O delírio imagético de Brás Cubas

Quando Marilda Castanha leu Memórias póstumas de Brás Cubas pela primeira vez, o encantamento foi imediato. Ao terminar a última palavra da última página do clássico de Machado de Assis, voltou ao começo e reiniciou a leitura. Um capítulo chamou a atenção da artista: O delírio, texto que mais tarde viria a ilustrar e transformar no livro de mesmo nome, publicado em 2010 pela Companhia das Letrinhas.

O que mais saltou aos olhos da autora foi a capacidade de Machado de Assis em criar cenas, ou mesmo quadros, a partir de palavras na história narrada por Brás Cubas, depois de sua morte. A saga de um defunto-autor, que dedica a obra ao “verme que primeiro roeu” o seu cadáver, traz no sétimo capítulo o estado febril do protagonista, de total delírio, como anuncia o próprio título. Doente em sua cama, ele vê criaturas de outro universo. Marilda destaca um trecho delirante em especial:

“Isto dizendo, arrebatou-me ao alto de uma montanha. Inclinei os olhos a uma das vertentes, e contemplei, durante um tempo largo, ao longe, através de um nevoeiro, uma coisa única. Imagina tu, leitor, uma redução dos séculos, e um desfilar de todos eles, as raças todas, todas as paixões, o tumulto dos Impérios, a guerra dos apetites e dos ódios, a destruição recíproca dos seres e das coisas. Tal era o espetáculo, acerbo e curioso espetáculo. A história do homem e da Terra tinha assim uma intensidade que lhe não podiam dar nem a imaginação nem a ciência, porque a ciência é mais lenta e a imaginação mais vaga, enquanto que o que eu ali via era a condensação viva de todos os tempos. Para descrevê-la seria preciso fixar o relâmpago". 

“É uma exposição viva do mundo!” A ilustradora ressalta a capacidade machadiana em apresentar ao leitor uma sucessão de imagens: guerras, conquistas, épocas e culturas diversas, fazendo até menções à história da arte. “Machado de Assis, neste trecho, não chega a explicitar o quadro x ou o pintor y. Nem precisa!” A artista mergulhou fundo na releitura das cenas e foi beber nas fontes de desenhos pré-históricos ou do quadro Os fuzilamentos de 3 de maio, do pintor espanhol Francisco de Goya.

Decifrar Machado não foi nada fácil (abaixo algumas imagens do caderno do processo criativo da autora). “Foi preciso ler o livro fazendo pausas, considerar o pensamento da época, divagar... Isso vivenciei ao ilustrá-lo. Tem que ler várias vezes, pensar de novo, descartar a primeira ideia, até achar a melhor solução. É também ilustrar as entrelinhas.”

A seguir, a ilustradora conta um pouco sobre o processo de desenvolvimento do livro O delírio, um bom jeito de introduzir o jovem leitor na obra de Machado de Assis e nas tintas de Marilda Castanha.

 

Pesquisa

Como inspirações para o seu trabalho, a ilustradora cita releituras de obras consagradas, como Os sete pecados capitais, de Bosch, Os fuzilamentos de 3 de maio, de Goya, e O casal Arnolfini, de Jan Van Eyck. Ela utilizou fotos de época para ambientar o vestuário, o mobiliário e os próprios personagens de uma das cenas iniciais, no quarto de Brás Cubas. Para isso, usou como referência o livro Coleção Princesa Isabel, fotografia do século XIX, de Pedro e Bia Correa do Lago (edições Capivara).

Cores

A proposta era representar um mundo onírico, dos sonhos, por meio das cores. “Tive que ser mais contida em termos de cores, porque eu ilustrava uma história ambientada no final do século XIX e considerava que a ambientação e as cores precisavam revelar uma certa ‘austeridade’, própria da época”, lembra. Os tons das ilustrações são, em maioria, sépias e azuis escuros (diferentemente do resultado do estudo abaixo, que não entrou no livro). Mesmo os detalhes em vermelho têm uma intensidade mais fria. E isso foi, claro, intencional, inclusive aconselhado pela Helen Nakao, responsável pelos projetos gráficos do selo. Ela dizia: “Marilda, evite os amarelos, as cores alegres, vibrantes”. No início, parecia impossível. “Adoro amarelos, tons terrosos, cores quentes. Mas depois vi que foi uma ótima advertência. E que precisava mesmo reduzir minha paleta de cores para conseguir o ‘clima’ do texto, da época e do livro”, conta.

Ferramentas

Para a execução das pinturas, a artista escolheu trabalhar com tinta acrílica e a técnica de “máscara de aquarela” (um líquido que impermeabiliza determinadas áreas). Assim, a pintura fica mais gráfica, com efeitos de desenho. "Usei também muita textura com a própria acrílica.”

Respingos

Intencionais, os respingos encontrados nas ilustrações foram feitos com escova de dente, assim como na imagem abaixo, que não entrou no livro. “Minha intenção era passar a ideia de algo imprevisível, inusitado e incontrolável”, diz a ilustradora, que também menciona o tom gestural e dramático impresso com esse recurso.

Metáforas

A artista via-se com um desafio à frente: representar um estado abstrato e irracional. Para isso, conta que lançou mão de metáforas visuais. Um exemplo é o momento em que Brás Cubas está diante de um hipopótamo, que quer levá-lo à “origem dos séculos”. “Se eu desenhasse o que está no texto – um hipopótamo diante de um homem –, corria o risco de apenas repetir uma informação que o leitor já tinha lido no texto. A solução que encontrei foi a de mesclar, no corpo do hipopótamo, o desenho de um labirinto. Aí posso instigar o leitor a pensar um pouco mais.” Ou ir à “origem dos séculos”, guiado por um bicho falante, não significa se perder (ou se achar) entre muitos atalhos da história?

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