Quantas histórias vemos da nossa janela?

 

Quando Otávio César de Souza Júnior nasceu, nos anos 80 no subúrbio do Rio de Janeiro, a visão que se tinha da janela era dos emaranhados das muitas casas. De lá tudo observava e questionava. Cresceu querendo transformar os cotidianos das famílias do Complexo do Alemão que lutavam contra uma precariedade socioeconômica que lhes afligiam. O menino inquieto com o mundo um dia encontrou um livro num lixão, tomou gosto pelas histórias, virou educador, escritor e promotor de leitura. Ficou conhecido como o Livreiro do Alemão, que, agora, lança pela Companhia das Letrinhas a obra Da minha janela.

 

 

“Essa minha visão da janela me ajudou muito a crescer”, conta o escritor. O livro é um convite para abrirmos uma janela e prestamos um pouco de atenção ao mundo que nos cerca. Um chamado para olhar cada cor, traço, gesto, objeto e bicho cujas vidas podem ser parecidas ou diferentes da sua, mas, com certeza, têm algo a ensinar. Também é um registro da visão sensível e atenciosa a cada coisa, pessoa e animal que Otávio Júnior vê da sua janela na comunidade carioca. Para ele, “o Brasil precisa conhecer o Brasil, e a literatura ajuda”.

Seus livros dão representatividade à população do Alemão, incluindo as crianças e os jovens: O garoto da camisa vermelha e O chefão lá do morro, ambos da editora Autêntica, foram criados após o período de Pacificação do Alemão. “Não é fácil traduzir em palavras uma cultura peculiar com sua linguagem, códigos. Uso a janela da minha casa como ponto de partida, as ideias surgem de uma forma muito espontânea a cada beco, a cada viela, a cada ladeira, em cada menino, menina, cachorro, gato, pássaro... Quero que minhas histórias voem longe.”



 

Certamente voam. Com a ilustradora argentina Vanina Starkoff, ele transformou em literatura episódios e momentos reais da comunidade, como grafites que realmente aparecem nas paredes das casas no Complexo do Alemão. Por isso dizer que Da minha janela também é um convite a conhecer os múltiplos universos da favela. “A ideia é fazer o leitor percorrer esse universo fascinante por meio de palavras e imagens belíssimas da Vanina. As inspirações são da vivência na favela, já são 35 anos ouvindo, observando, sonhando…” Com a visão do menino narrador, o livro por si só já é uma grande janela, um grande portal. “Para esse livro penso em uma grande portal da empatia”. Assim, Otávio Júnior, sonhador imerso em tantas esferas de atuação da literatura, transporta o leitor à sua janela.

Em sua trajetória como escritor, ganham destaque os livros O livreiro do Alemão (Panda Books) e Le libraire de la favela (Anacaona Editions), que mostram uma das muitas e diferentes infâncias nas cidades brasileiras – a sua própria. Para o autor, essas identidades precisam estar na literatura: “Atualmente fala-se tanto no lugar de fala. O meu é da periferia, da favela, do morro. Minhas narrativas são construídas a partir da minha vivência na comunidade urbana”. Para Otávio, nosso país tem ótimos escritores para falar dessas tantas infâncias e isso enriquece nossa cultura, revelando uma identidade multicultural, onde quem ganha são os leitores.

 

Um livro no caminho

Vale, no entanto, retomar o episódio que marcou o começo de uma grande transformação. Foi no campinho de futebol do Complexo do Alemão, espaço de convivência de muitos meninos, que um dia, revirando o lixo perto do local, Otávio encontrou uma caixa com brinquedos e também um livro. Levou só o livro para casa, e não tocou nele até a televisão parar de funcionar. Aos oitos anos de idade, leu uma tradução da história espanhola Don Gatón. Foi fisgado pelo poder das narrativas. No dia seguinte, visitou a biblioteca da escola. E não parou de frequentar aquele espaço, até que ficasse pequeno para todos os seus sonhos: Otávio queria fazer nascer e crescer dentro de cada morador do Complexo do Alemão, na cidade do Rio de Janeiro, o gosto pela leitura.

Permanecer dentro da comunidade foi uma decisão que contou com a mesma motivação, era necessário continuar vendo da mesma janela para dedicar-se ao projeto. “Essa dedicação me ajuda a pensar em uma literatura qualitária e o fato de viver full time na favela me ajuda nas observações, a construir uma linguagem poética e real para meus textos.” Começou a juntar livros de todas as pessoas que contribuíam, andando pela comunidade carregando uma mala com as obras doadas, estendia um tapete e convidava as pessoas que se aproximavam a ler.

 

 

Hoje, a comunidade conta com uma biblioteca fixa e outras itinerantes para promover o desenvolvimento da liberdade de pensamento. Ali estava criado o projeto Ler é 10 – Leia Favela. Para o fundador, no entanto, o respeito legítimo aos saberes das crianças do Alemão só acontece dando oportunidades via educação, esporte, tecnologia, cultura e entretenimento. “As crianças das comunidades são potentes. Assim como todas as crianças no mundo, elas necessitam ser estimuladas a conhecer novas perspectivas. Por que não incentivar o estudo de ciências nas favelas? Por que não incentivar o empreendedorismo?”

Otávio Júnior tem hoje 35 anos e, além de escritor, contador de histórias e coordenador do Ler é 10 - Leia Favela, tem outros projetos criados e em andamento, como o Favela Lúdica, que inclui também atividades culturais fora da comunidade, com visitas à Biblioteca Nacional, no centro do Rio, e passeios em livrarias, cinemas e pontos culturais da cidade. Militante da promoção de leitura e pesquisador autodidata de literatura infantojuvenil, ele ganhou o prêmio Faz Diferença, do jornal O Globo, e o Prêmio Nacional Madre Teresa de Calcutá, na Argentina, pelo serviço à comunidade.

“Costumo dizer que Ler é Dez – Leia Favela é um grande laboratório de experimentações. Trabalhando com a promoção de leitura, sobretudo nas periferias, eu posso fazer grandes observações, experimentações relacionadas ao texto, à performance literária.” Ele percebe também uma grande necessidade das pessoas, das crianças, em contarem as suas histórias. “Estou desenvolvendo projetos para que essas dinâmicas da narração e da escrita das histórias sejam passadas de forma mais lúdica”, conta Otávio, interessado nas interações entre educação, imaginação e criatividade. Conta que sua grande luta no momento é democratizar as ações inovadoras nas favelas. Sim, segundo o escritor que não se vê fora do contexto periférico, “a favela é um grande hub de criação e criatividade”.

 

Fotografia: Eduardo Martino

Neste post
Acesse a Letrinhas nas redes sociais