Narradores de histórias, a "biblioteca do mundo"

 

"Ninguém se torna griô, nasce-se griô." Essa é a máxima de Sotigui Kouyaté, um dos mais conhecidos contadores de histórias africanos na Europa, graças às suas viagens ao lado do diretor de teatro e de cinema Peter Brook. Hoje, Dia Internacional do Contador de Histórias, as narrativas centenárias como a que Kouyaté desfia são ainda grande inspiração para a humanidade.

 

Ilustração Marcelo Tolentino

 

Os saberes de Kouyaté perpassam as gerações de sua família desde pelo menos o século XIII, quando surgiu a tradição dos griôs e das griotes (as mulheres que desempenhavam o mesmo papel e que, segundo Kouyaté, calavam os homens quando se faziam presentes). Eram pessoas treinadas desde pequenas para contar histórias tradicionais e a colaborar para a construção da memória e da identidade do Império Mandinga, que durante 150 anos ocupou territórios que hoje correspondem ao Mali, Senegal, Gâmbia, Libéria, Serra Leoa, Maurutânia, Benim e Burkina Fasso.

Mas o papel social dos griôs não se limitava à tarefa de contar histórias – o que nunca foi pouco. Suas habilidades incluíam ainda outras artes, com a música, a dança e o teatro. Eram figuras também encarregadas de organizar as cerimônias. "O griô é a memória do continente africano, da parte da África que eu mencionei [África Ocidental], é sua biblioteca e é, também, o guardião das tradições e dos costumes", explica Kouyaté no documentário Sotigui Kouyaté, um griot no Brasil.

Ele conta a história dos griôs pertencentes ao Império Mandinga, que espalharam-se pela região da África Ocidental por meio de diferentes povos, como Fulbe, Hausa, Songhai, Tukulóor, Wolof, Serer, Mossi, Sagomba e os árabes da Mauritânia, além de outros pequenos grupos. Sua existência, no entanto, só foi registrada pelos europeus no século XV, pelos portugueses, e no século XVII, pelos franceses e ingleses, quando ganharam essa denominação francesa, griô, que significa "criado".

Como reforçou Kouyaté, o ofício do griô não é escolhido, senão passado de geração em geração, no bojo de algumas famílias. Apenas crianças nascidas nesse entorno podem crescer e exercer essa função e, desde pequenas, elas têm suas infâncias preenchidas por histórias e ensinamentos que um dia vão transmitir aos seus filhos para preservar a cultura de seu povo. São lendas, mitos e tradições que são repassados, assim como a habilidade de tocar o kora e os tambores, além da prática das danças rituais.

Os griôs podem se especializar em três campos. Há aqueles que preferem focar suas habilidades no discurso (kuma), utilizando-se das narrativas históricas, das genealogias e dos provérbios. Há ainda os especializados no canto (donkili) ou na arte de tocar algum instrumento (foli ou kosiri). Já as funções sociais são das mais diversas, entre elas atuar como conselheiro, diplomata, mediador de conflitos, tradutor de diferentes línguas, mestre de estudantes…

"A oralidade africana é sempre vista como expressão de uma força vital. A memória é tida como o depósito sagrado. A tradição oral é o reservatório da acumulação cultural da comunidade, e a memória da oralidade é a da comunidade viva das gerações sucessivas. É a manutenção, a divulgação, a coletividade e a permanência que participam desta dinâmica da oralidade", explica o pesquisador Celso Sisto.

São guardiões da sabedoria de seu povo, das histórias tradicionais de criação coletiva, de um patrimônio cultural comum. Como bem diz o historiador e etnólogo malinês Amadou Hampâté Bâ, “na África, cada velho que morre é uma biblioteca que se queima”.

Os aedos 

Assim como os griôs da África Ocidental, os aedos da Grécia Clássica tinham uma enorme relevância social, já que viviam em viagens e eram a principal fonte de informação da sociedade, junto às amas de leite e às histórias pintadas em peças de cerâmica. Suas canções transcendiam a função de alegrar banquetes gregos, dos quais participavam. Narravam histórias de tempos imemoriais, mas também contavam o que ocorria naquela época no Mediterrâneo.

E foi assim, viajando de cidade em cidade contando suas histórias, que tiveram um papel fundamental na consolidação da identidade grega. Aliás, muitos pesquisadores acreditam que os aedos tenham surgido justamente em Creta, ilha que tinha uma forte necessidade de criar uma sensação de pertencimento às póleis da planície do Peloponeso e das ilhas do mar Egeu.                                                                                                                                                              

Os menestréis ou trovadores

Já na Idade Média europeia, esse papel de contador de histórias era ocupado pelos chamados menestréis ou trovadores, figuras que circulavam em regiões de maior concentração populacional, em geral lugares onde ocorria uma peregrinação intensa, como Santiago de Compostela (na Galícia), Roma e Jerusalém. Algumas regiões eram paradas obrigatórias desses peregrinos, como Provença, na França (para aqueles que desejavam atravessar o Mediterrâneo), e Lombardia, na Itália (para os que queriam chegar a Roma). Esses trovadores não só narravam acontecimentos e informavam as pessoas, mas também retratavam aspectos do cotidiano, sendo os principais produtores da literatura popular naquela época, naquela região. Recitavam, assim, poemas sobre reis e rainhas, cavaleiros, santos e seus milagres, que foram ainda mais difundidos com as cruzadas.

Os jograis                                        

Outros contadores de histórias daquela época eram os jograis, palavra que vem do latim jocus (jogo). Era a pessoa que divertia o rei ou o povo. Enquanto os trovadores frequentavam os ambientes das cortes, os jograis eram artistas populares, presentes em praças, feiras e tavernas. Eram contadores de histórias, mas também participavam do universo do canto, da música e da dança. Além disso, entretinham as pessoas com apresentações de malabarismo, paródias e trejeitos.

Se os aedos destacavam-se pela sua permanente itinerância, o mesmo valia para os jograis, que viajam não apenas geograficamente pela Europa, mas movimentavam-se entre as diferentes classes sociais da época. O medievalista suíço Paul Zumthor ainda lembra da capacidade de formação de opinião atribuída aos jograis, nomeando-os como “portadores da voz poétoca”, “detentores da palavra pública” e “porta-vozes do mundo medieval”.

Nas viagens conheciam os personagens de suas histórias: cavaleiros, frades, estudantes, camponeses… As taxas de pedágio para entrar nas cidades eram pagas com o seu trabalho – um espetáculo para os moradores daquele lugar. Também recebiam, como agradecimento à quebra da monotonia do dia a dia, alojamento, comida, animais, roupas, calçados, armas e objetos variados, que, quando não podiam transportar, vendiam para conseguir algum dinheiro. 

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