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Para ver o mundo pelos olhos nativos - Blog da Letrinhas

Para ver o mundo pelos olhos nativos

Hoje quem chega a uma livraria ou entra em uma biblioteca possivelmente encontrará uma diversidade de livros escritos por indígenas que abarcam visões de mundo das mais diferentes etnias que habitam o Brasil. Vinte anos atrás, quando Daniel Munduruku publicou Histórias de índio, esse cenário era diferente. Sua estreia na literatura infantil foi um passo importante para que as sociedades indígenas ganhassem representatividade no mundo literário.

Além de se dedicar à carreira de escritor e organizar projetos de estímulo à leitura, Munduruku trabalha também para estimular mais autores e artistas indígenas a falarem e mostrarem mais sobre suas tradições. A lei 11.645 (2008), que determina que as escolas devem trabalhar a temática indígena em sala de aula, aliada ao fomento de compras governamentais nos últimos anos, também impulsionou o surgimento de vários autores indígenas.

O livro Histórias de índio “criou um marco na relação com a sociedade brasileira, que ouvia falar dos índios a partir de escritores não indígenas e nunca tinha ouvido falar dos indígenas a partir do olhar de um seus membros." Hoje, segundo o autor, há cerca de 30 escritores indígenas atuantes no país.

Apesar do avanço, há ainda muito que mudar. “A sociedade tem que evoluir mais na compreensão dos povos indígenas. Ainda há um preconceito e uma ignorância muito grandes das pessoas em relação a esses povos. É uma ignorância refletida a partir da reprodução dos estereótipos.” Ele conta que, “infelizmente”, as escolas continuam comemorando o Dia do Índio, que é “quando se comemora uma coisa que não existe, pois existe uma ideia genérica e única projetada dentro dessas pessoas de que índio é tudo igual”.

Confira, no bate-papo a seguir, a reflexão que o autor faz de sua trajetória, da tensa relação entre educação e diversidade e da infância como tempo do presente.

 

Prestes a completar 20 anos de sua publicação, Histórias de índio está em sua 20a edição. O livro é um marco na história da literatura por você ter sido um precursor do movimento de escritores indígenas. Quais foram suas principais inspirações e motivações para tê-lo escrito?

Quando me veio a ideia de escrever esse texto, foi uma tentativa de contribuir para diminuir o preconceito e o desconhecimento que as pessoas tinham a respeito da cultura indígena. Minha primeira inspiração era também oferecer um material educativo, que as pessoas pudessem aprender sobre a cultura indígena, mas que não fosse um livro só didático, que tivesse também elementos da literatura, a mágica das populações indígenas, para que pudessem ver um pouco como é a cultura indígena escrita por um de seus membros. É uma leitura da sociedade indígena que procura mostrar à sociedade não indígena como é a nossa vida, nossas tradições de aldeia. Esse livro foi importante por conta disso, criou um marco na relação com a sociedade brasileira, que ouvia falar dos índios a partir de escritores não indígenas e nunca tinha ouvido falar dos indígenas a partir do olhar de um seus membros.

Vinte anos depois, como você vê o livro Histórias de índio?

Mudaria um pouco a linguagem talvez, mas não o jeito como eu escrevi. Os conceitos que eu usava vinte anos atrás não seriam os mesmos de hoje. Já fiz inclusive uma atualização desse livro mais recentemente, atualizei dados que já estavam antigos. Naquele tempo eu ainda usava termos como “tribo” e a palavra “índio”, que eu não uso muito para me referir a essas populações tradicionais. Mas, para a época, foi bom, pois gerava curiosidade nas pessoas em querer saber quem era esse tal de índio e qual a história que ele tinha para contar. Nesse sentido, foi muito importante. 

E o que mudou com relação ao reconhecimento e tratamento dos povos e culturas indígenas no país de lá para cá?

Houve mudanças no olhar da sociedade brasileira em relação aos povos indígenas. Uma delas é o fato de ter criado um marco: os indígenas estão no Brasil para ficar, eles não estão em processo de desaparecimento, não estão sendo exterminados. Esse livro marca um território. Temos uma tradição que está no meio da floresta, mas também estamos no meio da cidade, estamos convivendo, indo às universidades, aprendendo coisas da cidade para poder conviver melhor.

Quais mudanças você ainda espera?

Hoje há a lei que determina que as escolas devem trabalhar a temática indígena em sala de aula. Os indígenas estão muito mais presentes em diversos segmentos da sociedade com ajuda dos programas sociais que foram criados. Mas, apesar de todo o avanço que já aconteceu nesses últimos vinte anos, a sociedade ainda tem que evoluir mais na compreensão dos povos indígenas. Ainda há um preconceito e uma ignorância muito grandes das pessoas em relação a esses povos. É uma ignorância refletida a partir da reprodução dos estereótipos. Infelizmente, as escolas continuam celebrando o Dia do Índio, quando se comemora uma coisa que não existe, pois existe uma ideia genérica e única projetada dentro dessas pessoas de que índio é tudo igual. É preciso trabalhar esse tema com mais humanidade, de perceber a diversidade que o Brasil comporta com as populações nativas, indígenas. As universidades, os cursos superiores, ainda não estão trabalhando como deveriam trabalhar na formação dos professores. Ainda hoje os professores acabam sendo vitimas dessa visão estereotipada e reproduzindo, então, um olhar unilateral, único.

Como você percebeu a recepção das crianças ao livro?

Como o livro me levou a muitas escolas, eu percebi que as crianças iam com o olhar de querer ver o exótico. Mas eu também apresentava o cultural, o humano por trás do exótico, a tradição, o jeito de ser e olhar para o mundo – de olhar para as estrelas, de olhar para a terra, de conviver e se sentir parte da natureza. Isso acabou oferecendo uma mudança de olhar por parte das crianças. O meu papel é justamente uma tentativa de tirar um pouco esses estereótipos todos e alimentar a imaginação e o imaginário coletivo das pessoas. Então os indígenas deixam de ser os “selvagens” que precisavam ser protegidos. Os indígenas são povos, experiências de humanidade que têm o direito de permanecerem vivos dentro dessa realidade. O livro trouxe esse olhar nas crianças.

Suas publicações literárias são essencialmente para jovens e crianças. Qual a mudança que você pretende causar mirando nestes pequenos leitores (e de quebra nos grandes leitores também)?

Digo que a literatura que faço é uma literatura compromissada, atuante, militante na sociedade brasileira. Nunca tive a intenção de escrever apenas para deleite das pessoas. Escrevo para que as pessoas possam aprender de fato. Talvez por isso que eu tenha caminhado para o lado da literatura infantojuvenil e me preocupado em atingir o coração desse público, por pensar que as crianças e os jovens têm condições de entender melhor esse sentimento de ser humano. Acho que minha fala e minha escrita são capazes de atingir públicos que não precisam estar fechados numa faixa etária. Os adultos, quando entram em contato com meu trabalho, também se emocionam, aprendem, interagem e se reconhecem como brasileiros. Eles conseguem reconhecer o pertencimento deles a essa identidade nacional a partir do olhar de um Munduruku. Isso só mostra a riqueza, preciosidade da literatura, que é se enxergar com os olhos dos outros, com os olhos de quem escreve.

Sua atuação como escritor foi um grande impulso no avanço da participação de outros indígenas na literatura e também no reconhecimento das diferentes culturas. Como você vê essa inclusão da diversidade nos produtores de conteúdos culturais?

O Brasil é um país que nasceu diverso e precisa não esquecer disso. Nos últimos vinte anos, houve uma mudança nessa abordagem cultural, na inserção de outros olhares. O negro deixou de ser apenas um coadjuvante, ele virou um realizador de cultura. O indígena deixou de ser uma vitrine e passou a ser participante na sociedade brasileira. A importância de instituições que têm uma força muito grande na produção cultural passaram a ter esse olhar diverso e inserir essa linguagem dentro de seus projetos e programas. Quando o Ministério da Cultura fez isso, abriu o leque para perceber a beleza que toda a sociedade brasileira possui. É muito satisfatório e grandioso a gente perceber que essas linguagens todas já são muito presentes e que hoje em dia não se permite mais fazer uma programação cultural que não envolva os vários interesses das pessoas.

Como você vê o progresso em relação à produção cultural feita pelos indígenas?

É um caminho que já está mais estabelecido, que nasceu como uma picada numa floresta de editoras. A literatura indígena abriu essa picada, esse caminho, e permitiu que outros autores aparecessem. Hoje já são mais de 30 autores indígenas e tem sido uma produção literária muito consistente. A criação de concursos contribuiu em descobrir talentos entre os indígenas. A sociedade brasileira pode hoje em dia acessar os conhecimentos e a tradição indígenas por meio da literatura escrita pelos próprios indígenas, além do canto, da dança, das músicas, da pintura e de outras artes.

Além de ter intensa participação na sociedade como defensor dos direitos dos povos indígenas, você tem vasta experiência com crianças e jovens e também defende os direitos dessas. Quais são seus planos ou projetos nessas áreas?

Sempre costumo dizer que o povo indígena é um povo do presente, a gente segue o dia a dia pensando mais em viver do que pensar no que vem pela frente. É claro que isso não impede que a gente planeje e projete algumas coisas para além do hoje; estou sempre com projetos novos, algum texto que eu preciso concluir, repensar, reproduzir. Sobre o hoje, o esforço que tenho feito, além de escrever para crianças, visitar escolas e desenvolver uma linguagem que permita que elas compreendam o que quero dizer, é lutar para a formação de professores com uma cabeça mais aberta para que a gente perceba o Brasil como uma diversidade. Temos experiências de ser brasileiros de forma diferente. E todo brasileiro tem uma fração indígena consigo. Quando repetimos o estereótipo, queremos que esses “selvagens” permaneçam na floresta. Isso é um grande engodo que a educação brasileira deixa escapar e passar na formação dos professores.        

Quais elementos você considera essenciais na infância de todas as crianças brasileiras?

Tenho defendido que criança tem que ser criança. Não tem cabimento nenhum tentar forjar na criança um adulto que ela não é. Eu vejo que na educação, na formação das pessoas, muito se incentiva a criança se tornar um profissional. Acho que isso é um erro de abordagem. Pensando na tradição indígena de uma maneira geral, a gente aprende que criança tem que ser criança, tem que brincar! E é na brincadeira que a criança aprende. Vejo que as escolas oferecem muito futuro para as crianças, o que tenho receio. Quando passamos a pensar no futuro, saímos do presente e, quando a gente sai do presente, acaba se arrependendo e não vivendo essa fase tão fundamental da vida. A identidade do ser humano começa com uma infância bem resolvida, uma infância feliz, que leva a ser um adulto feliz, que responde à sociedade de uma maneira mais objetiva, clara e honesta. 

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