Por menos livros de autoajuda para crianças

Escrever para crianças é “nunca tratá-las como seres descerebrados. É fugir do tatibitate, dos diminutivos humilhantes, do arremedo de linguagem infantil. As crianças são leitores exigentes. Escrever para elas implica respeitá-las antes de tudo”. É assim que o escritor Claudio Fragata, autor de livros premiados voltados a esse público, defende uma literatura dita infantil. E destaca que é preciso escapar urgentemente dos livros de autoajuda para crianças.

Já há alguns anos ele vem inspirando novos talentos a colocarem no papel as suas próprias histórias em oficinas de escrita – a próxima será ministrada no  centro cultural b_arco. No curso, trata de temas como os limites entre a literatura infantil a adulta, construção de personagens, linguagem, narrativa, espaço ficcional e ilustração. Também aborda armadilhas que devem ser evitadas, como mensagens moralizantes e o uso da perspectiva adulta nas obras.

Ilustração Marcelo Tolentino

Autor de livros como João, Joãozinho, Joãozito: o menino encantado, ele defende que as histórias voltadas para as crianças devem ter apenas uma adequação da linguagem. Os escritores podem abordar qualquer assunto, desde que saibam como fazê-lo. “Crianças e adultos têm necessidade da evasão, da surpresa, do encantamento, do sonho. Desse ponto de vista, as necessidades são as mesmas.”

O que Fragata defende é o direito da criança à literatura, sem moralismos. “Eu acredito no poder transformador da literatura. As crianças tocadas por ela jamais serão as mesmas”, diz o escritor, formado em jornalismo, com passagens pela editora Globo, quando ajudou a desenvolver o projeto da coleção de manuais da Turma da Mônica e editou quadrinhos, e pela editora Abril, onde trabalhou na redação da Revista Recreio.

A seguir, leia a entrevista completa com o autor.

Foto Lu Goullart

Maria Teresa Andruetto, no livro Por uma literatura sem adjetivos (ed. Pulo do Gato), fala dessa mania de dividir a literatura adulta do que seria a infantil. Daí a pergunta: literatura infantil – com ou sem adjetivo? E quais seriam as especificidades da literatura dita infantil?

Gosto muito da colocação da Andruetto e sinto que falamos a mesma língua. Penso que o limite entre literatura infantil e adulta é muito tênue. Claro que considero tudo literatura e venho há anos me batendo por isso. Do ponto de vista da nomenclatura, não há diferença. Mas gosto de demarcar terreno, principalmente num país como o nosso, de iletrados. Existem especificações próprias da literatura infantil. Questão da linguagem, por exemplo. Da escolha do vocabulário, o que não impede de se usar palavras mais abstratas ou eruditas, dependendo da situação. Blandina Franco tem um livro que adoro, O coiso estranho, em que brinca com palavras impenetráveis e arcaísmos com inventividade. Acho bom que as pessoas (pais, professores, leitores) identifiquem esse nicho, o da literatura infantil. Quem são os escritores e ilustradores que fazem essa literatura. Por isso, fico com o adjetivo, mas berrando alto: literatura infantil antes de tudo é literatura!!!! Melhor dizendo: é infantil e é literatura.

Se a literatura vem para suprimir uma necessidade humana, qual a diferença das necessidades infantis e adultas? 

Gosto muito do que escreveu Anatole France sobre essa questão. Ele diz que a literatura nos leva a mundos fantásticos, a esse desconhecido do qual está sedenta a alma humana em qualquer idade. O grifo é meu. Faço disso minha doutrina. Crianças e adultos têm necessidade da evasão, da surpresa, do encantamento, do sonho. Desse ponto de vista, as necessidades são as mesmas.

Muito se fala hoje em “livros para a infância”. Você acredita na possibilidade de escrever para a infância que habita crianças e adultos? Se sim, pode trazer exemplos? 

Não gosto muito dessa ideia de que escrever para crianças é voltar a ser criança. Eu não viro nada. Sou um adulto que escreve para crianças e acho que é isso mesmo o que elas esperam de mim. Claro que todos têm sua criança interior e a minha pode estar por perto, reinando com minhas ideias, enquanto escrevo. Mas tudo isso é um processo muito natural e é o Claudio adulto quem dá conta de criar, escrever, reescrever, editar. Agora, o que eu vejo aumentar muito é adultos lendo livros infantis. E não é porque o público está se infantilizando. É porque as histórias infantis estão cada vez mais elaboradas. Mas mesmo a literatura infantil clássica interessa aos adultos. Quem resiste às aventuras de Alice? Eis um livro que fica na fronteira entre os universos infantil e adulto. Que marmanjo resiste a um bom conto de fada? Ou à poesia de O Pequeno Príncipe? Quem não se envolve com as intrigantes parábolas e imagens fantásticas de Shaun Tan?

“É importante, no trato com as crianças, que você nunca se curve.” Pode falar um pouco mais sobre essa sua afirmação? 

É nunca tratá-las como seres descerebrados. É fugir do tatibitate, dos diminutivos humilhantes, do arremedo de linguagem infantil. As crianças são leitores exigentes. Escrever para elas implica respeitá-las antes de tudo.

Você diz que “ninguém está de fato confinado quando tem livros à mão”. Mas, em tempos em que as crianças estão cada vez mais confinadas entre quatro paredes, muda ou deveria mudar algo da relação delas com a literatura? 

Acredito mesmo que essa relação só tenha se estreitado. Com um livro na mão, ninguém está entre quatro paredes. Internet, games, smartphones, nada disso substitui a experiência do livro. Nem o e-book substitui o livro de papel. Quem mais lê, hoje, no Brasil, são as crianças e os jovens. Estou falando de literatura, não de autoajuda para crianças, do tipo “escove seus dentinhos”. Em São Paulo, temos lindas livrarias especializadas em literatura infantil, como a Novesete e a Panapaná. Quase todas as editoras do Brasil criaram o seu departamento de livros infantis na última década. Penso que isso tem um significado relevante. E o significado é: crianças e livros estão mais próximos.

Há uma tendência maior para o moralismo na literatura para crianças? Se sim, por que essa mania de adulto de querer ensinar sempre? Até que ponto a literatura contribui para a formação/educação das crianças? 

Quando a gente pensa que o politicamente correto está morto e enterrado, bum, lá vem ele de novo. Nossa literatura infantil ainda está muito impregnada por ele. É uma verdadeira praga. Acredito que isso acontece porque a leitura ficou muito tempo atrelada à escola. Poucos pais se interessavam em dar livros aos filhos, até porque eles próprios não eram leitores. Então, o caráter “educativo” se sobrepôs ao literário. Isso está mudando, existem muitos professores interessados em literatura e eu acredito em seu poder transformador da. As crianças tocadas por ela jamais serão as mesmas.

Tatiana Belinky, uma de nossas mestras, diz que uma história boa para crianças tem que fazer rir, chorar ou sentir medo, senão fica chata e não prende a atenção. Acredita nisso? Por quê?

Acredito demais. E pratico. Tatiana foi uma grande amiga e também minha guru. Aprendi muito com ela. Hoje, o que me interessa é contar uma boa história. Uma boa história é aquela que emociona, que faz rir e chorar ou que dá medo, como Tatiana pregava. Há anos venho trabalhando numa história de cortar o coração. Penso que será o meu melhor livro. Espero encontrar editor...

Qualquer assunto pode ser tratado com crianças? Há algum limite? Qual seria? 

A princípio, sim. O que importa é como se trata o tema. Gosto muito de uma escritora japonesa chamada Kazumi Yumoto. Todos os livros dela têm a morte como assunto central. E são histórias lindas, comoventes, poéticas e... cheias de vida! Este é também o tema do meu próximo livro, que se chama O sol se põe na tinturaria Yamada e sai pela editora Pulo do Gato. Conta a história de uma família japonesa. Eu convivi muito de perto com os japoneses, em Marília, onde passei parte da infância. A colônia japonesa até hoje é muito forte por lá. E esse livro nasceu um pouco disso. Nasceu também de um japonês idoso com o qual eu cruzava todos os dias quando ia para o trabalho. Ele estava sempre sentado quietinho numa cadeira na calçada, tomando o sol da manhã. Veja como tudo se mistura e vira livro!

Tolstói disse: “Pinta a sua aldeia e pintarás o mundo”. Qual é a sua aldeia?

Minha aldeia é multifacetada. Passei minha primeira infância em São Paulo, vendo TV, indo ao zoológico e ao cinema para assistir Tom & Jerry, Pernalonga e Carlitos. Via também, religiosamente, a adaptação pioneira de Tatiana Belinky e Júlio Gouveia para o Sítio do Pica-Pau Amarelo. Quando eu tinha seis anos, minha família se mudou para uma fazenda no interior de São Paulo e meu mundo se ampliou significativamente. Passei a ter contato direto com a natureza, a tomar banhos de cachoeira (e de chuva também!), a andar livre entre os bois no pasto e a conviver com todo tipo de animal. Eu já amava os animais, mas a partir daí foi um contato direto, real, de intimidade, aprendi muito com os bichos. Jamais me esqueci do primeiro parto que assisti. Era uma enorme leitoa que deu à luz uns dezoito porquinhos. Era a vida com seus mistérios que se revelava diante de mim! Fui um garoto urbano e do mato. Esse universo plural e misturado aparece em minha obra. Não preciso dizer que em minha aldeia havia livros, muitos livros, cresci rodeado por eles.

Pode contar um pouco sobre as oficinas de literatura que começam em abril? Para quem é o curso e o que esperar dele?

Minhas oficinas começaram em 2010, quando a jornalista Rosangela Petta criou a Oficina de Escrita Criativa. Ficamos impressionados com o interesse pelo curso. E mais ainda com os resultados. Muitos dos meus alunos se tornaram escritores profissionais. Estou certo de que isso se repetirá na oficina que darei no b_arco. Claro, é uma oficina em movimento, que vai integrando novos estímulos, novos autores, novas formas de pensar a literatura infantil. O que eu faço, acima de tudo, é compartilhar minha experiência de escritor. Muitas vezes, o aluno precisa apenas de um empurrãozinho para escrever maravilhas, para soltar o mundo escondido que traz consigo, para acreditar em seu próprio talento e descobrir seu estilo. Eu adoro observar esse processo, acompanhar a evolução de cada aluno. Porque escrever é arte e também libertação.

Entre outras questões abordadas, o curso ajuda os participantes a construírem melhor as personagens de suas histórias. Poderia citar aqui algumas personagens inesquecíveis dos livros dirigidos às crianças?

Minha oficina está centrada na construção do personagem. Sem bons personagens, não temos boas histórias. Na verdade, sem personagens sequer temos histórias. De cara, posso citar cinco personagens clássicos inesquecíveis: Pinóquio, Alice, Peter Pan, Emília e Píppi Meialonga. Mas há outros, muitos outros. Felizmente.

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