Por uma cidade mais leitora

 

Na cidade de São Paulo, cabem literatura marginal, saraus, slams, edições independentes, bibliotecas comunitárias. Cabem as grandes livrarias, os festivais literários, as primaveras do livro, os manifestos – e tudo o que escapa “da lógica tradicional de um mercado que vive uma crise econômica e uma crise de sentido social”. No processo de democratização do livro e da literatura, a Frente São Paulo Leitora nasce para levantar essas questões sob um olhar político e cidadão.

 

 

A Frente é uma articulação da sociedade civil que reúne indivíduos, coletivos e organizações em defesa da implementação do Plano Municipal do Livro, Leitura, Literatura e Bibliotecas (PMLLLB) na capital paulista. Trata-se da lei 16.333/2015, que tem como alguns de seus princípios fundamentais “a defesa e a promoção da diversidade cultural, de gênero, étnico-racial, política e de pensamento” e “o estímulo à bibliodiversidade, em todas as suas formas”. Mas até então pouco foi feito pensando em políticas públicas claras para o livro, a leitura, a literatura e as bibliotecas, e também não houve recursos da prefeitura para sua implementação. A cobrança da efetivação desse Plano é feita pela Frente São Paulo Leitora.

"Em um país de não leitores, é de extrema importância a sociedade se juntar para efetivar políticas de democratização do acesso, além de popularizar a importância dessas políticas públicas na sociedade”, diz Mara Esteves, gestora da biblioteca comunitária Djeanne Firmino, parte da Rede Nacional de Bibliotecas Comunitárias e da rede LiteraSampa, articuladora de Bibliotecas Comunitárias do Estado de São Paulo e um dos braços que ajudou na construção do PMLLLB. Esteves faz parte da Frente São Paulo Leitora, focando na importância da efetivação de políticas públicas de acesso ao livro e a valorização das bibliotecas públicas e comunitárias.

Junto da especialista, diversos outros militantes do livro e da leitura, entre autores, mediadores, editores e ativistas, se articulam em diversas ações para promover “a liberdade e a busca pela igualdade e pela democracia”, segundo anuncia a Frente em seu manifesto. “Tem muita gente envolvida na ideia de fazer a cidade de São Paulo ser uma cidade que cultiva a leitura, a escrita, o letramento, a literatura como parte da sua vida social”, comenta o jornalista Haroldo Ceravolo Sereza, editor da Alameda Casa Editorial e presidente da Libre (Liga Brasileira de Editoras) entre 2011 e 2015. Para Sereza, a diversidade é um ponto muito forte no Plano, principalmente devido aos usuários, incluindo imigrantes e pessoas em situação de vulnerabilidade social, que serão amparados com a efetivação dessa política.

O trabalho de ambos é voluntário, sem o apoio institucional que gostariam: “Foi sendo abandonado pela gestão pública. A própria prefeitura não sabe o que fez dentro e fora do Plano e essa é uma das questões que a gente tem discutido com a Secretaria de Cultura”, diz o editor. Para organizarem suas ações, a Frente SP Leitora realiza reuniões abertas divulgadas principalmente pelas redes sociais, além de eventos relacionados ao tema para ampliar e divulgar essa discussão.

 

Primavera do livro

Entre algumas das realizações da Frente, destaca-se a Primavera do Livro, o primeiro grande evento de editoras independentes na cidade. No começo dos anos 2000, com certa instabilidade no mercado editorial devido à política de preços e de venda de espaços, uma das consequências foi o enfraquacimento das livrarias. “As Primaveras do Livro surgiram como forma de mostrar ao público que havia uma produção editorial independente e importante que precisava ser conhecida”, explica Sereza. “Hoje há muitos eventos de feiras independentes, todos de alguma forma direta ou indiretamente beberam dessa experiência da Primavera do Livro.”

Existe também uma lei da cidade de São Paulo para as Primaveras do Livro, “mas isso nunca saiu muito do papel”, comenta o editor. O apoio institucional estava previsto apenas na redação original, que não foi aprovada. Apesar disso, as Primaveras propõem um debate que se alinha com a proposta do PMLLLB, ao pensar a racionalidade econômica do livro sem excluir a diversidade.

 

Biblioativismo

 

Para o grupo, o cenário atual é de retração das questões do respeito à intelectualidade e à diversidade no espaço político, mas, ao mesmo tempo, de florescimento de uma produção literária na cidade de São Paulo. Como explica Sereza: “São Paulo é um viveiro de escritores, gente escrevendo em todos os cantos da cidade. Infelizmente, as livrarias e bibliotecas da cidade não refletem essa produção espantosa e genial que a cidade tem. Nossa ideia na Frente São Paulo Leitora também é fazer com que essa produção tenha o espaço institucional que merece e alcance todos os cidadãos da cidade”.

De acordo com ele, bastaria que as Secretarias Municipais de Cultura e Educação assumissem que existe uma lei que orienta a política do livro, analisando, implementando e divulgado para a sociedade as metas que já existem no próprio Plano, ao mesmo tempo fruto da vontade das pessoas que pensam e fazem os livros, promovendo também sua circulação pela cidade. E o editor conclui: “É central é transformar o livro e a leitura em uma questão política, de ação social, de ampliação do espaço de leitura e de debate, além da diversidade quando falamos de livro. Sim, somos todos biblioativistas na Frente São Paulo Leitora”.

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