamos a confiar (ou não conseguimos fazê-lo) na constância e a regularidade da solidariedade humana”. Isso faz com que tenhamos medo de deixar nossas crianças andarem sozinhas na rua, sendo que nós é que não estaríamos proporcionando uma cidade saudável a elas.

 

 

Uma espaço que as inclua, em que elas possam se locomover e se desenvolver, gerará, no futuro, adultos livres desse medo que carregamos. Afinal, os mais novos não estabelecem as barreiras que parecem tão naturais aos adultos. Ao contrário – criam a aproximação entre os cidadãos. “Estamos criando uma cidade do medo. Tiramos desde cedo essa possibilidade de conexão das crianças, que não têm essas barreiras criadas. Elas estão se tornando adultos cada vez mais intolerantes, que não conseguem conviver com uma opinião diferente”, diz Nayana.

Mudar essa realidade significa olhar de maneira efetiva para a sabedoria que esse novo ser carrega. “Temos que nos conectar com a nossa criança interna. Precisamos primeiro nos silenciar, ficar em conexão conosco. Não está fazendo isso, vivemos em um mundo de distrações. Ninguém quer se encarar, ficar no silêncio e olhar para dentro.” Assim, recuperamos a infância em nós mesmos, com o potencial criativo, a solidariedade, a ânsia por ajudar. Como ensinou a Nayana uma criança do Glicério, se olharmos dentro de nossas cabeças, vemos pessoas ajudando nas respostas. Essas “pessoas internas” são as primeiras que não devem ser ignoradas, mas sim incluídas no projeto que desejamos de cidade do futuro.

 

 

 

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