Quem é que manda na sala de aula?

 

Em seu mais novo livro, Sobre o autoritarismo brasileiro, Lilia Schwarcz retoma as origens desse comportamento no país que, durante muito tempo, foi percebido como recôncavo de harmonia, modelo de conciliação racial. No atual momento, em que o mundo vive esse retorno a raízes autoritárias, a historiadora faz questão de pontuar as especificidades do Brasil. E é justamente no passado, ou melhor, no sistema econômico que importou praticamente metade de todos os escravos africanos e que por mais tempo sustentou a escravidão, que ela encontra o específico.

Orientando cada capítulo para um foco – além da escravidão, temas como mandonismo, patrimonialismo e corrupção –, a autora explica em que medida “naturalizar a desigualdade” e forjar uma realidade açucarada isenta das consequências do passado são características de governos autoritários. Ilumina o fracasso de se acreditar em uma história única, unilateral, aquela de bandeirantes desbravadores e jesuítas heróis. E reitera a ideia de que a história oficial é um recurso político e “tem papel estratégico nas políticas de Estado”. Nesse sentido, não serve como bula de remédio, mas ajuda a nutrir discussões críticas.

A partir da reflexão feita no livro da historiadora, cabe a pergunta: como a prática autoritária se dá na sala de aula deste país? Reconhecendo a escola como local de formação de cidadãos e perpetuação de conhecimentos históricos e procedimentos sociais, tidos como naturais, convidamos dois especialistas em educação para comentar sobre o autoritarismo no território escolar: André Azevedo da Fonseca, professor e pesquisador no Centro de Educação, Comunicação e Artes (CECA) da Universidade Estadual de Londrina (UEL), e Flávia Vivaldi, mestre em psicologia educacional pela Unicamp e autora do blog Aluno em Foco.

 

Ilustração: Marcelo Tolentino

 

Os pesquisadores explicam que autoritarismo se constitui como afirmação de um poder. E, quando se trata da sala de aula, o poder que ali se estabelece como autoridade é o do professor. No entanto, Flávia destaca a diferença desses dois poderes que separa autoritarismo e autoridade: “Autoridade pode se dar pela força ou pela legitimação. O que nós defendemos é que a autoridade se dê por legitimação, ou seja, que haja nos alunos admiração e respeito pelos professores e não medo e obediência em nome de recompensa, notas ou ameaças”. No caso da autoridade pela força, o resultado obtido é o autoritarismo.

A respeito das motivações de um comportamento autoritário por parte do professor, André explica: “São muitos os fatores que induzem ao comportamento autoritário em sala de aula. Um deles é a insegurança dos professores, decorrente tanto das fragilidades de sua formação quanto das condições de trabalho. Para se ter ideia, quase a metade dos professores de ensino médio ministra aulas em disciplinas nas quais não tiveram formação específica. Dos 2,2 milhões de professores no Brasil, um em cada quatro não tem sequer licenciatura. Cerca de 15% cursaram apenas o ensino médio. Nesse cenário, professores e professoras não se sentem seguros para estimular questionamentos que colocariam suas limitações em risco. As aulas tendem a se tornar fechadas, monolíticas e avessas à expressão da curiosidade”. 

Assim, a aula que poderia representar território aberto ao pensamento e à reflexão enclausura e repreende. Optar por uma conduta autoritária, então, funciona como mecanismo de autodefesa para esse professor que não se sente seguro para lidar com a imprevisibilidade de uma aula permissiva e livre. A jornada exaustiva e o pouco tempo de preparação das aulas reforça ainda mais esse comportamento. Afinal, transmitir um conteúdo de forma burocrática exige muito menos do que planejar uma aula participativa, envolvente. Além disso, alguns professores autoritários, conscientemente ou não, também costumam reproduzir a cultura autoritária a qual estavam inseridos durante sua formação ou a qual estão submetidos na relação que têm com seus diretores ou supervisores.

Ao recorrer ao educador pernambucano Paulo Freire, André comenta que a tradição autoritária condicionou os estudantes a chamarem de “tias” as professoras: “Tal como fazem as sombras ideológicas, essa designação aparentemente inofensiva, mas traiçoeiramente paternalista, distorce o trabalho das professoras e retira algo essencial da natureza de sua autonomia. Ora, uma tia, extensão da família nuclear, quase uma madrinha, não deve reclamar, não deve fazer greve, mas apenas assumir as responsabilidades e os sacrifícios ‘naturais’ de sua condição”.

O autoritarismo, muitas vezes relacionado ao paternalismo, também limita a prática docente. Ocorre quando professoras são dissociadas de sua atuação política, por exemplo. Sobre isso e a crescente mobilização para cercear professores sob o pretexto de “doutrinação ideológica”, Flávia aponta como identificar de fato uma postura autoritária: “Quando não existe um espaço de diálogo na escola que seja institucionalizado, ou seja, que faça parte de um planejamento sistemático e que ocorra sempre, e não eventualmente, quando acontece um conflito”.

“Apesar de todas as deficiências, a sala de aula é – ou poderia ser – um dos raros ambientes seguros para que crianças e jovens possam vivenciar interpretações críticas diversificadas sobre a realidade. Na era das redes sociais, a sala de aula deveria se tornar um espaço particularmente importante para o pensamento crítico”, completa André. Desse modo, democratizar a gestão das escolas e reforçar a noção de comunidade escolar, ao incluir a participação dos pais, estudantes e trabalhadores da educação no planejamento das atividades, é uma das formas mais eficazes para que “em vez de inventar bodes expiatórios, todos se sintam responsáveis” pela formação daquelas pessoas.

“A escola é um reflexo da sociedade. Ela precisa devolver para a sociedade uma realidade que seja mais justa, mais socialmente desejável do que essa que a gente tem. Mas é claro que o que, em geral, acontece é que se reproduza dentro da escola aquilo que é condenável na sociedade. O autoritarismo é uma dessas questões”, Flávia coloca. O jovem, então, que por natureza se entusiasma diante de desafios e é um potencial cientista, deixa de se envolver com o próprio aprendizado quando aquela atividade ou aquele ambiente não se comunicam mais com ele. Aprender perde o significado, entra em estado automático.

É então que, assim como lembra André ao referenciar Ira Shor, professor no College of Staten Island, Universidade Municipal de Nova York, “eles rejeitam deliberadamente aqueles conhecimentos escolares ministrados em um sistema educacional que também os despreza – ou que desdenha de seus gostos, de sua cultura e de seus saberes. Não é uma deficiência intelectual, portanto. É um ato de resistência”.

Além da reparação de todas as questões levantadas anteriormente, como o envolvimento da família na comunidade escolar e a oferta de melhores condições de trabalho aos professores, quando as disciplinas não mais desprezarem a experiência dos estudantes e exigirem a mera assimilação de informações desconectadas de seu universo, a sala de aula poderá ser considerada um ambiente menos autoritário. Autoritarismo consiste na afirmação de um poder, e os alunos precisam sentir que têm poder sobre seu próprio aprendizado.

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