Os "sem anos" de Manoel de Barros

Por Selma Maria

Fotos Alisson Ricardo da Silva

Palavras são formadas de sons e silêncios, mas não gostam de ficar escondidas dentro de criados-mudos e às vezes se sentem ofendidas se exibidas em alto-falantes. Mas vou tirar algumas palavras de cartas guardadas do fundo do baú para contar a história de um encontro com Manoel de Barros, um poeta que de tão atemporal agora tem SEM anos.

Em 2006, quando li seus poemas, que diziam coisas do meu mundo, enviei para sua casa, pelo correio, um caderninho com o pedido de montar uma exposição sobre a sua infância. Já tinha até nome: Nada, Nequinho, Nada. Nada era aquele que ele buscava. Nequinho: seu apelido de infância.

Também enviei uma caixinha cheia de cacarecos, sementes, pedrinhas que peguei no sertão de Minas Gerais durante quatro anos de pesquisa sobre os brinquedos de Guimarães Rosa. Eram coisas da natureza que ele gostava – e eu também. Achei que assim poderíamos partir de um ponto comum: brincar com o invisível visto pelo olhar poético da criança.

Uma semana depois fui visitá-lo. Quando nos conhecemos em Campo Grande, ele perguntou: “Qual instituição você representa? De onde você vem?”. “Eu venho de mim mesma”, respondi. Ele riu muito com a minha resposta e assim começou nossa amizade. A partir desse momento, ele se sentiu à vontade para falar das coisas desimportantes, das pessoas invisíveis e dos meninos quietos, de todos sertões e do seu Pantanal.

Manoel voava nas palavras rio, árvore, lesma, pedra, água e passarinho. Todo dia era essa sua poesia. Resgatava em seus versos o invisível menino pantaneiro que brincava com o nada - o tudo. Artista do invisível. Nasceu no invisível geográfico de si e, para se ver, precisa transver tudo. Entendi que o seu ó-cio vivido na infância, no silên-cio, ele trans-formou em cio ma-cio com a palavra, seu brinquedo favorito.

Para transver as coisas, usava seus óculos virados ao contrário e via, com profundeza de rio, as coisas do pré-mundo. Os óculos de Manoel pareciam uma lupa de tão grossas lentes e amplas de tamanho. Isso ampliava sua visão de tal maneira que transformava suas letras em pequenos seres invisíveis. Era necessário um esforço enorme para ler suas cartas e escritos. Acho que ele fazia isso de propósito. Era, assim, apertando a vista, que a gente extraía o sumo das palavras. Um co-sumo de olhar.

Dizia que ser chamado de bocó era um elogio. Tinha um amigo, o Bernardo, seu eu mesmo, que ele visitava sempre como um simples andarilho. Uma vida andar-ilha que caminhava pelo Pantanal imaginário criado na sua infância e tocada pelo brinquedo palavra. Manoel andava e pulava de palavra em palavra com seu cavalo, montado numa ema ou num mosquito. De preferência no mais invisível e silen-cio-so possível.

Ema, ema, ema: cada um com seus poemas. E Manoel tinha os seus ver-sos preparados com gosmas de lesmas, latas enferrujadas, pedrinhas das beiras de rio. As palavra vindas de Manoel mudam a gente com muitos silên-cios. E fazem a gente falar de coisas desimportantes, desobjetos, desapontamentos. Manoel transgride, deixa a gente de ponta-cabeça para ficar no abandono, quietos com nós mesmos e, só assim, ouvir os primeiros sons do mundo. O som das pré-coisas. Esse era o seu ó-cio.

Ah, e o meu pedido na carta-caderninho que falei no início deste texto? Nunca fiz a exposição. É que Manoel me ensinou algo naquela tarde. Ele me indicou outra rota: descobrir minha terra à vista do invisível, esse lugar de investigação para o nascimento das coisas que não falam, como a fala das crianças, recheadas das primeiras percepções de mundo, onde nascem as coisas e a poesia, as fontes de saberes de mundo, não de conhecimento vindo de fora, mas o de dentro, que só nós podemos falar.

“Não vou permitir você fazer uma exposição sobre a minha infância, assim como fez com Guimarães Rosa. Você precisa encontrar você e fazer a sua escrita, in-ventá-la...” Foi essa sua generosa resposta. Manoel me pediu para ver o meu invisível. E me convidou a procurar minha própria escrita.

Fui direto ao aeroporto e paguei o tanto a mais para trocar a passagem. Já não precisava mais percorrer a geografia do Pantanal e o brincar de meninos e suas lesmas. Manoel tinha me mostrado o Pantanal inteiro naquela tarde. Viajei de avião até lá e voltei para casa nas suas asas. Ele preferia o voo certo dos insetos ao voo dos aviões.

Fiquei um ano sem falar com Manoel, escrevendo meu primeiro livro, procurando uma editora e, quando ganhei um edital para publicação, imediatamente liguei para ele para dar essa feliz notícia: “Manoel, o livro nasceu!!!”. E ele respondeu: “Você nunca mais falou comigo... Não gostou de mim? Eu te escrevi e você não me respondeu...”.

“Não, Manoel, você me passou uma lição de casa muito difícil e queria fazê-la direitinho... Achei minha escrita, Manoel.” Bem, ficamos come-morando no telefone. Depois vieram mais cartas e outros telefonemas. Mandei meu primeiro livro publicado. Ele escreveu uma carta linda, a qual já devo ter lido umas mil vezes. Principalmente quando a vida de escritora mostra seus caminhos tão duros e difíceis, vou lá, procuro a carta, releio suas palavras e vou em frente. Sigo me renovando no olhar dele.

Depois ele ficou bem doente, não podia mais escrever, receber pessoas, falar ao telefone. Viveu uma vida bela e virou passarinho, voou junto com a palavra PA-LAVRA. Sua c-ASA com ASA. Manoel não ficou moço, nem adulto nem velho. Fez uma conta de divisão da sua vida repartida em três momentos: primeira infância, segunda infância e terceira infância. Então, agora, deve estar na quarta infância nestes seus cem anos de vida.

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Selma Maria ou Selma-ria ou Sel-mar-ia é poeta, artista plástica, pesquisadora de brinquedos, arte-educadora, atriz performática, mestre em gambiarras e palavras ocultas, formada na FAAP e disformada pelos amigos e viagens todas que fez e faz desde 1986, na AMA-ZÔNIA. É autora de dez livros para crianças e adultos que vivem suas infâncias todas.

 

 

 

 

 

 

 

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