Por que é mais difícil escrever para crianças?

Por Ernani Ssó

Acho mais difícil escrever para crianças do que para adultos. As razões me parecem um tanto caindo de maduras, mas, se consideramos o que se publica, dá para supor que a maioria dos autores nem pensou no assunto. Ou vai ver, pensou, sabe tudo direitinho, menos o que interessa: enfrentar na prática essas dificuldades. Agora, cabe a pergunta: por que os editores publicam – sejamos otimistas – uns 80% do que publicam?

Escrever nunca é uma barbada, se você tem um mínimo de bom senso, nem falo em honestidade. Mas boa parte dos problemas está resolvida se você é adulto escrevendo para adultos – angústias, alegrias, violências e desejos são mais ou menos os mesmos para nós todos. A linguagem, idem. Escrevemos sempre para os nossos semelhantes. O que torna isso estranho e maravilhoso é que podemos ser ao mesmo tempo um semelhante do Rex Stout e do Dostoiévski, do Marçal Aquino e do Ivan Lessa, do Borges e do Rabelais, do Cortázar e do Flaubert, da Clarice Lispector e da Cassandra Rios. Certo, certo, retiro a Cassandra. Bota aí um extremo oposto da Clarice: Hammett. Melhor: podemos ser semelhantes a todos eles e muitos outros, em tudo ou em parte, dependendo da hora e do local, da chuva, da gripe, do dólar, das promessas que a Charlize Theron nos fez.

Responda depressa: até onde um adulto é o semelhante de uma criança? Até onde, como dizia Cecília Meireles, o adulto guarda em si a criança que foi e até onde a criança já traz em si o adulto? Diretamente, não sei, mas pode se responder escrevendo um livro para crianças. Se elas gostarem desse livro, se exigirem que ele seja relido muitas vezes, é sinal de que os fiozinhos se tocaram e houve contato. É evidente que nem todas as crianças se interessam pelos mesmos livros. Apesar dos esforços de pais, governos, escolas e publicitários, as crianças ainda não são feitas em série.

É incrível como poucas pessoas se lembram da criança que foram. A memória é uma tremenda trapaceira, sabe-se, mas parece ser duas vezes mais trapaceira quando se trata da infância. Em geral, lança sobre os fatos um papel celofane devidamente cor-de-rosa ou dourado. Quem não ouviu o suspiro de um adulto ao olhar uma criança brincando? “Que aproveite, enquanto não tem preocupações!” Acho isso espantoso. Não porque nessas alturas a maioria ignore o que os psicanalistas, psicólogos e educadores pesquisaram. Acho espantoso que não se enxergue o que está ali, bem debaixo do nariz: filhos, sobrinhos, netos. Num mês de convívio, a pessoa mais distraída é obrigada a ver que a infância não é nada despreocupada, que apenas as preocupações são outras.

Esses suspirantes costumam falar também na pureza da criança. Na hora de escrever, costumam esterilizar os clássicos infantis, como Disney salvando dois dos porquinhos da boca do lobo. Para os suspirantes, a criança não tem sentimentos ou só tem bons sentimentos, por isso nos impingem trepidantes enredos em que uma flor convive com o orvalho, os raios da lua e os beija-flores, de preferência tudo no diminutivo. Não entra na cabeça dos suspirantes que o lirismo não precisa necessariamente ser baboso ou idiota. Costumo dizer que criança, como todo mundo, quer sexo, drogas e rock and roll. Certo, é uma piada, mas se entende o que quero dizer.

Qualquer escritor garante: não se pode subestimar a inteligência da criança. Mas o que acontece na prática? Entre numa livraria e espie uma dezena de livros. É de arrasar a quantidade de livros que parecem ter sido escritos para e por imbecis. Naturalmente as cores são deslumbrantes. Isso não dá para negar: a impressão e as ilustrações são quase sempre ótimas.

Numa época de pobreza extrema, li originais para editoras. Em três anos, encontrei dois livros, eu disse dois, com começo, meio e fim. Claro que na área adulta também é de amargar. Mas a infantil está prejudicada pelo simples fato de que tem mais mercado. As editoras precisam de autores e então qualquer aventureiro ou desocupado pode tentar a sorte. Muitos, inclusive, se deram mal escrevendo para adultos e pensam que é mais fácil para criança, que o Diabo os carregue. Uma senhora, depois de me apresentar meia dúzia de histórias, me disse: “Assim não dá. Você é muito exigente”. Mas por que eu não devia ser exigente? Só porque era para criança? Me parece que por isso mesmo eu tinha de ser exigente como nunca. Afinal, os adultos vão às livrarias e compram o que querem, ou o que a publicidade diz que eles devem querer. As crianças dependem da compra dos pais. Quanto mais lixo estiver à venda, maiores as chances desses pais levarem um para casa.

Não sei quais as piores, se as pessoas que acham que as crianças não têm preocupações ou as que confundem suas preocupações com as das crianças. Em geral, são estas que produzem histórias com mensagens. Nem discuto o teor da mensagem, muitas vezes até correto. O discutível é a posição, de cima para baixo, a ignorância do que é uma criança ou a suposição tácita de que isso não importa.

Há outra coisa: a mensagem é inútil, ou quase. Um livro que se reduz a uma mensagem é menos que um telegrama. Um bom livro é misterioso. É como a valise do espião – sob o fundo falso está o mais importante: sombras, silêncios. Isso atinge muito mais o leitor. As mensagens a gente lê, depois esquece. A leitura não é uma operação apenas da razão. Antes da razão, estão os instintos, estão todos os sentidos. A leitura não é uma ação à parte da vida, localizada acima ou abaixo. É apenas outra ação, outra forma de viver.

Depois, é mais fácil tapear um adulto. Por exemplo, quanta gente há alguns anos não se achava o máximo porque lia Kundera? Quanta gente que amava Simenon só deixou de se sentir culpada depois que grandes escritores o elogiaram? Criança não gosta de um livro só porque a crítica elogiou ou o autor complica para parecer profundo. Se o livro não a pega – se não emociona, não diverte –, ela não finge que sim. Criança não precisa parecer intelectual para ninguém, muito menos para si mesma – a menos, claro, que já tenha sido pervertida irremediavelmente por seus pais e professores.

Um lamento final: a crítica. O espaço para crítica literária não é grande, a gente sabe. Para literatura infantil, é menor ainda. Conscientes ou não, os jornais endossam isso de que a literatura infantil é menor, uma espécie de excrescência cultural. Para piorar, a maioria dos resenhistas, quando não se limita a transcrever releases, apenas demonstra que não entende nem de literatura nem de criança. Agora, numa coisa todos nós estamos de acordo: as crianças são o futuro da pátria.

PS: Depois de ter escrito este texto, leio no site Mundo Fantasmo, do Braulio Tavares, como quem encontra um irmão que não conhecia: “Literatura infantil é uma das formas mais difíceis de literatura, pela simples razão de que é feita por adultos, e a esmagadora maioria dos adultos não tem a menor ideia de como uma criança pensa. É natural. Tornar-se adulto significa fazer em si próprio uma lavagem cerebral para eliminar da memória todo o pesadelo que é ser criança num mundo que pertence aos adultos”.

Ernani Ssó é autor de Contos de gigantes, Amigos da onça e As lendas urbanas da morte, entre outros. Nasceu em Bom Jesus, RS, num ano de neve. Em 1974 entrou para o jornalismo, porque queria ser escritor. Saiu em 75, pelo mesmo motivo. Tem livros para adultos, mas prefere os infantis, porque são mais difíceis de escrever. Chama-se Ernani por causa de um galã de radionovela e Ssó, esse erro de revisão, de maluco, ou para não se sentir muito sozinho, como disse Mário Quintana. 

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