Muito mais do que 13 motivos

Muito tem se falado sobre suicídio nas últimas semanas. O tema vem à tona com o lançamento da série exibida na Netflix 13 Reasons Why, narrativa da adolescente Hannah, que tira a sua própria vida e deixa fitas àqueles que considera responsáveis por sua morte. No mesmo período, virou assunto um desafio virtual chamado Baleia Azul, em que jovens que decidem participar têm de passar por 50 etapas, sendo a última delas de tirar a própria vida.

Apesar da grande repercussão sobre o problema, a sua gravidade é antiga. Dados do Mapa da Violência de 2014 (os mais recentes sobre o tema) são alarmantes. Entre 1980 e 2012, o aumento da taxa de suicídio foi de 61,8% para crianças de 10 a 14 anos. Na última década (de 2002 a 2012), o aumento da taxa para jovens (de 15 a 24 anos) foi registrado em todas as regiões do Brasil, com exceção da região Sul. O Norte destaca-se, com uma alta de 64,6%.

Por isso a cientista política Dayse Miranda coordena o GEPeSP (Grupo de Estudo e Pesquisa em Suicídio e Prevenção), vinculado ao Laboratório de Análise da Violência da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (LAV/UERJ). “Do ponto de vista da saúde, o que a gente vê é um adoecimento psíquico e emocional de jovens por perda de esperança, por depressão”, conta. Do ponto de vista social, não há pesquisas que expliquem o crescimento, que mostrem a realidade desses adolescentes. “Afinal, quem são esses jovens? Onde vivem? O que pensam?”, questiona.

O que a especialista observa é um crescimento do fenômeno em jovens de países em desenvolvimento. Como fatores que poderiam contribuir para isso, arrisca o desemprego e um mercado de trabalho extremamente disputado, sem poder demonstrar por meio de pesquisas específicas. Outros fatores de risco são a violência de gênero, o uso de álcool e drogas e o bullying. Sinais que são considerados comuns entre jovens (e que também podem ser alertas) são o uso excessivo de internet, isolamento e agressividade.

Aos pais, cabe buscar informação. Ouvir o que seus filhos têm a dizer, conhecê-los. “A primeira coisa é o pai conhecer o seu próprio filho, seja criança, seja adulto. Segundo, buscar conhecer mais sobre o que é a depressão, que é uma doença. Depressão tem cura. É possível, isso existe.” O acolhimento deve ser feito por meio de perguntas, não afirmações. O jovem pressionado, julgado, não vai se abrir, em especial se estiver em sofrimento.

Às escolas, cabem os debates. Há de se desconstruir preconceitos: nos professores e nos alunos. Existe um tabu em torno do assunto, devido ao que se chama “Efeito Contágio” ou “Efeito Werther”: falar do assunto pode inspirar ondas de casos por imitação, como ocorreu na Alemanha do século XVIII, após a publicação da obra Os sofrimentos do jovem Werther, de Goethe.

Na prática, o que se deve fazer é uma abordagem responsável sobre o assunto, mais informativa, instruindo o espectador a não cometer o ato, como orienta o Manual comportamento suicida: conhecer para prevenir, da ABP (Associação Brasileira de Psiquiatria), voltado aos profissionais de mídia.

É aí que a série da Netflix poderia, na opinião da estudiosa, melhorar: “Ela não funciona em um sentido mais responsável, no sentido de informar. O que os pais, os professores fazem diante disso? Ela perdeu nesse sentido, de não apresentar possíveis saídas”.

Outros problemas apontados foram a atribuição de culpa, fator que já costuma vir acompanhado de um ato de suicídio, como Dayse observou na pesquisa “As vítimas ocultas da violência urbana”, realizada em 2007, na cidade do Rio de Janeiro. Por fim, a divulgação da cena de suicídio: “Acho aquilo desnecessário. É o primeiro item que o manual coloca: não se deve divulgar imagens, porque isso gera efeito contágio”. E acrescenta: “Você não deve pensar com a sua cabeça, mas com a cabeça de quem está doente, que precisa apenas de um estímulo visual para tomar coragem e fazer”.

 

Quem pode ajudar

 

Centro de Valorização da Vida (CVV)
A instituição é uma das mais sérias do país. Iniciou os trabalhos em 1962, na cidade de São Paulo, e hoje tem 70 postos de atendimento em todo o país. Os voluntários se colocam à disposição para ouvir sem julgar ou dar sermão.
Acesse: cvv.org.br ou disque 141.

Associação Brasileira de Familiares, Amigos e Portadores de Transtornos Afetivos (ABRATA)
Associação sem fins lucrativos, voltada à necessidade de atender pessoas portadoras de transtornos do humor: a depressão e o transtorno bipolar, assim como seus familiares e amigos.
Acesse: abrata.org.br

Clínica Psicológica Ana Maria Poppovic

O instituto ligado à PUC de São Paulo faz atendimentos, avaliações e orientações. Contato pelo telefone (11) 3862-6070 ou pelo site.

Fênix – Associação Pró Saúde Mental
Essa organização foi criada em 1997 com o intuito de dar apoio aos portadores de transtornos mentais e a seus familiares. A Associação Fênix oferece auxílio e informações via o e-mail fenix@fenix.org.br, pelo site e pelo telefone (11) 3208-1225.

Vita Alere

O Instituto de Prevenção e Posvenção do Suicídio oferece atendimentos, cursos para leigos e profissionais, treinamentos, consultoria, pesquisa científica, grupos de apoio aos enlutados. O contato pode ser realizado pelo telefone (11) 5084-3568 ou pelo site

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Ilustração: Marcelo Tolentino