Quando as histórias pulam dos livros

 

Inspirada por seus filhos, que amavam uma coleção de livros exibidos ainda em fita cassete, a escritora Dilea Frate conta que a ideia de animar as histórias que inventa é antiga. Para a autora, sempre houve uma clareza em relação ao ato de escrever: “Extrapola o livro impresso”. Ainda que no caso dos livros para crianças essa escrita exija uma outra organização, que preze pela síntese, esse entendimento foi consolidado ao longo de 40 anos de carreira. No entanto, dois empecilhos - a dificuldade técnica e o alto valor investido nessas produções - acabaram adiando esse desejo. Neste ano, enfim, as histórias saíram do papel e foram parar nas telas.

 

Cena retirada do episódio As Luas de Luiza

 

Se na década de 80, quando a coleção dos livros animados era rebobinada repetidamente no vídeo cassete da sua casa, as histórias não eram ilustradas, hoje, a tecnologia mais avançada coloca o 3D praticamente como regra das animações. Os livros audiovisuais, que, naquele tempo, seus filhos sabiam de cor, em uma comparação livre, podem ser associados ao que vemos dos booktubers atualmente. “Era só a narração com o texto do livro ilustrada pelas imagens do livro. A linguagem do livro era totalmente preservada, mas, ao folhear o objeto livro, vinha um encantamento que o vídeo não proporcionava”, relembra Dilea, que, indo na contramão das produções mais recentes, escolheu usar a técnica 2D para a série que animou.

Esse tipo de formato, que funcionou para cativar a atenção dos pequenos na época, privilegiava o livro. Isso ainda funciona, o objeto livro continua a fascinar crianças. Mas a autora queria que as fronteiras de importância entre um suporte e o outro se misturassem. O desafio seria, então, criar um diálogo entre as linguagens do livro e do audiovisual. O primeiro teste ocorreu em 2015, quando o livro A menina que carregou o mar nas costas virou um curta-metragem de três minutos. Esse primeiro experimento mostrou a possibilidade de transpor a linguagem poética da literatura para o audiovisual de forma econômica.

Transpor um livro para o audiovisual cria um conteúdo diferente do que as crianças estão acostumadas a consumir. A construção literária é preservada em um outro contexto. Isso aumenta as opções de animação para elas, criam-se alguns subgêneros. “A adaptação literária para vídeo pode ser uma ferramenta educacional poderosa para o caso das crianças brasileiras que leem pouco, têm pouco acesso aos livros e são norteadas pelas telas”, explica Dilea.

Desse modo, o audiovisual, formato muito mais presente na realidade brasileira, poderia ser um caminho de apresentação a ser aprofundado pela literatura. Ou, então, não. O vídeo em si já é conteúdo rico e completo. “O que é se aprofundar hoje, no mundo da megainformacão e das múltiplas distrações?”, provoca Dilea. A interação entre as duas expressões artísticas foi o ponto de partida para a ideia começar a ganhar corpo. Mas desde então os arranjos entre elas se renovam. A adaptação para as telas promove um encontro entre os personagens dos livros Histórias para acordar, Fábulas tortas e (Quem contou?) e cria uma nova narrativa distrubuída em 13 episódios, atualmente, em exibição nas emissoras de televisão públicas do país.

 

 

Durante o processo de produção, a qualidade de dar vida aos personagens foi levada ao pé da letra. Todas as crianças escolhidas para a dublagem eram amadoras, e o roteiro não era fechado. O que se procurou foi escolher crianças que de alguma forma compartilhassem características com os personagens que dublariam. No caso da personagem Lucinha, a pequena Luna, que não sabia ler e decorou todas as falas, trouxe à tona a etimologia da palavra. Ao saber “de coração”, a menina interpretou a personagem com tanto talento que Dilea revisou a trama central para reescrever várias cenas e aumentar a participação de Lucinha. O processo foi artesanal e maleável. Nesse sentido, alguns defeitos foram incorporados para dar mais veracidade ao universo que foi criado.

 

 

Os formatos conversam entre si sem que isso prejudique a potência de cada um. O cinema abre espaço para a conversa. Como quando, na Mostra de Cinema Infantil, que aconteceu em julho em Florianópolis, o episódio As Luas de Luiza gerou uma discussão sobre medos, sonhos e pesadelos entre a plateia. Para Dilea, estar próxima às crianças durante as exibições e ouvir as gargalhadas delas têm sido uma experiência única. “O cinema pode ser um livro que a gente lê junto, sem interrupções. No livro, vive-se e exercita-se a imaginação. No cinema, experimentamos o sonho. Ambos são complementares, ambos se alimentam de imagens e emoções”, conclui.

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