O livro (i)legível de Bruno Munari

 

Hoje há uma infinidade de livros infantis para manusear, brincar e se divertir desde a primeira infância. E muito disso se deve ao pensamento do designer italiano Bruno Munari (1907-1998), forte inspiração para muitos dos criadores de livros-álbum ou livros digitais contemporâneos. Foi pensando nas crianças que ele produziu suas obras mais criativas e revolucionárias além texto. Agora, na exposição Bruno Munari: a mudança é a única constante no universo, até o dia 10 de novembro no Museu da Casa Brasileira (MCB), em São Paulo, é possível conhecer mais de cem trabalhos desse artista tão inspirador.

 

 

A mostra é organizada pelo Istituto Italiano di Cultura em parceria com o MCB, instituição da Secretaria de Cultura e Economia Criativa do Estado de São Paulo. Para a mostra, foram selecionadas edições raras de livros de arte, que revelam a atuação de Munari no campo do design editorial, além de uma série de livros infantis com a qual ganhou o Prêmio Hans Christian Andersen, em 1947. Também estão expostas as experimentações que Munari fez com a utilização de luz em superfícies diversas, em esculturas como Côncavo Convexo, obra de grande destaque na trajetória do artista, além de duas de suas peças mais conhecidas: A cadeira para visitas breves e Habitáculo, uma cama multifuncional para crianças – projeto vencedor do italiano Prêmio Compasso d’Oro em 1979.

 

 

Munari foi uma das figuras mais multifacetadas da arte e do design do século XX: foi designer gráfico, artista e pedagogo, e durante seu percurso profissional esteve em constante diálogo com diferentes formas e correntes artísticas. Colaborou intensamente com a produção gráfica e editorial ao revolucionar a linguagem do livro: sua ideia é considerar a potencialidade de elementos, como o tipo de papel e de tinta, encadernação, caracteres gráficos, entre outros, pensando o livro para além de ser apenas suporte do texto, encarando-o como objeto capaz de comunicação e a experimentação como caminho para conhecer as possibilidades de comunicação dos materiais que o compõem. Assim, nasce o termo “livro ilegível”, que o autor usa para definir seus projetos de livros que utilizam apenas da visualidade dos recursos gráficos, sem utilizar nenhum texto.

 

Com a compreensão do potencial do livro como objeto, Munari criou os “pré-livros”, pensando em trazer o prazer da experiência com os livros nos primeiros estágios da infância. A ideia era proporcionar à criança um contato agradável, lúdico, experimental, sensorial, em livros pequenos (que possam ser facilmente manipulados pelas mãos pequenas de uma criança) dos mais diferentes materiais e encadernações, com mensagens postas de maneira simétrica (assim, seja por qual lado fosse iniciada a leitura, o conteúdo não perderia sua lógica) e sem histórias finalizadas, pois sua intenção não era condicionar os pequenos leitores mas sim estimular sua criatividade, colocando os livros para conviverem com brinquedos. Dessa forma, as obras seriam associações prazerosas e cotidianas, favorecendo a aproximação o livro ao desenvolvimento infantil, antes do início da vida escolar.

 

 

Foto: Leo Eloy

 

Em obras como Das coisas nascem coisas, em que Munari escreveu sobre os conceitos de livro ilegível e pré-livro, o autor defende que o interesse pelo livro e pela leitura começa na primeira infância. Portanto, segundo o artista, se a criança é exposta a livros que geram apenas aborrecimentos, as chances dela se transformar em um adulto que não gosta de ler são grandes. Com isso, seu projeto compreende que o saber não deve ser autoritário, e o livro não deve intimidar o jovem leitor, muito menos virar uma obrigação chata em sala de aula. O método Munari, voltado à educação para a arte, é aplicado hoje no mundo todo.

 

Como parte da programação paralela à mostra, o Museu da Casa Brasileira promoverá uma série de oficinas organizadas pelo seu programa educativo, voltadas aos diferentes campos de atuação do artista. As atividades ganham um olhar mais focado na infância entre os dias 12 e 19 de outubro, data em que será lançado o livro A fantasia, o design e a literatura para a infância, de Michaella Pivetti (editora Limiar), no qual a autora falará sobre a fantasia na literatura infantil num bate-papo com o ilustrador Odilon Moraes e a professora Clice de Toledo Sanjar Mazzilli, docente de projetos na FAU-USP.

 

 

Foto: Leo Eloy

 

 

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Bruno Munari: A mudança é a única constante no universo

 

Onde: Museu da Casa Brasileira (av. Faria Lima, 2705 – Jd. Paulistano)

Quando: de terça a domingo, até 10 de novembro, das 10h às 18h

Quanto: R$ 15 (inteira), R$ 7 (meia); gratuito aos finais de semana e feriados

Classificação etária: livre

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