Música é uma língua falada no dia a dia

 

As crianças aprendem música de muitos jeitos: pulando corda, dançando em roda ou cantando um coco, ritmo tradicional pernambucano. Brincando, as crianças podem aprender no corpo sobre duração, timbre e pulsação. É que a música é como a língua, exercitada no dia a dia.

Assim defende Estêvão Marques, que desenvolve um trabalho de aprendizagem da música pela prática e pelo contato com o próprio corpo. Ele integra os grupos musicais Palavra Cantada e Triii, além de ser contador de histórias e pesquisador da área, tendo ministrado palestras na Turquia, na Colômbia, na Argentina, no Uruguai, na Espanha e nos Estados Unidos. É ainda autor de livros como Colherim – Ritmos brasileiros na dança percussiva das colheres (ed. Peirópolis).

 

Ilustração Marcelo Tolentino

 

Afinal, se não aprendemos a falar lendo livros de gramática, por que temos de aprender música lendo partituras? É isso o que questiona o músico, seguindo uma linhagem de pensadores musicais que criticam um método de aprendizagem que afasta as crianças do que pode ser um aprendizado mais prazeroso. “Se música é uma linguagem, como é que a gente aprende a falar musicalmente?”, pergunta.

Mas a comparação entre a linguagem verbal e a linguagem musical vai além do aprendizado. Ambas são inerentes ao ser humano, passíveis de desenvolvimento. “Você aprende a falar porque as pessoas ali do seu lado estão falando português, mas a partir do momento em que você começa a ler mais literatura, um Guimarães Rosa, por exemplo, você amplia o seu universo de comunicação. Com a música, é igual.”

Há música em tudo o que fazemos, ele explica. Nas brincadeiras, nos tempos de bola, na capoeira, nas festas populares – das danças do Carnaval às festas do Divino. “Quando a gente começa a desenvolver ou estudar música de uma maneira orgânica, brincando, a gente vê que é músico e não sabia”, diz o pesquisador, fazendo referência à Lei 11.769, aprovada em 2008, que inseriu a música no currículo escolar.

Com a medida, professores que tinham a música como hobby tiveram que se aprimorar. “A gente mostrou para o professor que ele sabe muito, e que se ele faz essas brincadeiras na escola, no intervalo, ou 45 minutos por semana, ele já está fazendo um trabalho muito bonito, e que vai dar muitos frutos no futuro. E é muitas vezes o que é possível na escola hoje”, diz Estevão, que atua na formação de educadores. 

Ele enfatiza que os educadores têm como importante fonte as canções folclóricas e as brincadeiras infantis. E é tendência em todo o mundo valorizar a cultura popular na educação musical. “Em todo o canto tem pessoas querendo saber: ‘E você? De que país você é? Que brincadeiras a sua avó cantava? Que brincadeiras tem no interior do seu país? Qual é a música tradicional?’. A cultura popular traz conceitos básicos para uma vida melhor em sociedade, para convivência em grupo”, conta.

Além disso, uma linguagem é aprendida mais facilmente se carregada de afetos. Da mesma forma que aprendemos melhor a falar com nossos pais, a música como linguagem deve ser aprendida de maneira positiva, brincando, fazendo. “Assim, a gente consegue saborear esse novo conhecimento de uma maneira mais divertida, e fica hipnotizado por essa linguagem musical”, conta o pesquisador, filho do músico, brincante e poeta Chico dos Bonecos e de uma mãe (“rainha do Carnaval”) que logo cedo colocou em suas mãos um pequeno tamborim.

Estevão nos lembra do poder de expressão da linguagem musical. Cantamos quando estamos tristes, alegres, pensativos. Fazemos amigos, trocamos ideias. Lembramos de momentos da nossa vida apenas com uma combinação de notas. “Música é uma linguagem que faz com que nos comuniquemos melhor e, quando conseguimos isso, melhoramos a nossa qualidade de vida”, afirma.