Palavras de saudades para Tatiana Belinky

 

Tatiana Belinky (1919-2013) foi uma figura “camaleônica”, como bem definiu o escritor Claudio Fragata. No ano em que a autora-dramaturga-tradutora-poeta-jornalista-bruxinha-defensora da infância chegaria ao seu centenário, convidamos alguns artistas a compartilhar lembranças dessa autora de tantas faces.

A artista de dezenas de obras publicadas nasceu em São Petersburgo, na antiga União Soviética, em 1919, e veio ainda criança com sua família para cá. Na época, ainda tinha sonhos de ser bruxa, já que as fadas dos contos que ouvia na infância eram certinhas demais. Em terras brasileiras, anos depois, a menina Tatiana leu Monteiro Lobato e decidiu que queria mesmo era ser Emília.

Além de escritora, ela foi tradutora de russo, alemão, inglês e francês, jornalista em veículos como Folha de S.Paulo, O Estado de S. Paulo e Jornal da Tarde. Adaptou grandes obras da literatura em peças infantis para a prefeitura de São Paulo em parceria com seu marido, o educador Júlio Gouveia. Também teve participação na televisão, nos anos 50, quando as transmissões ainda eram ao vivo e em preto e branco. Tatiana, com seu marido, adaptou para a TV, ainda em seus primórdios, as histórias lobatianas do Sítio do Pica-Pau Amarelo, no ar por onze anos.

O que muitos não se lembram de imediato é que, além de pioneira na produção cultural para a infância, na TV e no teatro infantil, também foi uma das desbravadoras da arte do limerique, sendo uma das primeiras brasileiras a trazer esse estilo de poema no seu tema e na sua forma mais tradicionais, adicionando bom humor em cinco versos (com a seguinte receita: rimas entre a primeira, a segunda e a quinta linhas, normalmente de oito ou nove síladas, e entre a terceira e quarta linhas, de cinco ou seis sílabas).

Ao longo de sua vida literária, foi homenageada com diversos prêmios, entre eles o Jabuti, concedido pela produção editorial infantojuvenil (1991) e pela obra A saga de Siegfried (1994). Entre um mar de consagrações que recebeu, foi dona também d’A Ordem do Ipiranga, a honraria mais elevada do estado de São Paulo, reservada a cidadãos brasileiros e estrangeiros que prestaram serviços notórios aos paulistas. Em 2009, foi eleita para uma das cadeiras da Academia Paulista de Letras.

Faleceu aos 94 anos, em 2013, na cidade paulistana onde sempre viveu confabulando histórias. Neste ano, chegaria ao seu centenário. Da saudade que fica, confira algumas palavras expressas por artistas e admiradores.

 

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Bruxa-madrinha

 

“Entre os inúmeros ensinamentos que recebi de minha querida bruxa-madrinha, destaco sua ‘fórmula’ para definir uma boa história, o que norteou toda minha obra. Lá vem história e Lá vem história outra vez foram dois títulos absolutamente inspirados por Tatiana, não apenas pela escolha de narrativas emocionantes, como também pela busca de histórias de culturas diversas. Mostrar o diferente, ela pensava, é educar para a tolerância e paz.

Nas várias tardes em que eu passava com ela, sentada no sofá ao lado da poltrona confortável diante da mesinha cheia de cadernos e lápis, que ela compartilhava com seu gato, eu a ouvia dizer: ‘Precisamos um dia escrever os mitos nórdicos’, ou ainda, ‘estou planejando adaptar mais contos de Turgeniev’. Era como se ela considerasse o tempo curto demais para todas as histórias que ela, poliglota e ávida leitora, quisesse compartilhar com os leitores brasileiros.

Mas, acima de tudo, Tatiana me ensinou o valor da coragem e da integridade diante da escrita. A importância de escrever segundo minha sensibilidade e percepções, independentemente de modas, ditames e tendências. Até mesmo o repúdio de um ou outro leitor tem importância, ela me assegurava, é sinal de que a obra foi capaz de mobilizar. ‘Livros leves e apenas bonitinhos’, ela acreditava, ‘todo mundo logo esquece... Nunca se deve subestimar a inteligência dos pequenos. Quem disse que criança não gosta de palavras difíceis e histórias cheias de reviravoltas?’”

 

Heloisa Prieto é autora de obras como Lá vem história e O estranho caso da massinha fedorenta. Escreveu o prefácio de Um caldeirão de poemas 2, com limeriques, parlendas e canções traduzidos ou escritos por Tatiana Belinky.

 

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Limeriques para Fra-gato

“Tatiana Belinky só me chamava de Fra-gato, e eu a visitava com frequência. Às vezes, era eu quem ligava marcando o encontro, às vezes, era ela quem me convidava para tomar ‘um Portinho’ acompanhado de amêndoas e frutas secas. Quase sempre era recebido com poemas e limeriques dedicados a mim, que ela fazia enquanto me esperava. Quando completou 90 anos, dei a ela uma almofada em forma de gato. Tatiana adorou o presente porque amava os gatos. Batizou o gato-almofada de Klau. Um dia que demorei a chegar, fui recebido com um limerique enfezado:

O gatinho Klau está esperando.

O gato Fragato está chegando.

Esse Fragato,

O tal ingrato,

Que me deixa um tempão esperando.

Morro de saudade da Tatiana. Penso nela todos os dias. Uma das pessoas mais adoráveis que conheci na vida. Um privilégio sua amizade.”

Claudio Fragata é escritor de livros infantis e juvenis, jornalista e professor de escrita criativa.

 

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Carta a uma avó e tanto

 

“Para Tatiana,

Para mim, você foi como uma vó; uma vó da literatura para a infância.

Eu era bem mais jovem e você bem experiente.

Mas o que me cativou logo em você foi aquele seu olhar. Um olhar de menininha séria, curiosa, sapeca e muito doce, tudo isso ao mesmo tempo.

Ilustrar um livro seu foi para mim uma concretização de um sonho e por acaso, se bem que não acredito muito nisso.

Eu tirei a sorte grande de ilustrar um dos seus livros mais deliciosos.

Ilustrei Limeriques da Cocanha, lembra?

Ilustrei com pastel oleoso e pesquisei exaustivamente principalmente as telas de Bruegel e Klint. Eu achei que você merecia ficar ao lado dos Mestres, dos Musos…

E também coloquei Sean Connery numa cena de O nome da rosa porque minha mãe adora esse ator (que fez o filme) e pelo livro que você devia certamente gostar.

O problema de trabalhar com pastel oleoso é que eu precisava ampliar a cena em mais de cinco vezes e, por isso, louco que eu era, trabalhava em papéis Schoeller, que tinham uma camada de gesso que me permitia raspá-los com diversas espátulas. Foi um trabalho de doido, mas que me recompensou muito na época em que eu ainda estava experimentando esse estilo em particular.

Demorei quatro meses para ilustrar seu livro e quase fali por causa disso.

Na época fiquei aflito, mas o tempo sempre transforma essas coisas em histórias jocosas...

Valeu muito a pena ilustrar seu texto, Cara Dama quase-completamente-brasileira da Literatura  (como eu, se bem que eu nasci aqui).

Tenho certeza de que você está agora mesmo no País da Cocanha se deliciando… Velejando em rios de mel e comendo queijos Camembert e Brie regado com os melhores vinhos!”


Jean-claude Alphen já trabalhou como caricaturista e hoje se dedica à literatura para a infância. Ilustrou o livro Limeriques de cocanha, de Tatiana Belinky, e escreveu essa carta para a comemoração do centenário dela promovido pel'A Casa Tombada.

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