Peter Sís, um desbravador de mundos

Na infância em Praga, em tempos da extinta Tchecoslováquia da “cortina de ferro”, o premiado escritor e ilustrador Peter Sís sonhava em desbravar mundos ao ouvir o pai, um verdadeiro contador de histórias, narrar aventurar sobre o Oriente. Conhecer mundos novos era, então, o sonho do menino. Hoje, o autor vencedor do Hans Christian Andersen, o Nobel da literatura infantil, diz navegar pelo território da infância. “Talvez os continentes que sonhava encontrar não fossem tudo aquilo que esperava.”

As imagens de sua infância habitam um país de “ruas solitárias e acinzentadas”, de escolas comunistas e paradas com estátuas agigantadas de Marx e Engels em papel machê. Cresceu criando mundos com lápis e papel, desenhando especialmente as histórias que ouvia em casa. Foi assim introduzido no mundo da imaginação. Depois, a viagem pelo “destemido novo mundo” continuou ao ter filhos, outra grande inspiração de vida. “Eles têm deslumbramentos e descobertas do mundo.”

Para o autor, o livro infantil deve trazer “o mistério e a beleza do mundo” e “a expectativa da descoberta”. E todo esses desbravamentos podem partir da vida. “Nada pode ser mais mágico do que a vida real de uma pessoa real. A coisa mais incrível é que você passa por coisas em momentos da vida que são pura fantasia. Ou de absoluto horror”, afirma.

Há tempos vive em Nova York com a família e lá escreve e ilustra seus livros, alguns deles publicados no Brasil pela Companhia das Letrinhas – O muro, em que compartilha sua história crescendo do lado oriental do muro europeu; A conferência dos pássaros, poesia e desenhos que descrevem a beleza do Oriente; O piloto e o pequeno príncipe, sobre a vida do famoso autor francês Antoine de Saint-Exupéry.

Em entrevista exclusiva para a seção Está no papo do Blog da Letrinhas, ele fala de sua infância, sua relação com o desenho e seu processo de criação, entre outros assuntos. Confira a seguir.

Você disse certa vez que foi graças a seus pais que pôde ter, desde bem pequeno, papel e lápis em mãos. O que gostava de desenhar quando menino?

Não existia televisão nem internet quando eu era criança. Era esperado que eu me comportasse segundo a fala dos adultos. Então, eu sempre rabisquei e desenhei. Gostava de desenhar especialmente as histórias que meu avô contava sobre viagens e aventuras.

Quando criança, seu pai lhe contava histórias sobre o Tibete e você imaginava que essas histórias eram contos de fadas. Hoje em dia, o que lhe encanta sobre o Oriente? Quais dessas coisas estão escritas ou desenhadas em seus livros?

Hoje, pensando como um adulto, vejo que eu acreditava que as histórias de meu pai no Tibete eram contos de fadas. Sendo uma criança, eu acreditava nelas. Meu pai foi um grande contador de histórias. Ele me introduziu no mundo da imaginação. Já tentei “relembrar” aquela época em um livro meu – Tibet through the red box. A maior parte de meus trabalhos foram inspirados por ele. Depois de tudo, só conseguimos pensar que os mapas que vemos são a realidade daquilo que está lá fora. Mas eles não foram sempre verdade (Isso vale também para o Oriente).

Parece que, quando você teve filhos, sua percepção mudou sobre como você cria histórias. O que mudou? O que acredita ser essencial para um livro infantil?

Sim, ter tido filhos foi outra importante inspiração em minha vida. Eles têm deslumbramentos e descobertas do mundo. Meu amor por eles e o destemido novo mundo que imagino para eles. Essas são as coisas que considero essenciais para um livro infantil. O mistério e a beleza da vida, do mundo. A expectativa da descoberta.

Vários dos seus livros têm uma forte relação com sua infância em Praga. Poderia nos contar um pouco sobre seu tempo de menino e como esses aspectos surgem em seus livros? Se fechar os olhos e pensar naquela época, quais são as imagens mais profundas que surgem? 

Sim, eu serei sempre constituído pela minha infância em Praga. Ruas solitárias e acinzentadas, feitas de pedras. Celebrações e passeio em família aos domingos. Escolas comunistas e um peso histórico sobre os telhados. Acredito que eu tinha medo ao esconder meu papel e lápis. As imagens mais chocantes são as igrejas barrocas e as paradas para as comemorações de 1o de Maio com estátuas gigantes de Marx e Engels feitas de papel machê. A Praga de hoje não é nada mais parecida com isso...

Para você, que tipo de experiência o livro proporciona às crianças, considerando que hoje elas são conectadas em muitos outros canais virtuais de disseminação de histórias (como internet e games)? 

Minha opinião é antiquada. Mas eu sinto que você pode escapar da agitação tremeluzente do constante fluxo de uma tela de celular com a quietude da privacidade de um livro em um esconderijo silencioso de uma criança.

Segundo a editora italiana Giovanna Zoboli, você é um autor que “lança mão de todos os instrumentos colocados à disposição através de séculos da história do livro, da imagem, do papel impresso: miniaturas, incunábulos (tipo de documento antigo produzido com a tecnologia de caracteres móveis), mapas celestes, cartas geográficas, bestiários, herbários, atlas, alfabetos, relatos de viagens, diários, cadernos de rabiscos e de notas, ciclos de afrescos, estampas populares, ex-votos, calendários, manuais, gibis, revistas, jornais... Seus livros recorrem a todos esses instrumentos do repertório visual para representar a complexidade da vida humana no tempo e no espaço em que esta acontece”. Poderia comentar? 

Isso que a Giovanna Zoboli diz é maravilhoso. Fui muito inspirado especialmente por meu último editor, Frances Foster. Eu me sentia como um explorador descobrindo novos territórios. Talvez agora eu me sinta mais descobrindo minha infância. Talvez os continentes que eu sonhava encontrar não fossem tudo aquilo que eu esperava.

Sua obra traz histórias biográficas e autobiográficas. A realidade é tão ou mais atraente do que a ficção? Onde começa uma (realidade) e termina a outra (ficção) – e vice-versa?

Nada pode ser mais mágico do que a vida real de uma pessoa real. A coisa mais incrível é que você passa por coisas em momentos da vida que são pura fantasia. Ou de absoluto horror.

Contar histórias é (re)criar o mundo? 

As narrativas são o mundo como o ­­­conhecemos. As histórias nos permitem acreditar que somos quem nós somos – na nossa beleza, tristeza ou escuridão.

Seus livros apresentam o mundo em complexidade e trazem histórias que têm camadas de compreensão. Mas há muitos autores que subestimam os leitores infantis. Quais os principais erros que se comete na literatura para crianças?

Adoraria saber como um livro perfeito para crianças deveria ser... Eu me lembro vagamente de quão poderosas algumas histórias e imagens eram quando criança. Tenho muitas camadas em alguns de meus livros porque eu vivi numa sociedade em que a verdade e os sentimentos reais ficavam escondidos atrás de muitas camadas. Afinal de contas, cresci na cidade de Kafka e golem.

Poderia contar um pouco como é seu processo criativo?

O processo sempre passa pelos mesmos estágios. O primeiro deles é a inspiração – e existem muitas fontes inspiradoras, cada vez mais. Depois, pesquisa e descoberta. Rascunhar e fazer bonecos de livros com as ideias (eu adoro esse processo e geralmente tenho que parar justo nesse ponto). O segundo passo é a execução, que demanda tempo e requer paciência e persistência, otimismo, bom ânimo, boa iluminação, boa música e boa sorte. Acima de tudo, ter um editor é o mais importante. Sobre os cadernos de rascunho, eu faço os bonecos do livro antes de o livro se tornar livro – e em retrospecto pode-se ver como eles são frescos e fluem, eventualmente muito melhores do que o livro finalizado, na minha opinião.

Assim como você, diversas crianças pelo mundo crescem em países conturbados politicamente. O que diria a meninos e meninas que enfrentam esses desafios?

Essa é uma pergunta difícil. Eu devo (novamente) tentar dizer algo inteligente, mas o que eu poderia dizer? Há uma terrível nuvem sobre o mundo nos dias de hoje. Mas houve outras épocas em que os dias também pareciam sem esperança, e meninos e meninas os encararam. Acredito que eles devam seguir seus corações e, ao olhar para os jovens hoje, acho que irão conseguir superar esses desafios. Assim como numa boa história, eles têm a missão de salvar o nosso planeta.

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