Os vilões já não são mais os mesmos...

 

Lobo Mau, Cuca, Capitão Gancho… Todos temos aquele vilão que aterrorizou nossas noites na infância, das quais ainda lembramos vividamente. Eles são parte importante da história: simbolizam o mal, aquilo que é errado, proibido. Mas será que esse modelo rígido de luta do bem contra o mal prevalece nas histórias dos dias de hoje?

Para Mônica Lima de Faria, não. Ao menos é o que constatou na tese Imagem e imaginário dos vilões contemporâneos, realizada na PUC-RS, em que teve a oportunidade de estudar vilões dos quadrinhos, do cinema e dos games. Ela explica que o vilão tem, na história, um lugar para cumprir: o de antagonista do herói. Se o herói é o humano, o personagem com o qual o leitor de identifica, o vilão é a figura que provoca os obstáculos para o seu sucesso e deixa a história mais emocionante. Sem esse arquétipo que muitos abominam, o herói não teria um caminho ao qual percorrer, um medo para enfrentar. Não aprenderia e não evoluiria.

 

Ilustração Marcelo Tolentino

 

Nos dias de hoje, noções como "bem" e "mal" são relativizadas. A bruxa má que antes era a responsável pela maldição da Bela Adormecida ganha a sua própria versão da história, onde seu lugar é de heroína, como no filme Malévola (2014). "Os lugares não são tão bem definidos, há espaço para questionar os dois lados. Nem todo bem é perfeito, o mal não é assim sem razão. São permitidos múltiplos pontos de vista, analisar as motivações do mal e compreendê-las, mesmo que discordando. Pensar as ações do bem e questioná-las a partir de suas ideologias e consequências. Pessoalmente, considero uma postura profícua, no sentido de permitir múltiplas interpretações, porém também perigosa, por essas interpretações poderem fugir de contextos sociais básicos para a vida social", explica Mônica.

É cada vez mais raro aquele vilão tradicional da história infantil, bem distinto e estereotipado, que é a personificação do mal, sem abertura nenhuma para questionamentos. "Em muitas histórias contemporâneas existe espaço para a dúvida. Muitas vezes a posição do vilão é relativizada, questionada ou até justificada e compreendida. Ao invés de deixar uma leitura rígida, se abrem brechas interpretativas nas quais se pode entender os motivos de o vilão agir de determinada maneira e, quem sabe, não ser mais visto como vilão a partir de novos pontos de vista", completa.

Diversas criaturas (vampiros e lobisomens) antes vistas como malignas ganharam aspectos de humanidade. As bruxas, por exemplo, tinham sua imagem relacionadas ao diabo do mundo cristão. Nos séculos XVI e XVII, foram perseguidas, queimadas, torturadas. Mais tarde, passaram a ser retratadas como mulheres velhas e feias, como a vilã de Branca de Neve, que invejava a beleza da princesa, ou a icônica Bruxa Má do Oeste, de O mágico de Oz, que ostentava uma pele verde e verrugas pelo rosto.

Casos como esses são bem diferentes da bruxa Hermione de Harry Potter, por exemplo. Apesar da palavra "bruxa" até hoje apresentar uma conotação negativa, sendo usada por vezes como ofensa, a heroína que encantou toda uma geração é bela, corajosa e inteligente e ajuda Harry a passar por obstáculos que seriam impossíveis se estivesse sozinho.

Em seu estudo, Mônica cita diferentes tipos de vilão. O primeiro é o vilão "sinistro", que representa o mal pelo medo e é uma forma de perigo. Existe a antítese do herói, que é uma espécie de duplo do protagonista. Já o "anjo caído" é ambivalente, que tem uma forte motivação e justificativa para que ele seja malvado. Esse é, segundo a pesquisadora, um tipo de vilão muito recorrente nas histórias infantojuvenis.

E se a maldade do vilão torna-se questionável, também o é a bondade do herói. Segundo Mônica, o herói contemporâneo também pode cometer falhas graves. Nesse sentido, surge a figura do anti-herói. Há aquele que comete "maldades" para atingir um bem maior; o egoísta, que na verdade tem como intenção resolver seus próprios interesses pessoais e acaba "fazendo justiça" por um mero acaso; e o herói falho, debilitado, que tem de superar diversas dificuldades, inclusive a autoconfiança.

"É difícil dizer o motivo pelo qual isso acontece, mas posso inferir que hoje há espaço para o questionamento e também para aceitar que a perfeição não existe. Ser imperfeito é humano, e os heróis são representações humanas", explica Mônica, citando o caso do bruxo Harry Potter. "Ele está longe de ser um herói indefectível. Tem dúvidas, personalidade difícil, modo de agir muitas vezes questionável…"

A pesquisadora nos lembra que as figuras do vilão e do herói têm a mesma importância na construção de uma narrativa. Na contemporaneidade, é tudo uma questão de ponto de vista, já que um vilão carismático pode mostrar que todo humano tem seu lado "ruim", gerando até certa identificação. Enquanto o herói mostra as suas falhas insuperáveis, o vilão se entrega totalmente a elas. Mas nem por isso deixa de lado a sua porção de humanidade.

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