O encantamento de Angela-Lago

 

“Angela-Lago nasceu em Belo Horizonte, em 1945. Com três anos, começou a desenhar e nunca mais parou. Rabiscava as paredes da casa, o piso do pátio, pois não havia papel que bastasse. Foi um alívio para todos quando o computador foi inventado e ela passou a usar a tela virtual, onde atualmente faz seus desenhos, seus livros e as animações do seu site.”

 

Autorretrato de Angela-Lago

 

Como escreveu a designer gráfico Helen Nakao, ninguém melhor do que a própria artista mineira para definir a alma “serelepe, inquieta e curiosa” de uma das mais importantes autoras da literatura infantil brasileira, que alçou seu último voo ontem, 22 de outubro, num domingo nublado. Foi também um domingo “com cigarras cantando”, segundo relato do jornalista e escritor mineiro Afonso Borges nas redes sociais. “Os antigos dizem que isso é anúncio de temporada de chuva muita. Mas o canto das cigarras chega com outro anúncio: Angela-Lago ficou encantada”, completou o curador do programa literário Sempre um papo.

Sorriso largo, fala mansa e olhar de belos horizontes, Angela-Lago estreou no universo dos livros para a infância nos anos 1980, com as obras O fio do riso e Sangue de barata. Antes, rodou o mundo – viveu nos Estados Unidos, na Venezuela e na Escócia – e trabalhou com publicidade e programação visual. Em sua trajetória, publicou mais de 30 livros de sua autoria em texto e imagem, além de dezenas de outras obras em que assina a ilustração. Foi premiada no Brasil e no exterior com títulos como Cena de rua (1994), Cântico dos cânticos (1992), Um ano novo danado de bom (1997), ABC doido (1999) e João Felizardo, o rei dos negócios (2007). Em 2004, foi pela terceira vez indicada ao Prêmio Hans Christian Andersen, o Nobel da literatura infantil, pelo conjunto da obra.

Pela Companhia das Letrinhas, publicou diversas obras de destaque – Sete histórias para sacudir o esqueleto (2002), Muito capeta (2004), A visita dos 10 monstrinhos (2009) e O caixão rastejante e outras assombrações de família (2015), entre outros livros que ilustrou. O que falar sobre esses e tantos outros livros de grande importância para a literatura infantil? Com seu jeito matuto, Angela-Lago desconversava: “Não cabe aos autores explicarem as suas obras. Acredito que deveríamos imitar as árvores, que oferecem seus frutos sem prefácios ou qualquer conversa”.

São muitos os relatos afetuosos de quem cruzou com Angela-Lago pela estrada. “Ao longo dos anos, tive o privilégio de trabalhar em nove projetos com ela. E a cada projeto ela trazia uma inquietação interna, um desejo de experimentar formas e linguagens diferentes. Ela era assim, inconformada com modelos, em busca de caminhos inusitados, nem sempre fáceis. Ela se expunha e se arriscava, com uma generosidade incrível para sugestões, mesmo que precisasse ressignificar um projeto quase pronto. Talvez seu trabalho nem sempre fosse compreendido de primeira, mas por trás dessa constante pesquisa estava uma paixão e uma preocupação incansável com o leitor”, diz Helen Nakao, há vinte anos na Companhia das Letras.

 

 

A veia inquieta de Angela-Lago é também destacada por especialistas que mergulharam em sua vasta obra. “Além de aventurar-se na mídia impressa, tem se aventurado em outras mídias para crianças. Não gosta de se repetir no que faz. Está sempre buscando o melhor domínio para as técnicas que escolheu utilizar em cada livro. Percebe-se que, nas ilustrações, o traço vai de um apuro barroco a uma simplicidade apenas sugestiva. Os primeiros livros, mais rebuscados e detalhados, vão sendo simplificados, até gerarem uma imagem mais limpa, com menos adornos, resultando em uma essencialidade do traço (...)”, escreveu Celso Sisto em sua dissertação de mestrado, Vestígios da cultura popular em Angela Lago: conto recontado é segredo revelado, de 2004.

Neste ano, sua obra ganhou destaque na exposição Linhas de história: o livro ilustrado em sete autores, no Sesc Santo André, no Grande ABC. Ao lado de Eva Furnari, Renato Moriconi, Nelson Cruz, Roger Mello, Andrés Sandoval e o espanhol Javier Zabala, ela orbita num planeta próprio e singular, onde conhecemos os detalhes de desenhos que mais parecem bordados num jogo entre o revelado e o obscuro. “Na verdade, sonho que uma criança encontre, na minha leitura do mundo, a sua própria leitura. Que uma criança descubra os seus próprios caminhos nos meus descaminhos e reinvente meu conto, na medida das suas próprias fantasias”, revelou a autora, em outro momento.

 

 

Com a partida repentina da escritora, foram muitas as manifestações e homenagens nas redes sociais, espaço em que a escritora navegava constantemente, dialogando com leitores e outros autores. Sempre propunha “mutirões de tradução” no Facebook. Como diz o escritor mineiro Leo Cunha, que a conheceu ainda rapaz, na livraria da mãe, a crítica literária Maria Antonieta Cunha, “sabia como poucos explorar o lado colaborativo da internet”. Mais recentemente, compartilhou em sua página seus pensamentos sobre velhice – andava “sonhando um lugarzinho para seguir envelhecendo gentilmente”.

“Minha primeira reação hoje ao saber da partida de Angela-Lago foi me aninhar com alguns de seus livros. E eles estão andando aqui dentro de casa”, contou a jornalista Cristiane Rogério, coordenadora d’A Casa Tombada, que também compartilhou entrevista que fez com a autora em 2009. “Um livro para crianças precisa ser verdadeiro. Ser verdadeiro. Verdadeiro com toda a fantasia que se quiser. Ser inteiro”, disse à época.

“Angela-Lago foi tão importante para mim no começo da minha carreira que escrevi um livro em homenagem a ela, O anjo do lago, publicado pela Editora Biruta (fora de catálogo). Pouca gente sabe disso. A notícia de sua partida é uma tristeza imensa para todos nós que fazemos a LIJ [literatura infantil e juvenil] no Brasil”, escreveu a escritora cearense Socorro Acioli.

Roger Mello, autor laureado com Prêmio Hans Christian Andersen, também falou de sua importância para a literatura infantil durante 12° Congresso do USBBY, seção americana do IBBY (International Board on Books for Young People). Angela-Lago “teve uma grande influência em todos nós, escritores e ilustradores, no Brasil, na América Latina e também no mundo”. Roger mostrou uma ilustração da obra Cena de rua, que retrata ficcionalmente o trabalho infantil nas ruas das cidades brasileiras. Ela nos “mostra como fazer poesia com imagens”, resumiu o autor.

Amistosa, ela dialogava com muitos autores. Janaina Tokitaka conta que sempre se admirava com o jeito como via as coisas do mundo. “Volta e meia eu ia tirar uma dúvida ou outra sobre literatura ou só puxar papo mesmo. Ela andava muito preocupada com o futuro, mas de um jeito mais propositivo do que desesperado. Disse: ‘Estou relendo hoje O Narrador, de Walter Benjamim, com muita surpresa. O texto é ainda melhor do que lembrava. Fui atrás dele porque lembrava da parte em que ele diz que o soldado volta para casa sem histórias e queria entender esse silêncio que chega com os momentos difíceis como os que estamos passando.’"

Na última conversa entre as duas amigas que compartilhavam "o gosto por música antiga, Emily Dickinson e o assombro pela natureza, além de um certo espírito de jacu", Angela deu, sem querer, “um alento pra esse momento difícil”. “Ela estava escrevendo um prefácio para um conto sobre a morte. Disse: ‘Envelhecer e morrer precisa de muito rito para dar conta. Sem saber o que penso. Não morremos, morre um individuozinho de nada… Nesta altura, a individuação já devia ser o coletivo, não?’”

 

 

A também mineira Marilda Castanha, em sua página no Facebook, lembrou uma frase que bem marca a obra de Angela-Lago: “A única constância que eu tenho é o passar das páginas”. Ao afirmar a importância da autora em sua história, relembra que a conheceu nos idos de 1985, 1986, em sua casa. “A sala era o estúdio e ela rascunhava O cântico dos cânticos. Naquela tarde, eu a elegi como minha mestra. Mestra que me ofereceu milho cozido enquanto mostrava o projeto que se lia de cabeça para baixo, de trás pra frente... Me deixou embasbacada! Cheguei na casa dos meus pais maravilhada e, nos seguintes 30 anos, Angela me surpreendeu várias vezes. Nos encontros, nos seus livros e nos conselhos (‘ilustre como artista plástica’, ‘não deixe de ter filhos’). Ontem Angela passou mais uma página!”, contou Marilda.

Denise Guilherme, educadora e idealizadora de A Taba, destaca que “foi uma das autoras mais revolucionárias do nosso tempo, sempre se reinventando e surpreendendo”. “Em seus livros, tratava de temas profundos, com irreverência e profundidade, sem subestimar a competência do leitor, independentemente de sua idade.”

Segundo Renata Penzani, na Flip do ano passado, durante a mesa ‘Caderno de segredos’, perguntaram a ela “Como a menina Angela olhava o mundo?”. “E sua resposta é mais uma prova de como ela conseguia dizer muito, quase tudo, com pouquíssimas palavras. “Não era permitido ficar à toa lá em casa. Então, eu me deitava na rede, abria um livro, e ficava horas lá com ele, fingindo que estava fazendo alguma coisa. Até que em algum momento eu cansei de ficar vagando e comecei a ler uma palavra, depois outra e outra... Foi assim que começou. O livro era o lugar onde valia a pena entrar”. E aquela frase ressoou: “O livro era o lugar onde valia a pena entrar”. A plateia aplaudiu como quem descobre um segredo universal.”

Nas asas do haicai (Aletria), de Sônia Barros, foi um dos últimos livros que ilustrou. Na obra que fala sobre o voo – do homem, da imaginação –, Angela nos faz alçar voos com suas imagens de traços infantis. “Artista brilhante: ilustradora, escritora, poeta, tradutora. Visionária, inquieta, sempre em busca de maneiras singulares de se expressar. E, acima de tudo, pessoa generosíssima. Em 2015, sem saber que era um sonho meu ter um livro ilustrado por ela, me convidou para uma parceria, e o nosso livro nasceu no ano passado. Foi a menina Angela quem fez os desenhos! Aquela que dizia: ‘Eu quero desenhar com a minha mão infantil’. Uma honra ter convivido com esse ser humano singular.”

Para o Blog da Letrinhas, ela escreveu sobre um episódio de sua infância na seção Retrato. O texto, “A mancha no vestido de organdi de Angela-Lago”, reforça sua ironia sofisticada e ímpar. “A minha mãe, a quem perdoo, perdoo, perdoo, teve seis pestes. Eu, a do meio, a tudo assisti e lhe dei razão sempre que possível. Até mesmo quando me mandou para um colégio de freiras. Ela, que não tinha fé nenhuma e muito menos religião”, revelou. Também sobre a infância mineira, vale ouvir o depoimento que deu sobre suas brincadeiras de menina serelepe para a jornalista Marlene Peret -- e deixar sua voz seguir ecoando fortemente em todos nós. 

 

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