O homem que criou Shrek

 

Antes de escrever o livro Shrek!, história infantil de amor entre dois ogros que mais tarde inspiraria o filme mundialmente conhecido, William Steig (1907-2003) já era um renomado ilustrador. A autor de Amos e Boris, história de amizade entre um rato e uma baleia que é lançado pela Companhia das Letrinhas em junho, somou um total de 121 capas e mais de 1.600 ilustrações para a revista americana The New Yorker.

 

Ilustração de Amos e Boris, de William Steig

 

Sua família tinha origem polonesa, judia e socialista. O pai era pintor de casas, a mãe, costureira, ambos imigrantes. “Não queriam que seus filhos se tornassem funcionários, porque seríamos explorados pelos empresários, e não queriam que nos tornássemos empresários, porque exploraríamos os funcionários. Já que não podíamos nos permitir estudar profissões, éramos encorajados a nos tornar artistas", contou certa vez Steig, cuja escolha por seguir o caminho das artes foi vista com naturalidade.

O autor teve uma passagem breve pelo mundo acadêmico– durou exatamente cinco dias, na Universidade de Yale. Também frequentou a National Academy de Design, onde a jornada foi razoavelmente maior – três anos. É que seus sonhos eram outros. Queria ser atleta ou ir ao mar, “como Melville”, autor de Moby Dick. Na época, seu foco estava na natação e no touch football, uma variação do futebol americano.

 

Ilustração de Silvester e a pedrinha mágica, de William Steig

 

A carreira na literatura infantil viria somente no final da década de 60, época ainda posterior aos “desenhos simbólicos” inspirados na obra de E. E. Cummings, com figuras cheias de inadequações – "aquele que gostaria de ser deixado sozinho" ou "o cara agradável, mas nunca um amigo". Essa fase da obra de Steig, apesar de apreciada até hoje por psicanalistas, nunca foi bem recebida pela New Yorker, que a considerava "pessoal demais e não engraçada o suficiente", como apontou seu editor à época, Harold Ross. Viraram, no entanto, livros como About People, (1939) The Lonely Ones (1942) e All Embarrassed (1944).

Foi apenas em 1967 que outro cartunista da The New Yorker, Bob Kraus, convidou Steig para escrever um livro infantil. A estreia do autor na área veio no ano seguinte, quando ele já tinha 61 anos, com a publicação de CDB!. No mesmo ano, também foi publicado Roland and the Minstrel Pig, história de um porco músico que sonha com fama e riqueza e toca e canta para entreter os outros animais. Steig utilizou muitos personagens animais em seu trabalho por acreditar que assim teria mais liberdade, um jeito de "fazer com que fizessem coisas mais estranhas".

 

Iustração de Dr. De Soto, de William Steig

 

Essa certeza seria derrubada após a publicação de Silvester e a pedrinha mágica em 1969, obra que causou problemas com a polícia, retratada na história como porcos. Considerado ofensivo, o livro chegou a ser banido em alguns lugares, o que colaborou para a sua venda, mas também levou a uma retratação do autor. Steig teve de declarar publicamente que não tinha uma intenção política e que via a figura do porco como um símbolo da humanidade: "Cercado de sujeira e perigo, vítima das circunstâncias criadas por ele mesmo, incapaz de fazer qualquer coisa sobre a sua condição, e talvez até gostando disso".

A carreira na literatura infantil ficou mundialmente reconhecida, com diversos prêmios recebidos nos Estados Unidos (entre eles, o Christopher Award, o Irma Simonton Black Awars, o William Allen White Children's Book Award e o American Book Award) e no exterior (como o italiano Premio di Letteratura per l'Infancia, o holandês Silver Pencil Award, e o francês Prix de la Fondacion de France). Também foi indicado para representar os Estados Unidos no Hans Christian Andersen, conhecido como o Nobel da literatura infantojuvenil: em 1982 (como ilustrador) e em 1988 (como escritor).

A obra do autor é repleta de dilemas éticos e filosóficos. Depois de Silvester e a pedrinha mágica, publicou Dominic, Abel's Island, The Real Thief, Dr. De Soto, Spinky Sulks e a continuação de CDB, chamada CDC?. De Maurice Sendak, autor do clássico Onde vivem os monstros, veio o elogio pelo "uso de uma linguagem louca e complicada que é charmosa, porque as crianças adoram o som das palavras". É que usava expressões como "lunatic", "sequestration", "rubescent" e "cloaca".

Seu último livro foi When Everybody Wore a Hat, de 2003, sobre a sua infância. Chegou a dizer: "Acho que me sinto um pouco diferente das outras pessoas. Por algum motivo, eu nunca me senti adulto". Com livros que respeitam a inteligência infantil, chegou a declarar que considera as crianças a melhor companhia. "Em uma reunião de família, quando mandam as crianças para a cama, é quando a festa termina para mim."

O famoso ogro que se apaixonou pela princesa Fiona veio ao mundo em 1990. Shrek, que é a palavra ídiche para “medo”, ficou conhecido como um anti-herói, cujas qualidades são justamente as suas imperfeições. Na história de amor entre dois ogros (muito mais feios que os desenhos do livro, segundo o próprio autor), Steig desafia a ideia de que o romance é destinado apenas aos jovens e belos, enaltecendo as falhas dos indivíduos.

Com a adaptação para o cinema, os personagens ganharam vozes de atores famosos, sendo o Burro interpretado por Eddie Murphy e a princesa Fiona, por Cameron Diaz, na versão em inglês. Produzido pelo estúdio de animação Dreamworks em 2001, o longa tem um orçamento estimado em 60 milhões de dólares pelo IMDb. Para a família Steig, esses sinais não eram nada bons. "Todos nós viemos esperando odiar o filme, pensando 'O que Hollywood fez com isso?', mas nós amamos. Estávamos com medo que fosse ser muito fofo e, ao contrário, Bill pensou que eles fizeram um trabalho maravilhoso e espirituoso", declarou na época a esposa de William Steig (cujo apelido era Bill), Jeanne Steig.

 

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