No reino do mimimi

Por Vinicius Campos

 

"Era uma vez um jovem que trabalhava na TV apresentando um programa infantil. Ao perceber que na caixa preta não teria tempo pra dizer tudo o que pensava, decidiu reavivar uma antiga paixão e escrever livros para seu público..." Foi assim que tudo começou, no ano de 2007, depois de fechar um contrato com um canal a cabo, para apresentar o programa Playhouse Disney. Desde então foram cinco livros, todos voltados para o público infantojuvenil.

Ainda não sei se escolhi as crianças ou se fui escolhido. O certo é que, quando menino, com nove ou dez anos, passava tardes e tardes na casa da minha vizinha brincando com seu filho de apenas um ano. Desde que me lembro fui um grande admirador dos pequenos e de suas fantasias, sua inocência e sua capacidade de amar aquilo que é diferente com a naturalidade que só tem aqueles que não foram contaminados.

Cada vez que me sento na frente de uma tela em branco, sei que o desafio é escrever um texto divertido, ágil, proporcionando às crianças uma experiência positiva. Não para que meus livros tenham sucesso e boas vendas, mas, sim, porque sendo de um país como o Brasil, onde a leitura é hábito de um pequeno grupo, cada livro é a chance de conquistar mais um leitor, de reforçar a nossa cultura e contribuir com a formação dos pequenos.

E pra mim não se trata apenas de oferecer um momento divertido. Texto infantil, além de gerar um universo de poesia, magia e fantasia, também pode trazer reflexões e conceitos que proporcionem um olhar mais abrangente sobre os assuntos que estão na pauta social.

Na hora de escrever um texto, não consigo ignorar a questão de gênero, a sexualidade, o racismo, o respeito às religiões e ao ateísmo, a inclusão de crianças portadoras de deficiência, os transtornos alimentares e tantos outros temas. Mesmo porque a possibilidade de lidar com esses assuntos com a delicadeza necessária para atingir cada idade é um desafio que me apaixona.

Mas será que o Brasil, onde muitas vezes questões de respeito à diversidade são consideradas "mimimi", está preparado para textos que tratem com naturalidade e respeito famílias homoafetivas ou personagens que não se reconhecem com seu gênero de nascimento? Será que estamos prontos para que os protagonistas de nossos livros sejam tão diversos como o mundo em que vivemos?

Minha experiência vem me mostrando que a equação é complexa. Pais e professores são o filtro entre o livro e a criança. Os adultos, em muitos casos, não estão dispostos a abordar assuntos mais profundos com a molecada e isso acaba distanciando textos sensíveis e significativos de um público carente de representatividade.

Mas sou um otimista. Eu, um autor brasileiro, filho de nordestino da classe média paulistana, gay, casado com um argentino, pai de três filhos pré-adolescentes que adotamos há alguns anos; na minha infância, nunca encontrei personagens que me representassem. Meus filhos algumas vezes têm a chance de encontrar nas páginas situações com as quais se identificam. Para meus netos certamente tudo será mais fácil.

Convido então pais e professores que aproximem das crianças textos que toquem essas questões. Conhecer e lidar com a diversidade nos prepara para nos relacionar com os outros e nos aceitar exatamente como somos. Quando fazemos parte de uma minoria (e eu entendo bem disso), saber que não estamos sozinhos é fundamental.

E nós, escritores e editores, podemos manter o olhar atento a textos potentes, com muita fantasia e poesia, que falem a todas as crianças e que sejam capazes de tocar os corações mais sensíveis.

Assim, com certeza, TODOS e TODAS seremos felizes para sempre.

 

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Vinicius Campos nasceu em São Paulo em 1980. Aos quinze anos começou a trabalhar na televisão, como ator e apresentador. Em 2003 se formou em jornalismo pela Universidade Anhembi Morumbi. O amor nos tempos do Blog é o seu primeiro livro.