Por uma educação antirracista

 

No dia 9 de janeiro de 2003, o Diário Oficial da União registrava em sua publicação a Lei 10.639, que declara "a obrigatoriedade da temática 'História e Cultura Afro-Brasileira'" no currículo escolar dos níveis fundamentais e médio. Apesar da grande conquista para o fortalecimento da identidade da população negra, na prática, as alterações não foram exatamente notáveis. Pensando nisso, seis professoras da Escola Municipal Senador Alberto Pasqualini, de Porto Alegre (RS), criaram o Coletivo Quilombelas para que atividades de discussão da negritude pudessem, enfim, ser desenvolvidas no ambiente escolar.

 

Foto: Divulgação/Coletivo Quilombelas

 

Ana Carolina Santos, Cristina Centeno, Helena Meireles, Helena Paz, Janaína Barbosa e Vanessa Felix elaboram há um ano ações para alcançar tal objetivo. Sobre a narrativa hegemônica nas aulas de história e as motivações para criação do coletivo, elas comentam: "O caminho sempre é difícil. Isso porque nossa sociedade vive a partir de uma narrativa eurocêntrica, em que o branco é a referência de todas as relações e, infelizmente, esse fato norteia também o cotidiano escolar (cabe aqui observar, por exemplo, a quantidade de referências negras dentro da escola e os lugares que elas ocupam)".

Contrariando a falta de tempo para reuniões pedagógicas enfrentada pelos docentes que, muitas vezes, entendem o exercício da profissão como um fazer solitário, o Quilombelas surge como importante motor da mobilização coletiva. Hoje, com uma atuação mais consolidada, o grupo recebe apoio da equipe diretiva, mas nenhum aporte financeiro da mantenedora. O projeto se mantém ativo com a ajuda do Brechó Ubuntu, gerenciado pelas professoras e que conta com a colaboração de pais, colegas e funcionários da instituição.

 

Foto: Divulgação/Coletivo Quilombelas

 

O envolvimento da comunidade escolar nas atividades do coletivo, no entanto, não diminui o esforço das professoras, que também trabalham quando não estão mais em sala de aula e preferem não interromper um fluxo de ideias. "Nos organizamos para que essas ideias não atropelem tanto nossas horas de descanso e lazer, pois a vida das professoras é sempre levar tarefas para a casa. Precisamos dar um fôlego, pois nunca foi fácil ser mulher negra!", explicam. A respeito da força da mulher negra e essa representatividade no grupo, ainda pontuam: "Nossas experiências nos conectam à nossa ancestralidade, temos muito a dizer e precisamos de um espaço para sermos ouvidas, muitas de nós ainda não tiveram a oportunidade de se aquilombar, de fortalecer uma a outra, por isso acreditamos que a ancestralidade tenha nos juntado, não foi nada programado". 

As professoras defendem a importância de o projeto ter sido uma iniciativa concebida por mulheres negras, que representam a base da pirâmide de desigualdades no país. Mas não descartam a inclusão de professores homens no grupo e acreditam que esse tipo de arranjo tende a acrescentar um novo olhar para as questões levantadas. "Não dá para excluir um irmão, considerando que a dor do racismo pega a todos nós", completam. Esta é a base do coletivo, trabalhar com parcerias. Um plano para o mês de agosto é promover o primeiro encontro de professoras pretas do bairro Restinga, criar "uma espécie de espaço de 'curandoria pedagógica' para nossas irmãs”.

 

Foto: Divulgação/Coletivo Quilombelas

 

Algumas das ações realizadas no primeiro ano de atuação são: o "Sarau Mix Te Vira Negrada", que reuniu protagonistas da escola e do bairro, valorizando, assim, os talentos que estão próximos; o "Seminário Candaces, semeando Marielles", quando mulheres da comunidade foram convidadas a contar aos alunos sobre a liderança da mulher negra em diversas áreas da sociedade, e o desfile "Porongos: os esquecidos serão exaltados!", com abordagem para a temática dos "Lanceiros negros" (negros que lutaram na Revolução Farroupilha), a fim de exaltar a luta e a resistência do povo africano e afro-brasileiro na construção da cultura e história nacionais. 

Segundo as educadoras, tais ações mantêm o Coletivo Quilombelas conectado com outras professoras e também com todos aqueles que nutrem interesse por uma educação polifônica, diversa. “O caminho sempre é difícil”, mas os resultados são transformadores. "Não basta somente abordar o protagonismo do povo preto. É urgente sensibilizar e desacomodar as pessoas não negras de seus lugares de privilégio", concluem.

 

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