Para relembrar a criança eterna

 

Logo ao entrar na Ocupação Lydia Hortélio, um clima convidativo à infância já abraça o visitante. Passando por estruturas de madeira, a primeira parada acontece em cabanas de tecido, como aquelas feitas por meninos e meninas em brincadeiras na sala de casa. Nesse espaço, é possível ouvir os acalantos (cantigas cantadas para crianças) coletados pela educadora baiana em suas andanças pelo país. A partir daí, a exposição convida as pessoas a percorrerem o universo lúdico dessa pesquisadora do brincar, acordando a sua própria criança interior.

Instalada no piso térreo do Itaú Cultural na avenida Paulista, em São Paulo, a exposição faz parte da série Ocupação, nesta edição feita em parceria com o Instituto Alana, que idealizou também uma programação paralela, incluindo quatro espetáculos musicais que dialogam com o trabalho de Lydia Hortélio, além de debates, oficinas e leituras sobre a cultura da criança. Parte do material reunido em sua homenagem também está disponível na mostra online, no site.

 

 

Lydia Hortélio cresceu em Serrinha, no sertão baiano. Estudou música e seguiu mundo: viveu na Alemanha e em Portugal, voltou para a sua terra natal e viajou o Brasil a fundo. Foi nesse caminhar que descobriu a sua vocação como educadora e pesquisadora, e então começou uma vasta pesquisa em busca de brinquedos, cantados ou não. Hoje, aos 86 anos, referência na área, ela possui uma coleção com mais de três mil brinquedos. É forte defensora da cultura da criança e do brincar como formação da identidade do indivíduo e, por isso, da cultura nacional. Para “saber menino”, como Lydia diz sobre esses estudos, o corpo do adulto deve se encontrar com o corpo da criança. Por isso ainda se mantém menina.

 

Lydia acompanha crianças na abertura da Ocupação em sua homenagem

 

A Ocupação traz uma ambientação com referências a paisagens naturais, com árvores estilizadas, compondo um quintal de brincar, espaço para jogar cinco pedrinhas ou pular amarelinha, com suas devidas instruções, bem como as indicações de centenas de modalidades dessas brincadeiras ao redor do mundo. Além da sua trajetória, contada entre fotografias, manuscritos e depoimentos em vídeo, a mostra guia o público pelo universo brincante a partir de quatro eixos: Acalanto, Brincos, Brincadeiras de roda e Brinquedos.

 

 

O acalanto, apresentado já no início, conta com as reproduções das cantigas em áudio e também com interpretação em Libras – é um meio de familiarizar e embalar o público, assim como os acalantos fazem com as crianças. A mostra se desenvolve como o crescimento de uma criança, levando ao que Lydia chama de brincos, músicas e objetos para aprender a se equilibrar e coordenar os gestos, andar, soltar o riso, brincar, servindo de exploração do mundo e de si mesma. Já as brincadeiras de roda têm um papel fundamental no desenvolvimento da coordenação motora e dos sensos rítmico e espacial das crianças, além de envolverem noções básicas de coletividade. E, por fim, o brinquedo, que, na concepção de Lydia Hortélio, não é necessariamente um objeto, mas o próprio ato de brincar, “o que acontece quando o brinco é entoado, quando o desafio é lançado, quando as mãos se dão em roda”.

 

 

Por isso, o visitante deve saber como estar nesse mundo lúdico, abrindo e fechando gavetas, que, às vezes, reproduzem sons, para ter acesso às pesquisas de Lydia e às suas coleções de selos e apitos, misturando expositivos com objetos táteis, como os tantos brinquedos manuais. No meio do percurso, uma grande instalação em três níveis mostra imagens projetadas de crianças brincando, uma animação construída com fotos feitas por Lydia, e a brincadeira dos meninos registrada pela pesquisadora, junto de outras propostas audiovisuais para não deixar criança alguma indiferente ao espaço. O próprio título também é brincável:

 

 

“Lydia Hortélio semeou e segue a semear um legado pedagógico. Continua a preparar com sua vida um ESPÍRITO de pesquisa para “sabermos menino”. Uma postura que se  junta, se faz coesa, nos princípios de honradez da criança que só acontecem se se souber contemplar, ouvir, ver, pertencer e íntimo ser. Eis um modo de viver o brincar”, diz o posfácio do pesquisador maranhense Gandhy Piorski, que compõe a curadoria da Ocupação Lydia Hortélio.

 

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Ocupação Lydia Hortélio

 

Onde: Itaú Cultural (av. Paulista, 149, Bela Vista)

Quando: até 8 de setembro; material online já disponível no site.

Quanto: entrada franca

Classificação etária: livre

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