O corpo da criança dança

Engatinhar, rastejar, ficar nos quatro apoios, andar. Desde os primeiros momentos de vida, a criança tem uma relação muito especial com o seu corpo, até mesmo depois dos primeiros passos, com os diferentes tipos de locomoção, como o saltitar ou o galopar. Por isso, a dança é para ela uma linguagem inata, que colabora para o seu desenvolvimento motor e, muitas vezes, a ensina sobre os seus próprios limites.

Assim explica a educadora Silvia Lopes, que, além de sua participação nos espetáculos de dança recorrentes pela Cia Meu Corpo Meu Brinquedo, pesquisa e trabalha com educação corporal desde 1997. Seu trabalho gira em torno do tripé das brincadeiras, das danças contemporâneas e também das populares. “A brincadeira já é a própria dança. A criança, quando está dançando ou brincando, está feliz e se sente acolhida”, diz a pesquisadora, que atua na formação de educadores pelo projeto Balaio, realizado em parceria com Luiza Gaia e Julia Santos.

Tal proposta é fundamental nas escolas, onde é mais comumente ensinado às crianças apenas a manutenção do controle e da disciplina do corpo. Há uma errônea separação entre mente e corpo, convocado a se manifestar só em raros momentos. “Infelizmente, são poucas as escolas e práticas educativas que reconhecem a importância de uma abordagem mais sensível e criativa do corpo e do movimento das crianças”, diz a pesquisadora. E isso porque o “corpo, em movimento, é visto como potencial problema, geralmente relacionado à desatenção e ao desprezo das questões cognitivas, ainda vistas como saberes mais legítimos”.

Em suas aulas voltadas às crianças da educação infantil, com idades entre um e seis anos, ela busca tratar a dança como um jogo, com histórias que possam ser vividas de forma lúdica, como a do Saci Pererê, a do Minotauro ou a da Aventura na Floresta. Dessas narrativas, surgem brincadeiras das mais diversas, como as de roda ou as de palmas. “E a brincadeira é o tempo inteiro, porque é brincando que a criança se reconhece como indivíduo.”

Na aula do Minotauro, por exemplo, o mito grego é contado às crianças, que depois passam por atividades inspiradas na ideia da caverna. Nesse momento, experimentam movimentos como os de agachar, escalar pedras, desviar de teias de aranhas, andar no escuro e passar por túneis. O desafio de Teseu com o Minotauro, ao final da aula, é relacionado à brincadeira de torear do brinquedo popular Bumba Meu Boi. 

Se o corpo infantil pode passar pelas aventuras vividas por Teseu, ele também adquire várias formas, de muitas maneiras. Um pião roda durante a aula, e a turma imita – com a barriga, o joelho, bumbum, de mão dada com o amigo. E não há limites para a imaginação: as crianças experimentam movimentos do mar, de bichos e com bolas, por exemplo. “Como eu trabalho sempre brincando, com um conteúdo que faz muito sentido para as crianças, sinto que é natural, porque isso tudo ainda está muito vivo no corpo delas.” 

A aula busca, o tempo todo, essa liberdade corporal. Para a educadora, é um momento de experimentar. Os limites do corpo são dados de acordo com o que a criança sente. Não é um problema cair, desde que seja de um jeito que não machuque.

Essa consciência também ajuda a criança a perceber a si mesma. Silvia conta que muitos pais levam seus filhos tímidos ou hiperativos às aulas. “Eu falo que não quero mudar nada em ninguém. Quero que o hiperativo ou o tímido aprenda a lidar com a timidez ou com a hiperatividade. Como ele vai aprender a lidar com isso? O corpo fala na hora. Se ele fizer uma cambalhota sem prestar atenção ou se fizer um pulo de giro, vai se machucar”, explica.

Apesar disso, ela defende que o principal benefício da educação corporal é a saúde emocional que é proporcionada ao aluno. Mesmo assim, é raro que as crianças tenham a oportunidade de vivenciar tudo isso em casa. A educadora conta que antigamente os pais brincavam mais com os filhos. Atualmente, as famílias defendem que se brinca na escola, e não em casa. “Os pais poderiam muito bem brincar, fazer uma brincadeira de estátua ou em que o corpo do pai seria um túnel para o filho passar”, sugere.

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