Quem tem medo de falar sobre sexo?

 

A partir das últimas décadas do século XX a literatura infantil pisou o pé no acelerador. Novas editoras passaram a publicar livros para crianças com muita qualidade, sobre os mais diversos assuntos, invadindo as estantes das livrarias, bibliotecas, salas de aula e quartos dos jovens. A educadora Zélia Cavalcanti explica esse momento:

“A leitura como fonte de informação e formação pulava o muro das escolas e ganhava as ruas e praças. Nesse movimento, a literatura infantojuvenil estendeu seus limites para além dos contos maravilhosos e fábulas e das histórias sobre o cotidiano infantil. Passou a incluir histórias com temas contemporâneos à vida em sociedade e textos de informação sobre aspectos da vida privada para os quais é fundamental formar e informar as novas gerações. É nesse último grupo que estão os livros que falam sobre a sexualidade humana.

Sexualidade é um tema presente na vida das pessoas desde pequenas. Não se pode negar essa evidência e por isso não podemos deixar de considerá-lo como conteúdo fundamental na formação dos jovens. Mesmo assim, não é simples e nem fácil falar sobre sexualidade, com crianças, jovens ou adultos. Por isso, para tratar desse tema com qualquer um desses grupos é preciso, antes de mais nada, delicadeza”.

Discutir o tema da sexualidade com as crianças de maneira responsável é também preocupação manifestada pelo próprio Estado, que por meio da Secretaria de Cultura do Ministério da Educação criou, dentre os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN), um específico à “Orientação Sexual” para crianças, jovens e adolescentes. Nele, a importância de se incluir a Orientação Sexual como tema transversal nos currículos escolares, a ser tratado com abordagem clara, simples e direta, está bem evidente:

“Ao tratar do tema Orientação Sexual, busca-se considerar a sexualidade como algo inerente à vida e à saúde, que se expressa no ser humano, do nascimento até a morte. Relaciona-se com o direito ao prazer e ao exercício da sexualidade com responsabilidade. Engloba as relações de gênero, o respeito a si mesmo e ao outro e à diversidade de crenças, valores e expressões culturais existentes numa sociedade democrática e pluralista. Inclui a importância da prevenção das doenças sexualmente transmissíveis/Aids e da gravidez indesejada na adolescência, entre outras questões polêmicas. Pretende contribuir para a superação de tabus e preconceitos ainda arraigados no contexto sociocultural brasileiro.”

“... a abordagem da sexualidade no âmbito da educação precisa ser clara, para que seja tratada de forma simples e direta; ampla, para não reduzir sua complexidade, flexível, para permitir o atendimento a conteúdos e situações diversas; e sistemática para possibilitar aprendizagem e desenvolvimento crescentes.”

(Parâmetros Curriculares Nacionais – PCN – Orientação Sexual – fls. 291 e 292 (doc. 02)

É por isso que posturas como a do candidato Jair Bolsonaro (PSL) — que, entre ataques a políticas contra a homofobia nas escolas, criticou pela segunda vez o conteúdo do livro O aparelho sexual e cia.: um guia inusitado para crianças descoladas, de Zep, pseudônimo do suíço Phillipe Chappuis, e Hélène Bruller, durante entrevista ao Jornal Nacional — soam, no mínimo, inadequadas. Em vídeo compartilhado nas redes sociais gravado em 2013, o candidato diz que a obra é uma “coletânea de absurdos que estimula precocemente as crianças a se interessarem por sexo. É uma porta aberta para a pedofilia”. No Jornal Nacional do dia 28 de agosto, ele afirmou que o livro seria indicado para crianças de 6 anos e faria parte de um suposto "kit gay" que o governo distribuiria.

Lançado no Brasil pelo selo juvenil da editora em 2007, o livro trata de inúmeras questões relacionadas à puberdade — Como é estar apaixonado? Como se beija na boca? Por que crescem pelos e espinhas pelo corpo durante a puberdade? O que é masturbação? Como nascem os bebês? Como evitar a gravidez precoce? O que são doenças sexualmente transmissíveis? O que é pedofilia?  —, com leveza e sem moralismos (além de sólida base pedagógica e rigor científico, é claro) e é indicada, no catálogo da editora, a alunos do Ensino Fundamental II (6º, 7º, 8º e 9º anos), ou seja, crianças com idades entre 11 e 15 anos.

O livro nunca foi distribuído a alunos da rede pública de Ensino. A única compra feita por um órgão público aconteceu em 2011: foram 28 exemplares, que seriam disponibilizados em bibliotecas públicas (não escolares nem infantis).

Publicado em dez línguas, ele vendeu mais de 1,5 milhão de exemplares no mundo e deu origem a uma exposição, que foi aberta ao público pela primeira vez na Cité des Sciences et de l’Industrie, em Paris, e viajou por 7 anos pela Europa, sem que tivesse recebido qualquer acusação ou reprimenda. Ao contrário, propagou valores como o respeito pelos outros e por si mesmo e a igualdade de gênero, e virou um modelo de como informar os jovens sobre temas importantes e incontornáveis, a partir de um tratamento comprometido e cuidadoso.

Que falar com os jovens sobre sexo, muni-los com o máximo de informações corretas, é necessário e fundamental é ponto passivo. A maneira de fazê-lo é escolha de cada um; e o nosso compromisso como editores é disponibilizar todas aquelas que são pertinentes e compromissadas com a verdade — um valor que não parece estar em alta em certas campanhas eleitorais. 

Para saber mais sobre a obra

O livro O aparelho sexual e cia. - Um guia inusitado para crianças descoladas traz os questionamentos de Titeuf (no Brasil, Tito), personagem famoso pelas histórias em quadrinhos criadas em 1992 por Zep. As histórias do menino de dez anos que levanta dúvidas sobre sexualidade e mudanças corporais na puberdade já foram transformadas em mais de dez livros, publicados em 25 países.

A obra também rendeu uma exposição na França. Sob o título de Zizi sexuel l’expo, viajou o país durante oito anos, de 2007 a 2015. Com informações sobre puberdade, sexualidade, amor e a gestação de bebês, a mostra foi recomendada a crianças com idades entre 9 e 14 anos. 

As histórias de Tito também foram adaptadas para uma série de animação em 2001, com a duração de quatro temporadas. Em 2011, virou o longa-metragem Titeuf: le film, dirigido pelo próprio Zep. No filme, o protagonista tem de lidar com a sua paixão pela colega de escola Nadia e com a separação temporária dos pais. Em 2004, a série rendeu a Zep o Grand Prix do Festival de Angoulême, um dos principais prêmios europeus de HQ. Os quadrinhos chegaram ao Brasil apenas em 2012, publicados pela editora Vergara & Riba.

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