O poeta que não queria saber de regras

 

Shel Silverstein (1930-1999) gostava de romper limites. Suas obras, que propõem a quebra de regras às crianças, até hoje são motivo de discordância entre professores americanos. Até se tornar o famoso escritor, poeta, compositor e músico hoje reconhecido em todo o mundo por obras como A árvore generosa e Uma girafa e tanto, ambas publicadas no Brasil pela Companhia das Letrinhas, o caminho foi longo e cheio de obstáculos. Vale conhecer seus rastros.

 

 

Para começar, nem sonhava em brincar com palavras. Seu sonho era jogar baseball. Logo se frustraria com a falta de talento para o esporte. Nascido em Chicago em 1930, só viria a publicar seus primeiros escritos na juventude dos anos 50, quando serviu ao exército americano na Coreia e escreveu relatos no jornal militar Pacific and Stripes. De imediato, seus textos chamaram a atenção de uma revista famosa, a Playboy.

De volta aos Estados Unidos, colaborou para a publicação por seis anos, tempo suficiente para cravar uma de suas marcas, seu forte senso de humor. Seu principal cartum era de um prisioneiro acorrentado pelos punhos e pelos tornozelos. Visivelmente sem saída, o personagem era exemplo de otimismo com a então famosa frase: "Psssst! Tenho um plano!". Foi amplamente usado em testes psicológicos, como revelou Shel anos depois em entrevista ao The Realist. "Você faz algo, deixa-o simples, e todo mundo começa a carregá-lo com significados profundos."

Mas logo migrou para os romances. Sua estreia veio em 1961, com Uncle Shelby ABZ Book. Dois anos depois, nascia sua primeira publicação infantil: Leocádio, o leão que mandava bala. Para as crianças, também escreveu Uma girafa e tanto, Quem quer ser este rinoceronte?, Fuga do Garabuja, A parte que falta e A parte que falta encontra o Grande O, além de, claro, A árvore generosa – todos traduzidos para dezenas de países.

Sua obra voltada para o público infantil é extensa. Ainda conta com livros como A light in the attic, Runny Babbit, Runny Babbit Returns, Everything on it, Falling up e Where the sidewalk ends, estes sem tradução para o português. Pela crítica, é comparado a autores como Dr. Seuss, de Como o Grinch roubou o Natal e O Lórax, e Maurice Sendak, de Como vivem os monstros, principalmente pela irreverência marcada na literatura infantil que contrapõe as regras impostas às crianças.

Tanto que encontrou dificuldades em publicar o que hoje é a sua obra mais conhecida, A árvore generosa. Em 1964, levou o original de editora em editora, e ouvia que o livro era triste demais para as crianças e simples demais para os adultos. A história estava perdida em uma não categoria difícil a qual o mercado editorial parecia não estar pronto.

 

 

A única a aceitar um desafio como esse foi a editora Ursula Nordstrom, conhecida pelo lema "bons livros para crianças más". Ela manteve até o final triste da história, que se tornou um clássico da literatura infantil, com mais de 8,5 milhões de cópias vendidas. A história da árvore que se entrega por inteiro a um menino, até não lhe restar mais nada além do toco de seu tronco causou rebuliço. Foi aclamada por cristãos, que entenderam tudo como uma parábola ao altruísmo, e criticada por feministas, que enxergaram como uma "fantasia patriarcal em roupagem de moralidade". No Brasil, chegou pela Cosac Naify, sendo republicada pela Companhia das Letrinhas. Conta com a tradução especial de Fernando Sabino.

Shel Silverstein passou a vida derrubando as invisíveis barreiras entre as artes. Partindo dos romances, logo decidiu experimentar a poesia. Com humor negro e certa irreverência, seus livros de poesia mais famosos são Where the sidewalk ends (1974) e Light in the attic (1981), ambos best-sellers.

Da poesia migrou para a música. Suas canções, geralmente no melhor estilo country, levaram-lhe a ser nomeado ao Oscar e a ganhar dois Grammys - em 1969, por A boy named Sue, e em 1984, por Where the sidewalk ends. Também foi nomeado para o prêmio em 1986, pelo álbum A light in the attic. Escreveu para diversos artistas, como Dr. Hook & The Medicine Show (The Cover of the Rolling Stone), Irish Rovers (Unicorn Song), Emmylou Harris (Queen of the Silver Dollar), e o famoso Johnny Cash, com quem também chegou a cantar A Boy Named Sue.

 

 

No universo do teatro e do cinema, fez um grande amigo, David Mamet, com quem escreveu seus mais famoso roteiro, o filme Things change (As coisas mudam), de 1988. A relação próxima entre os dois colegas foi revelada pelo próprio Mamet logo após a morte de Silverstein, vítima de um ataque cardíaco em 1999. Em um texto na revista The Paris Review, lembrou que o poeta viveu em diversas casas. De tempos em tempos, simplesmente sentia que era hora de mudar.

Também recorda o dia em que se conheceram, em um restaurante em Chicago. Naquela mesma noite, fecharam o estabelecimento juntos, e passaram a noite caminhando e conversando sobre Rudyard Kipling. "Ele era um autodidata de uma pureza primitiva. Sua extensa leitura, conhecimento e interesses eram guiados somente pelo seu desejo de saber tudo", declarou o amigo, melancólico.

 

 

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