Os pontos de vista de uma mesma história

Por Ricardo Azevedo

Por volta de 1986, estava passando pela rua Macunis, no bairro de Pinheiros, quando sai de uma casa uma mulher alta, óculos de aro grosso e cabelos brancos, vistosa, firme e parruda. Eu estava de moto e lembro que a presença dela até deslocou um pouco pro lado a rota da moto tal era sua energia. Fui para casa com aquela figura na cabeça. Lembro de ter pensado comigo: “Para as pessoas que ela gosta, essa mulher deve ser muito legal. Em compensação, as que ela não gosta estão roubadas...”.

Só sei que cheguei em casa, sentei diante do computador e comecei a imaginar possibilidades de vida para ela. Inicialmente, o trabalho resultou em três textos. No caso, a tal velha virou uma escritora, uma feiticeira e uma atriz de teatro. O livro foi publicado em 1987 pela Editora FTD, com um título comprido que era uma pergunta: Tá vendo uma velhota de óculos, chinelo e vestido de bolinha branca no portão daquela casa? A ideia era que os textos internos respondessem à indagação feita na capa.

Pois bem, passaram-se os anos, deixei de publicar pela FTD e, em 1998, republiquei o livro pela Companhia das Letrinhas. Creio que com a nova edição o livro amadureceu. Primeiro porque, além das três descrições do livro anterior, acrescentei mais três: a velha passou a poder ser também uma dona de casa, uma professora de ginástica aposentada e uma viúva tristonha que mora sozinha, mas no fim arranja um amigo e sai para dar uma voltinha na praça do Pôr-do-sol. O trabalho ficou mais consistente.

Segundo, o livro ganhou um formato maior, o que favoreceu as ilustrações, que, creio, ficaram melhores. Terceiro, resolvi fazer com que a pergunta da capa virasse um texto curto que abre o livro e fala de seis amigos sentados na calçada. Cada um deles inventa uma possibilidade de vida para aquela velhinha que mora perto de suas casas e que eles só conhecem de vista. Por fim, isso permitiu enxugar o título que passou a ser apenas Uma velhinha de óculos, chinelos e vestido azul de bolinhas brancas.

Creio que a perspectiva da convivência e dos conflitos entre diferentes pontos de vista sobre um mesmo assunto é um tema importante, fascinante e estimulante. Tal perspectiva me levou a escrever alguns livros. Cito dois: Nossa rua tem um problema (o diário de um menino e o diário de uma menina tratando dos mesmos assuntos por óticas diferentes) e O livro dos pontos de vista (as diferentes opiniões das pessoas de uma mesma família, pai, mãe, filho filha e, inclusive, um cachorro, um gato e uma tartaruga que também moram na casa e têm suas visões pessoais  – ou animais – a respeito do que acontece).

Foram muitas e variadas as fontes de inspiração para esses livros – experiências pessoais, cenas que vi por aí, coisas que imaginei, coisas que li etc. Mas houve uma influência muito especial. É o texto que vai abaixo:

“Encontrei hoje em ruas, separadamente, dois amigos meus que se haviam zangado um com o outro. Cada um me contou a narrativa de por que se haviam zangado. Cada um me disse a verdade. Cada um me contou as suas razões. Ambos tinham razão. Não era que um via uma coisa e outro outra, ou que um via um lado das coisas e outro um outro lado diferente. Não: cada um via as coisas exatamente como se haviam passado, cada um as via com um critério idêntico ao do outro, mas cada um via uma coisa diferente e cada um, portanto, tinha razão. Fiquei confuso diante desta dupla existência da verdade.”

Li esse texto há muito tempo. Desde então, essa pequena joia preciosa da literatura, trecho do Livro do desassossego, do grande poeta português Fernando Pessoa, passou a morar dentro de mim, daqui não vai sair nunca mais e, tenho certeza, será sempre um estímulo para criar novos trabalhos.

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Ricardo Azevedo nasceu em São Paulo, em 1949. É escritor e ilustrador, autor de muitos livros para crianças e jovens. Pela Companhia das Letrinhas, publicou Abre a boca e fecha os olhos, Não existe dor gostosa, Uma velhinha de óculos, chinelos e vestido azul de bolinhas, Aviãozinho de papel e A outra enciclopédia canina, ganhador do prêmio Jabuti.

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Ilustração: Marcelo Tolentino

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