O lamento noturno das mães pelo mundo

 

“Um povo sem memória é um povo mais pobre, que não conhece o seu passado, contado em boa parte pela arte e pela cultura”, diz a linguista Cristina Fargetti ao contextualizar seu trabalho de oito anos de pesquisa e documentação das cantigas de ninar do povo Juruna, também conhecido como Yudjá (como o grupo se identifica), uma etnia tupi que habita o Parque Indígena do Xingu, no Estado do Mato Grosso.

Exímios canoeiros, os Juruna são os “donos do rio”. É um povo que bravamente preserva a língua materna e mantém sua forte tradição oral, sendo que os mitos são ainda contados pelos anciãos da aldeia. Foram os Juruna que, quase foram extintos nos anos 1960, pediram à linguista que fosse feito o registro de seu cancioneiro para preservar parte da memória do grupo. O projeto virou livro: Fala de bicho, fala de gente (edições Sesc).

 

Ilustração Marcelo Tolentino

 

O trabalho de estudar essa manifestação cultural é difícil não apenas entre os Juruna, mas no Brasil inteiro. É que quase não temos por aqui os cancioneiros, coletâneas de canções populares que os portugueses, por exemplo, mantiveram. “São 49 as cantigas do povo Juruna. É pouco em comparação a países que se preocuparam em fazer cancioneiros, como Portugal. Eles acham que não guardaram tudo, que perderam muitas dessas cantigas. Imagina o Brasil, onde praticamente não existem cancioneiros. As pessoas conhecem bem pouco as cantigas tradicionais.”

Esses livros, que são verdadeiros registros das cantigas tradicionais europeias (em especial galego-portuguesas) nos ajudam a estudar e entender o que são as cantigas de ninar, gênero difundido em inúmeras culturas. O que as canções têm em comum são o seu ritmo calmo, até mesmo triste, para embalar o sono das crianças. Os temas, no entanto, são variados. Em geral, revelam características sobre a condição da mulher nas diversas sociedades em que foram criados, já que são canções especialmente cantadas pelas mães.

Amor materno, religião, fome, pobreza e até adultério são temas recorrentes, este último remontando à tradição medieval da mulher mal maridada, ou seja, mal casada, que era obrigada a se casar e não era feliz. Essa infelicidade aparece nas cantigas em forma de lamento, o que não atrapalha o sono da criança – segundo a pesquisadora, o que as embala o sono não é a letra a canção, mas a melodia da música, sempre calma.

Outro tema bastante comum em canções de ninar são os seres malévolos, criaturas que buscariam as almas das crianças enquanto elas permanecem adormecidas. O povo Juruna, por exemplo, não canta esse tipo de cantiga durante a noite, nos conta a pesquisadora. Para a etnia, o espírito levaria a alma da criança embora, e essa alma teria dificuldade para voltar para casa. Sem alma, o corpo adoeceria e poderia vir a falecer. Durante o dia, com luz, a alma acharia mais facilmente o seu caminho de volta.

Entre os europeus, esses bichos malévolos também estão presentes. Quem nunca ouviu “Nana neném / que a Cuca vem pegar”? Ser mitológico, a Cuca tem linhagem portuguesa, é a “coca” – ou do espanhol “coco”, o fruto que seria usado pelos gregos como máscaras para assustar as crianças. Outro monstro nosso de raízes europeias é o bicho-papão, que, segundo o pesquisador José L. Vasconcellos, verdadeiramente “papa”, ou seja, come a alma de quem adormece.

De Angola, herdamos o Tutu-Marambá, provavelmente das amas de leite que embalavam o sono dos filhos dos senhores:

“Tutu-Marambá

Não venhas mais cá

Que o pai do menino

Te manda matá

Dorme engraçadinho

Queridinho da mamãe

Que ele é bonitinho

É filhinho da mamãe”

 

Algumas cantigas, inclusive, traziam referências iorubá e mencionavam a ausência dos pais:

“Su, su, su

Menino mandu

Quem te pariu

Que te dê caruru”

 

** Su = dorme (em iorubá)

Mandu = tolo

Caruru = iguaria feita à base de quiabo

(exemplos do livro Fala de bicho, fala de gente, de Cristina Fargetti)

As cantigas assustadoras, no entanto, receberam alguns filtros na contemporaneidade. É o caso do site Lullabies of the world, que reúne cantigas de ninar de todo o mundo, incluindo letras, partituras e áudios cantados por profissionais. Apesar da iniciativa importante, não há nenhuma cantiga com um ser malévolo, como explica a pesquisadora. “Acaba reproduzindo o estereótipo de que as cantigas de ninar são calminhas, que têm um conteúdo infantil, e a gente sabe que não é assim. Existem as cantigas calminhas, com letras bonitinhas, mas também tem o bicho-papão, o coco, o boi da cara preta...”, finaliza a autora.

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