Os meninos precisam falar sobre o que sentem

 

“Engole o choro.” “Seja forte.” “Não deixe que batam em você. Se for preciso, bata neles.” Essas são algumas frases que pautam a criação dos meninos ainda nos dias de hoje. Ainda que as meninas estejam repensando seu lugar na sociedade e sendo educadas, cada vez mais, para se imporem e reivindicarem sua independência, os meninos, na sua grande maioria, seguem ocupando a posição de fortaleza. Um controle emocional forjado esconde toda e qualquer vulnerabilidade. A esse comportamento imposto, que limita atitudes naturais como a manifestação de sentimentos, dá-se o nome de: masculinidade tóxica.

 

Crédito: Ian Leite

 

Pensando nela, a equipe do site Papo de Homem, há doze anos discutindo assuntos referentes às masculinidades na internet, com o apoio da Natura Homem e Reserva, produziu o documentário O silêncio dos homens. Disponível gratuitamente no YouTubeo filme surge como resultado de uma pesquisa, feita em nível nacional com mais de 40.000 pessoas, que mapeou opiniões diversas sobre se sentir solitário, lidar com distúrbios emocionais, conversar sobre medos e dúvidas etc. O coordenador do projeto, Ismael dos Anjos, concorda que o fortalecimento da organização das mulheres forçou os homens dessa geração a confrontarem o papel que cumprem na sociedade.

Para ele, no entanto, ainda que a expressão "masculinidade tóxica" seja necessária para resumir um sistema de construções sociais nocivas, é importante tratar o tema no plural. As masculinidades são distintas entre homens LGBTs e homens negros, por exemplo. Em relação a este último grupo, muitas vezes, reconhecida até mesmo como incompatível com a noção de tóxica, pois parte de um outro pressuposto, relacionado à escravidão, que "nega a característica humana ao negro". Assim, quebra com pensamentos associados a esse papel destrutivo, como posturas que indicam a competitividade para se tornar o homem ideal. Nesse caso, não seguem adiante, pelo fato deste ideal se concentrar no homem branco.

O longa-metragem trata bem dessas diferenças entre os homens e apresenta grupos de conversa em que cada uma das vivências é respeitada. Mais do que teorizar sobre o assunto, essas rodas ajudam a pensar o particular e questionar posturas recorrentes em ações práticas do cotidiano. A tentativa de se criar um ambiente aberto à troca de experiências é, assim, a oportunidade de se criar um espaço aberto ao encontro e à ajuda. Totalmente contrário aos dados coletados pela pesquisa citada anteriormente, que indica que 37% dos homens nunca sequer conversou com alguém sobre o que significa ser homem.

 

Divulgação PapodeHomem

 

Ainda sobre a visibilidade que a temática recebeu nos últimos tempos, é interessante perceber como o assunto chega às escolas. No documentário, o que exemplifica essa situação é o projeto Plano de Menino. Idealizado pela jornalista Viviane Duarte, surge a partir da demanda de meninas que, agora, capazes de identificar comportamentos machistas, perceberam a necessidade de os colegas refletirem sobre a maneira como agiam. Os encontros entre os garotos acontece da mesma forma que os adultos se organizam. Cada um compartilha questões pessoais e, nessa abertura aos sentimentos, o grupo discute e se recoloca enquanto agente de transformação. 

Nesses momentos, também vale introduzir assuntos referentes à sexualidade, que, ligada aos hábitos desses jovens na internet, tende a objetificar o corpo da mulher. E, consequentemente, naturalizar a violência e o assédio. Para Ismael, abordar essa questão é básica para a formação humana e "negar esse tipo de conhecimento às crianças é promover um sofrimento lá na frente". Mantendo a honestidade e o respeito à faixa etária dos estudantes, essas informações são valiosas para que eles cresçam em um cenário saudável e de autocuidado.

 

 

Como já é sabido: “É preciso uma aldeia para se educar uma criança”. Na sala de aula, os educadores podem contribuir com o movimento de repensar as masculinidades dando atenção para quais tipos de atitudes são repercutidas entre os garotos. Tentando, assim, combater expressões violentas e competitivas. E também, em uma dimensão mais macro, discutir o próprio contexto da educação. "Será que esses meninos veem homens em posição de cuidado?", provoca Ismael. Esse questionamento também vale para o ambiente doméstico. 

De nada adianta um pai ser permissivo a demonstrações de afeto, ao uso da cor rosa e eloquente no discurso de apoio às mulheres, se este mesmo homem não ajudar com as tarefas do lar. Os homens, ao que tudo indica, se calam quando o assunto é sua própria condição. Mas só falar também não é a resposta para todos os problemas. É preciso agir, transformar verbo em movimento. 

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