“O ilustrador é um escritor de imagens”

 

Odilon Moraes é um compositor de imagens, verbais e não verbais, que ora se revelam, ora se escondem, por vezes produzindo silêncios. “No mundo da ilustração, muitos acham que o ilustrador é artista plástico. Eu discordo. O ilustrador é um escritor. Só que o seu instrumento de escrever é o desenho. O ilustrador é um escritor de imagens”, conta o autor de A princesinha medrosa (editora Jujuba) e Pedro e Lua (Cosac Naify).

É mestre do livro ilustrado, um gênero literário que envolve o texto escrito, as ilustrações e o design do objeto, componentes com a mesma importância para o desenrolar da narrativa. Desde 2005, ministra cursos e palestras sobre o tema. Em janeiro, oferece n'A Casa Tombada, em São Paulo, a Oficina de criação de livro ilustrado - palavra e imagem. As aulas serão ministradas em parceria com a escritora Carolina Moreyra, com quem criou o premiado Lá e Aqui (editora Pequena Zahar).

 

Fotos Nino Andres e Felipe Cohen

 

Para o autor, o livro ilustrado pode ser comparado a uma canção. Nesse sentido, usar um texto de livro ilustrado com outra ilustração que não a original é como usar a letra de Garota de Ipanema e encomendar a um músico uma nova melodia. Enquanto isso, no livro com ilustrações, a situação é diferente. "Quando o Caetano Veloso toca Dorival Caymmi, ele é autor da interpretação que faz do Dorival. Ele não é autor da música. Na ilustração, o mesmo. Quando alguém é convidado a ilustrar a Chapeuzinho Vermelho, torna-se autor da interpretação que faz de Perrault.”

 

 

A relação que temos com as imagens no mundo contemporâneo é também problematizada pelo autor. Em tempos em que somos bombardeados por imagens, na internet, em outdoors, na TV ou no cinema, nossos sentidos tornam-se cada vez mais superficiais. Perdemos a capacidade de lê-las e analisá-las com profundidade. Tanto que, em seu último livro pela Companhia das Letrinhas, Direitos do pequeno leitor, defende um direito fundamental da criança: o de se demorar nas imagens, ato muitas vezes menosprezado por nós, adultos.

Confira abaixo entrevista com o autor, ilustrador de livros como Nas águas do Rio Negro (Drauzio Varella), Mônica é daltônica? (Mauricio de Sousa) e Histórias à brasileira (Ana Maria Machado).

 

Ilustração de Odilon Moraes para a obra A Mônica é daltônica?

 

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Nos fale um pouco sobre o livro ilustrado, esse gênero em que texto e ilustração são um complemento, não?

Odilon Moraes – Na verdade não são nem um complemento, mas uma coisa só. Nesse sentido, um texto de livro ilustrado é muito mais próximo de um roteiro de cinema do que de um texto literário no seu sentido mais tradicional. Um escritor de livro ilustrado tem que saber que aquilo que ele está escrevendo é apenas um ingrediente da obra, não corresponde ao todo. O autor do texto não é necessariamente o autor do livro. A autoria da obra é muitas vezes dividida em três – o designer, o ilustrador e o escritor. Já no livro tradicional, você pode até entender que há o autor, e o ilustrador é o autor da interpretação, como na música. Quando o Caetano Veloso toca Dorival Caymmi, ele é autor da interpretação que ele faz do Dorival. Ele não é autor da música. Na ilustração, um ilustrador que vai ilustrar a Chapeuzinho Vermelho é o autor da interpretação que ele faz do Perrault.

 

E como fica o trabalho do ilustrador para esse tipo de obra?

Odilon Moraes – É uma das brigas que eu tenho quando eu vou assinar um contrato de livro ilustrado. Quando é contrato de ilustração que não é um livro ilustrado, eu acho perfeitamente normal falar que eu estou ganhando pelas ilustrações para um livro. Mas, quando eu assino um contrato de livro ilustrado, gosto de discutir isso. Eu não estou ilustrando a obra, estou ilustrando o texto, que vai compor a obra. Poderia entrar até em questões mais complexas. Um autor de livro tradicional que tenha a sua obra ilustrada, quando muda de editora, não precisa levar aquele ilustrador junto. A nova editora pode até achar mais legal dar para um outro ilustrador, para ver como que ele vai interpretar aquilo. Já quando é um livro ilustrado, deveria constar no contrato a impossibilidade de você mudar de editora. Imagina na música: se você pega Garota de Ipanema, vai mudar de gravadora, e a gravadora quer comprar só a melodia do Tom Jobim, decide contratar outra pessoa para escrever a letra. Isso não existe. Quando o casamento foi feito, a obra é o casamento. Então, quando você muda de uma editora para outra, você teria que mudar os dois. Mas isso é uma discussão longa, que ainda não está resolvida. É uma das coisas pelas quais eu brigo ultimamente.

 

E como é essa relação do livro ilustrado com o universo infantil?

Odilon Moraes – Não sou especialista em criança e defendo que o livro ilustrado é um gênero que independe de seu público. É um modo de escrever, uma linguagem. Mas foi inventado para crianças, e ganhou características devido a isso. O fato de as imagens ocuparem mais espaço que as palavras é uma característica que surgiu porque era um objeto que no início se chamava toy book (nada a ver com o livro-brinquedo de hoje). Era um livro, só que diferente de outros que você tinha, que eram livros para os adultos lerem para as crianças. Quando o toy book  surge no século XIX, é pensado como algo a ser manuseado por uma criança, então tem que despertar interesse. Esse pessoal do século XIX pensa logo em atrair pela imagem, que seria a primeira coisa em que a criança repara. Esse livro tem uma liberdade formal fantástica, já que um leitor convencional já sabe como funciona um livro de adulto. Quando você cria um objeto para criança que ainda não é leitora, há uma liberdade de conduzir a experiência do livro do jeito que você propuser. O livro pode abrir para um lado ou para o outro, o texto pode ser no sentido oposto, a página pode não significar tempo. Por exemplo, em Vizinho, vizinha, de Roger Mello, Graça Lima e Mariana Massarani, a página da direita é um apartamento, e a da esquerda, outro. A sequência é espacial, e não temporal. Por isso o livro ilustrado fascina tanto, porque ele tem essa liberdade da palavra, da imagem e do objeto. Se tem alguma coisa que eu entendo de criança, é no sentido de que ela é um ser no início de experimentação. Até o Manoel de Barros fala que o poeta e a criança trabalham na semente da palavra. Eu acrescentaria que não é apenas na semente da palavra, é na semente das coisas todas. O que o livro ilustrado tem de mais rico é esse universo infantil. Inclusive, a palavra "infante" significa "a pessoa que não fala". Se para alguns esse universo é frágil, da ignorância, para outros é o contrário – o universo da potência poética. Esse não saber você não encontra apenas na literatura infantil. Está presente em Guimarães Rosa, quando defende a fala da pessoa iletrada como mais poética. Ele está falando da experiência inaugural da palavra, o mesmo que defende Manoel de Barros, e que eu acrescento, a experiência inaugural da imagem e do objeto também.

 

Em um mundo conectado, como você vê a nossa relação com as imagens?

Odilon Moraes – Muita gente fala que vivemos no mundo das imagens. Acho essa afirmação meio falsa porque isso não quer dizer que nos deparemos e nos aprofundemos nelas. Vivemos no mundo das imagens superficiais. Andy Warhol falou disso: as imagens não têm mais nada por trás, são só casca. São até bonitas como imagem, podemos ter uma relação estética com aquilo, mas uma imagem da Santa Ceia na Idade Média não era só a imagem da Santa Ceia, era muito mais que isso. Era religiosidade, fé, a sua pequenez humana frente ao sagrado. Isso se perdeu completamente. É paradoxal: não sabemos mais olhar as imagens. De certa maneira, as dessacralizamos de tal forma que tiramos todo o significado delas, como se fossem uma tatuagem, apenas a parte epidérmica, sem nada por trás. Na mitologia grega, há o mito de que não se podia ver diretamente os deuses, o deus. Se os visse, era fulminado por aquilo. Uma das paixões de Zeus pediu que ele se revelasse na frente dela. Na hora que ele se revelou, ela foi fulminada, porque ela não tinha condições de estar frente a uma imagem. De certa maneira, a proximidade nos cegou para a imagem. Perdemos a capacidade de entrar nas imagens, de perceber a sua sutileza.

 

E como as imagens surgiram na sua vida?

Odilon Moraes – Meu pai sempre foi de pintar muito e falar pouco. A minha maneira de me relacionar com ele se dava pela pintura. Com seis anos, eu já tinha o meu próprio cavalete. Nós saíamos, ficávamos a tarde toda pintando, sem conversar. Quando voltávamos para casa, ele pregava nossos dois quadros na parede, lado a lado. Até brinco que as pinturas ficavam conversando a noite toda. Foi assim que aprendi a pintar a óleo, atividade que mantive a vida toda, mesmo não tendo me tornado pintor, mas ilustrador. Mais tarde descobri que a ilustração é uma forma de escrever graficamente. Embora seja imagem, ela diz. Até digo que a vida toda eu achava que pintava com o meu pai, mas, na verdade, estava conversando com ele, estava ilustrando. A imagem não foi uma maneira de aprender a pintar, mas de aprender a conversar. Anos depois, virei ilustrador e entendi que o germe da ilustração (usar a imagem no lugar da palavra) sempre foi uma coisa exercitada entre mim e o meu pai.

 

E isso tem a ver com os silêncios na sua obra?

Odilon Moraes – Totalmente. Nos meus livros, há dois tipos de silêncio. O primeiro é o da própria palavra escrita que, conforme diz, também esconde. O outro silêncio tem uma ligação mais forte com a imagem. Toda escrita sugere a você um som ligado à palavra. A escrita da imagem não provoca essa necessidade de ser transformada em som para ser entendida. Nasce do silêncio e permanece em silêncio, mesmo depois que o leitor a compreende como escrita.

 

Que efeito o silêncio pode ter na imagem que não tem na palavra escrita?

Odilon Moraes – É a velha história do cachimbo de Magritte, um cachimbo desenhado com os dizeres "isso não é um cachimbo". O cachimbo desenhado, essa junção de linhas, cores e planos, é o mesmo que os sons na palavra escrita. O sons de "vaca" vão te levar à imagem de uma vaca. É tão parecido que a escrita e o desenho nascem juntos. Nesse sentido, a ilustração é a imagem mais próxima que existe da escrita. No mundo da ilustração, muitos acham que o ilustrador é artista plástico. Eu discordo. O ilustrador é um escritor. Só que o seu instrumento de escrever é o desenho. O ilustrador é um escritor de imagens.

 

Anote na agenda

Oficina de criação de livro ilustrado – palavra e imagem

Onde: A Casa Tombada (r. Ministro Godói, 109, Barra Funda, São Paulo)

Quando: de 15 a 19/1, das 9h30 às 17h

Quanto: R$ 900

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