Os caminhos da literatura na Flipinha

 

Por Antonio Castro e Mell Brites

 

"bandeirolas
voo de pássaro
ventania"

Começamos esta manhã ensolarada de sábado partindo de uma caminhada meditativa com Gilles Eduar. O autor e ilustrador de História da Terra 100 palavras, Brasil 100 palavras, Ossos do ofício e outros livros levou crianças e adultos para um passeio no entorno da Biblioteca Comunitária Casa Azul em Paraty. A ideia do passeio era caminhar em silêncio pelas ruas da cidade, observando as pequenas coisas que nos cercam: fazem barulho, se movimentam, têm cheiros, mas que muitas vezes passam batido aos nossos olhos e ouvidos.

 

 

A caminhada durou cerca de dez minutos e, quando voltamos, Gilles pediu para que todos enumerassem o que viram nas ruas. Vários elementos surgiram: passarinho na gaiola, peixe no lago, caminhão de som, pipa pendurada etc. Depois que registramos as palavras e imagens, Gilles convidou todos a juntarem as expressões de três em três e construir haicais. De tradição japonesa, os haicais são poemas curtos, de três versos, que passam sempre a imagem de um instante, quase uma fotografia, um segundo. E, assim, vários poemas surgiram sobre as ruas de Paraty.

"maçã do amor
coco no chão 
luz do sol"

"passarinho na gaiola
coxinha de galinha
o cais pesqueiro"

"urubu na árvore
barco no mar
montanhas no horizonte "

"bananeira 
moça no alpendre
laço de fita"

E esses foram pequenos instantes paratienses fotografados com palavras a partir do olhar de crianças e adultos que não se diriam poetas, mas deixaram Paraty ainda mais bonita neste sábado de manhã.

 

 

Na mesma biblioteca, algumas horas mais tarde, acompanhamos a discussão sobre o espaço da literatura no mundo e o espaço da literatura infantil nos eventos literários.

Denise Guilherme, coordenadora da curadoria de livros infantis A Taba, disse que o livro deveria estar em todo lugar, e destacou a falta de espaços de leitura ou iniciativas de formação de leitores nos eventos literários. Depois a conversa foi por outro lado: por que não tratar dos temas difíceis na literatura infantil? Por que esse tabu? Todos os presentes da mesa acreditam que o livro tem que ser um espaço de reflexão para todos os assuntos e, como disse Maria Amélia, criadora do Blog do Livrinho, o livro é justamente um espaço de segurança, já que você pode escolher o momento de lê-lo e falar sobre determinado tema com a criança. Denise também comentou sobre a tendência de se utilizar a literatura infantil como um instrumento de ensino, e não um objeto de prazer e fruição, e como esse olhar “utilitário” contribui com a ideia de que não se pode falar sobre temas difíceis com as crianças. Como lembrou Daisy, do blog A Cigarra e a Formiga, as crianças não veem o mundo com os mesmos olhos que os adultos, por isso não necessariamente um tema tabu é tabu para a criança. Como será que cada criança enxerga, por exemplo, o tema da morte?

Denise, depois, retomou o tema do espaço da literatura infantil nos eventos literários: ela acredita que a Flip e Flipinha, por exemplo, não deveriam ser dois eventos separados. A literatura infantil é literatura como qualquer outra – por que separá-la da programação principal?

Belita Cermelli, idealizadora do programa educativo da Flip, contou que já há alguns anos tenta montar uma programação intergeracional e que o desconforto com a distinção entre “Flipinha” e “Flip” existe há muito tempo e que até por isso hoje em dia o programa “para crianças” se chama educativo, para que contemple crianças, jovens e adultos.

Ela falou também sobre como é difícil encontrar soluções para essa questão, mas que o desafio está sendo enfrentado a cada ano. E de fato podemos ver que a cada nova edição da Flipinha, ou do programa educativo, as conversas, intervenções, leituras se renovam.

Nossa última experiência do dia foi uma homenagem à Angela-Lago que aconteceu na Central Flipinha com a contadora de histórias Penélope Martins e a editora Mell Brites (que também escreve esse texto). Elas celebraram a autora contando um pouco da história de sua vida, suas particularidades e sobre os motivos pelos quais ela era uma autora e ilustradora tão encantadora: sua originalidade, sua curiosidade em relação ao mundo, o modo como ela pensava o livro, seus experimentalismos com a linguagem digital etc. Penélope fez jus a tudo isso com a contação dos contos Caio?, Encurtando o caminho e De morte, deixando adultos e crianças atentos e curiosos em relação a essa autora.

E, para fechar o dia de hoje, nada melhor que uma frase da própria Angela-Lago: “Sonho que uma criança encontre, na minha leitura do mundo, a sua própria leitura. Que uma criança descubra os seus próprios caminhos nos meus descaminhos e reinvente meu conto, na medida das suas próprias fantasias”.

 

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