O que é literatura hipermidiática?

 

Enquanto os livros de papel experimentam toda a riqueza da materialidade do livro físico, as experiências narrativas digitais trazem outras possibilidades interativas para gerações de leitores que já crescem imersos no universo das (novas) mídias. Mas como definir esses muitos experimentos digitais? Como o leitor trilha essas narrativas criadas em diálogo com diversas linguagens? Quais obras já lançadas apontam possibilidades criativas? Vale, sim, destrinchar essa batizada literatura hipermidiática, uma “convergência entre mídias, artes, gêneros, linguagens, textos e usuários no ciberespaço”, como melhor abordada a seguir.

De acordo com a publicação Literatura digital, eletrônica ou hipermidiática: tendências contemporâneas de leitura para crianças e adolescentes, feita por alunos do programa de Pós-Graduação em Letras da Universidade Federal da Paraíba, estamos vivendo desde o final do século XX um segundo movimento da literatura atual, marcado pela expansão de novos gêneros ou suportes de leitura.

Isso se observa na produção de tantos livros-brinquedo e histórias em meios audiovisuais e em hipermídias pensadas num público infantil. Estas últimas, por vezes também denominadas de “literatura digital” ou “literatura eletrônica”, contam com ajuda de plataformas digitais para narrar histórias cuja “textualidade” não se limitam aos sinais gráficos, mas também a outros signos, como a imagem e o som – o que exige dos pequenos e jovens leitores o domínio e o diálogo com suas diferentes linguagens para a compreensão total da história. Como diz o ensaio, que também foi publicado na FronteiraZ, revista do programa de Estudos Pós-Graduados em Literatura e Crítica Literária da PUC/SP, a literatura de hipermídia é uma nova maneira de “intervir sobre a palavra”.

 

Ilustração: Marcelo Tolentino

 

Como definir as obras hipermidiáticas?

Quais são então os elementos que fazem uma obra literária ser hipermidiática? A doutora em letras na área de Teoria da Literatura Ana Claudia Munari é citada no ensaio conceituando hipermídia como a “convergência entre mídias, artes, gêneros, linguagens, textos e usuários no ciberespaço”. Ela aponta que, em hipermídia, “a literatura perde suas bordas, embaralha-se com as outras artes e linguagens do meio”, apresentando-se geralmente de forma fragmentada. A especialista ainda salienta que o e-book, o livro eletrônico, não deve ser confundido com a literatura vinculada à internet, uma vez que sua única diferença dos livros impressos seria o folhear eletrônico de páginas em algum suporte digital.

Essa definição se completa com a do autor Edgar Roberto Kirchof, que mostra no mesmo texto o caráter híbrido dessa literatura que mescla “formas literárias com jogos eletrônicos, filmes, animações, arte digital, design gráfico, cultura visual eletrônica, recursos acústicos eletrônicos”. Desse modo, as obras dessa vertente são tão heterogêneas quanto as próprias mídias digitais, sujeitas a constantes transformações, sendo difícil estabelecer uma tipologia fixa para as mesmas.

A literatura de hipermídia é a vertente que explora e incorpora múltiplas linguagens à arte literária. E não à toa uma das maiores premiações literárias do Brasil, o Prêmio Jabuti, já agrega uma categoria dedicada a títulos dessa vertente, permitindo a inscrição daqueles que não contenham ISBN e ficha catalográfica, por considerar as especificidades dos livros digitais em seu suporte. Como diz a publicação do FronteiraZ: “Visualizamos um cenário que nos leva a considerar que a literatura contemporânea para crianças e adolescentes vive um momento promissor, com um leque bem variado de opções e ofertas de obras para seus leitores, sobretudo, porque apresenta qualidade estética e respeito ao público”.

 

O que é possível fazer com esse novo modelo?

A tecnologia na literatura traz possiblidades de leitura que misturam cores, sons, imagens, movimentos, formas, escritas, possibilidades de interagir, de escolher, de o leitor traçar seu próprio caminho. E essas vantagens não anulam os livros tradicionais e seus usos, mas sim os acompanham: “A leitura em livros impressos continua importante, mas ela traz consigo a tecnologia como uma companhia, com outras possibilidades e conexões”, destaca a professora Patrícia Matos de Freitas em seu trabalho Leituras e mídias: desafios e oportunidades.

No texto, aponta-se para a literatura de hipermídia como uma nova mídia que proporcionará prazeres diferentes, e não uma mídia substituta que oculte a anterior. Assim, não se trata de discutir qual é a maneira mais correta de se realizar a leitura ‒ impressa ou digital. E, sim, de ampliar as possibilidades de utilizar formas diferentes de incentivar a leitura – e uma delas é com o apoio da tecnologia. Ela ressalta a importância de o professor estar preparado para mudanças rápidas e das infinitas possibilidades que ainda irão surgir com a tecnologia em pouco tempo.

Para a autora, a escola deve acompanhar essas mudanças, sem fazer da tecnologia vilã dos espaços de sala de aula. Ao contrário, a tecnologia pode auxiliar e diversificar as muitas formas de ler o mundo. A pesquisadora realizou na Escola Estadual de Educação Básica Pedro Nunes de Oliveira, em Pantano Grande, no Rio Grande do Sul, leituras de obras hipermidiáticas. O Menino Maluquinho foi a primeira obra acessada no ambiente virtual: “As crianças adoraram e se identificaram com as aventuras do personagem. Algumas até brincaram de ler a história de trás para a frente, uma vez que há essa possibilidade”.

A experiência em leitura de livros impressos e digitais foi socializada pela turma em debates. Destacaram-se as seguintes falas: “No livro digital as figuras se mexem”; “No livro impresso é melhor, dá para virar as páginas rápidas, às vezes no computador demora”; “Gosto de pegar o livro na minha mão”; “Gostei dos sons e músicas das histórias no computador”. Complementando as atividades desenvolvidas, a turma visitou a Feira do Livro do município e elaborou dois livros, um impresso e o outro digital. “Foi uma experiência divertida e rica em aprendizados, uma forma de reforçar os objetivos da pesquisa de incentivo à leitura”, relata Freitas em seu estudo, que vale ser lido na íntegra.

 

Quais são os exemplos de obras hipermidiáticas?

Logo no fim da década de 1990, a inquieta autora mineira Angela Lago (1945-2017) já se interessou pelas novas mídias e experimentou seus recursos tanto como técnica de pintura, como suporte para suas histórias. Depois de usar a computação gráfica na ilustração de obras como A banguelinha, Muito capeta e João Felizardo, o rei dos negócios, no antigo site da autora, encontravam-se obras concebidas especialmente para a internet, como A interminável Chapeuzinho, com uma Chapeuzinho Vermelho cuja história é contada sem o uso do código verbal escrito. Na narrativa interativa, o leitor podia trilhar múltiplos caminhos e desfechos: se a Chapeuzinho segue o caminho indicado pela mãe ou vai pelo tortuoso, se a avó deixa o lobo entrar na casa dela ou não, se a menina pede ajuda aos caçadores ou não, multiplicando assim as possibilidades de sentido ao sugerir as diversas experiências amorosas da juventude, o processo de amadurecimento típico da adolescência, o aprendizado a partir dos próprios erros, tudo ao som de La Vie en rose, canção francesa de Édith Piaf, cantada pela Chapeuzinho na obra.

 

 

Também enaltecendo a liberdade de escolha do leitor, em Ciber & poemas, o autor Sérgio Capparelli, em colaboração com Ana Claudia Gruszynsky, propõe os chamados poemas visuais ou cibernéticos. O leitor pode iniciar sua experiência com dez peças poéticas. Chá, um dos poemas, transporta o leitor para um lugar de feitio dessa bebida, com os versos que compõem o ciberpoema brotando de dentro da xícara ao completar todas as atividades interativas e infundir som, palavra e imagem, assim como fazemos numa xícara de chá.

 

 

Outra obra é A trilha (editora Peirópolis), que reproduz graficamente as sensações despertadas pelo texto literário, trazendo na memória ambientes e experiências prévias do leitor mirim. Escrito e ilustrado por Roberta Asse, A trilha é um aplicativo para tablets (Apple e Android) indicado para pré-leitores e crianças em idade de alfabetização, lançado na Bienal do Livro de São Paulo em 2014, ano em que foi finalista do Prêmio Jabuti na categoria Livro Digital Infantil. Nele, o personagem Martim guia a criança para um passeio pelo mundo, convidando o leitor a pedalar para subir uma ladeira bem alta, equilibrar-se no campo de areia seco ou passar no farol de cidades imaginárias enquanto ouve um rock.

 

 

Já o artista mineiro Álvaro Andrade Garcia cria em Poemas de brinquedo um livro audiovisual e interativo, disponível não só em formato de aplicativo, mas também na versão impressa, em forma de cartas para manusear e brincar. Aliando a palavra escrita à palavra entoada, as imagens poéticas às imagens cinematográficas, ele cria o que Ricardo Aleixo, poeta que vocaliza os textos no app, chama de poesia expandida: textos lúdicos que receberam camadas de criação gráfica, animação e vocalização, numa leitura que também inclui corpo e voz em performance e videoinstalação interativa, com sons para cantar, palavras com erros a serem corrigidos e desenhos malucos, ainda sem significado, para você batizar.

 

 

Outra criação brasileira é a obra O menino e o foguete, do escritor Marcelo Rubens Paiva, com ilustrações de Alexandre Rampazo, disponível por meio da página na rede social Facebook. A trama conta a história de um menino que imagina uma viagem ao espaço, visitando planetas e constelações, quando uma lanterna em formato de foguete é instalada em seu quarto por seu avô, usando dos sons e dos elementos visuais que ganham vida com pequenos detalhes animados, ainda mais interessantes na alta definição comum aos dispositivos móveis. Feito para aparelhos celulares, além da via impressa e do computador, a obra faz parte do programa Itaú Criança, da Fundação Itaú Social, que busca usar a tecnologia como uma forma ainda mais democrática de disseminação e acesso à leitura.

 

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