Minhas memórias de Lobato

 

Na infância, a cartunista Laerte usou um saiote grego inspirado em Os doze trabalhos de Hércules, narrado na obra de Monteiro Lobato, durante o Carnaval dos idos de 1960. O roteirista Flavio de Souza leu e releu incansavelmente Reinações de Narizinho. Já a escritora Heloisa Prieto tem de pronto na memória um personagem de um dos primeiros livros que saboreou quando menina: O Saci, na versão lobatiana, quase decorada pela leitora curiosa sobre a criaturinha que dava nó nas crinas dos cavalos da fazenda onde passava as férias. Qual é o adulto que não tem uma história do pai de Emília e toda a turma para contar? 

 

Ilustração Marcelo Tolentino

 

Confira algumas histórias memoráveis a seguir.

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O saiote grego

“Gostei especialmente d’Os doze trabalhos de Hércules, que tem n'O Minotauro uma espécie de anexo. Talvez exista ainda uma foto, nos guardados da minha mãe, de um Carnaval em 60 e poucos em que eu me vesti de grego, secretamente adorando estar de saiote. Talvez não tão secretamente.”

Laerte é cartunista e chargista paulistana, considerada uma expoente dessa arte no país, além cofundadora da ABRAT (Associação Brasileira de Transgêneros)

 

“Esta conversa ocorria no Sítio do Picapau Amarelo, entre a boa Dona Benta e seu neto Pedrinho. E o assunto recaíra em Hércules porque o garoto estivera a recordar passagens das suas aventuras na Grécia Heróica, como vem contado no O Minotauro.

— E se voltarmos para lá? — exclamou Pedrinho. — Aquela Grécia não me sai da cabeça, vovó...

— Para que, meu filho?

— Para assistirmos às outras façanhas de Hércules. Só vimos uma: a destruição da Hidra de Lerna. São doze…”

Os Doze Trabalhos de Hércules 

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Amizade de Sacis

“Meu primeiro livro, Gnomos e duendes, contém uma descrição do Saci. O Saci do Lobato foi um dos primeiros livros que li na infância, quando passava as férias na fazenda de meu avô. Na fazenda Santa Inês, onde vivi grande parte da infância, toda criança jurava que sacis eram criaturas minúsculas, estranhos bebês da noite, enfiados dentro de pequenos redemoinhos, que se ocupavam em emaranhar as crinas e caudas dos cavalos. E eu pensava: ‘Se os sacis gostavam tanto de cavalos como eu, por que temê-los?’. Mas na cidade ninguém os via da mesma maneira e, muitas vezes, se eu tentasse falar deles para os colegas, causava estranheza. Portanto, quando meu querido tio Paschoal me presenteou com O Saci, de Monteiro Lobato, foi como se eu tivesse finalmente encontrado um lugar onde o Saci podia habitar com toda sua capacidade de desafiar e fazer folia. Língua afiada, histórias esquisitas, muita irreverência, o Saci me encantava, agora nas páginas que eu quase decorava. Desde a primeira leitura, O Saci, bem como todas as obras do Sítio do Picapau Amarelo, abriam um mundo além dos universos da cidade e do campo, um lugar de mentira onde a verdadeira qualidade imaginativa das infâncias podia espalhar-se feliz e confortavelmente.”

Heloísa Prieto é escritora, pesquisadora cultural e tradutora, tem mais de vinte obras publicadas pela Companhia das Letrinhas, onde habitam “personagens fantásticos, criaturas da noite e jovens urbanos”

 

“— É aqui, dentro destes gomos, que se geram e crescem meus irmãos de uma perna só — disse o saci. — Quando chegam em idade de correr mundo, furam os gomos e saltam fora. Repare quantos gomos furados. De cada um deles já

saiu um saci.

Pedrinho viu que era exato o que ele dizia, mostrou desejos de abrir um gomo para espiar um sacizinho novo ainda preso lá dentro.

— Vou satisfazer a sua curiosidade, Pedrinho, mas não posso revelar o segredo de furar os gomos; portanto, vire-se de costas.

O menino virou-se de costas, assim ficando até que o saci dissesse — “Pronto!” Só então desvirou-se e com grande admiração viu aberta num gomo uma perfeita janelinha.

— Posso espiar? — perguntou.

— Espie, mas com um olho só — respondeu o saci. — Se espiar com os dois, o sacizinho acorda e joga nos seus olhos a brasa do pitinho.

O menino assim fez. Espiou com um olho só e viu um sacizinho do tamanho de um camundongo já de pitinho aceso na boca e carapucinha na cabeça. Estava todo encolhido no fundo do gomo.

— Que galanteza! — exclamou Pedrinho. — Que pena o povo lá de casa não estar aqui para ver esta maravilha!”

O Saci

 

 

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Ex-companheiro de reforma

“Um dos meus trechos favoritos de Monteiro Lobato é a fábula do Américo Pisca-pisca, que queria reformar a natureza. Quando eu era pequena, me identifiquei muito com esse personagem, porque eu também gostaria de mudar a natureza e também o mundo, ficava horas pensando em como as coisas poderiam ser diferentes. Por exemplo, eu não me conformava em ter que me levantar para apagar a luz do meu quarto, então inventava mecanismos para poder apagá-la sem sair da cama. Também queria saber quantas vezes eu me virava durante a noite e por isso me amarrava inteira na cama, deixava um fio solto, com uma caneta pendurada nele e um papel, para que ela riscasse o papel toda vez que eu me virasse. Fiquei decepcionada por Pedro ter aprendido a lição de não querer mais mudar as coisas, já que eu achava muito legal trocar as jabuticabas por abóboras.”

Noemi Jaffe é escritora, professora e crítica literária, autora dos livros Írisz: as orquídeas e Não está mais aqui quem falou

 

“Américo Pisca-Pisca tinha o hábito de pôr defeito em todas as coisas. O mundo para ele estava errado e a natureza só fazia asneiras.

—Asneiras, Américo?

—Pois então?!… Aqui mesmo, neste pomar, você tem a prova disso. Ali está uma jabuticabeira enorme sustentando frutas pequeninas, e lá adiante vejo uma colossal abóbora presa ao caule duma planta rasteira. Não era lógico que fosse justamente o contrário? Se as coisas tivessem que ser reorganizadas por mim, eu trocaria as bolas, passando as jabuticabas para a aboboreira e as abóboras para a jabuticabeira. Não tenho razão?

Assim discorrendo, Américo provou que tudo estava errado e só ele era capaz de dispor com inteligência o mundo.

Mas o melhor – concluiu – não é pensar nisto e tirar uma soneca à sombra destas árvores, não acha?

E Pisca-Pisca, pisca-piscando que não acabava mais, estirou-se de papo para cima à sombra da jabuticabeira.

Dormiu. Dormiu e sonhou. Sonhou com o mundo novo, reformado inteirinho pelas suas mãos. Uma beleza!

De repente, no melhor da festa, plaf! Uma jabuticaba cai do galho e lhe acerta em cheio no nariz. Américo desperta de um pulo; pisca, pisca; medita sobre o caso e reconhece, afinal, que o mundo não era tão mal feito assim. E segue para casa refletindo:

—Que espiga!… Pois não é que se o mundo fosse arrumado por mim a primeira vítima teria sido eu? Eu, Américo Pisca-Pisca, morto pela abóbora por mim posta no lugar da jabuticaba? Hum!

Deixemo-nos de reformas. Fique tudo como está, que está tudo muito bem.

E Pisca-Pisca continuou a piscar pela vida em fora, mas já sem cisma de corrigir a natureza.”

Conto O reformador do mundo, na coleção Obra Infantil Completa 

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Para não reformar às tontas

“Lembro-me de quando a professora Marta, do quarto ano do ensino fundamental, explicou sobre democracia. Ela leu passagens da obra A reforma da natureza. Escolho essa obra já que o Brasil está vivendo um momento em que se discute a fragilidade do nosso estado democrático. Essa história de Lobato fez toda a diferença para que, muito cedo, eu e meus colegas pudéssemos compreender que a democracia é possível e busca equilibrar desejos, ideias e posturas. Mas a democracia também exige que a liberdade seja usada com responsabilidade. Sempre que penso em tomar alguma atitude, fazer algum projeto, criticar alguém ou algo, lembro-me dessa história.”

Volnei Canônica, idealizador do clube de leitura Quindim, é especialista em literatura infantil, nomeado em 2015 como Diretor de Livro, Leitura, Literatura e Bibliotecas do Ministério da Cultura

 

“—Que é isto, Emília? Que significam estas mudanças? Emília contou tudo.

—Eu reformei a natureza—disse ela. —Sempre tive a idéia de que o mundo por aqui estava tão torto como a Europa, e enquanto a senhora consertava a Europa eu consertei o Sítio. 

Dona Benta explicou:

—Emília, eu reconheço as suas boas intenções. Você fez tudo na certeza de estar agindo pelo melhor. Mas não calculou uma porção de inconveniências que podiam acontecer. 

—Agora assim —ia dizendo Emília —agora ela deu uma razão boa, clara, que me convenceu, e por isso vou desmanchar o que fiz. Mas com aquele “vá”! do começo, a coisa não ia, não! Vá o Hitler, vá o Mussolini. Comigo é ali na batata, na convicção do argumento científico!

E dessa maneira quase todas as reformas de Emília foram anuladas, mas nenhuma por imposição de D. Benta. A boa senhora argumentava, provava o erro – e então a própria Emília se encarregava de reestabelecer o velho sistema.”

A reforma da natureza

 

 

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A imbatível boneca de pano

“O primeiro livro de Lobato que li foi Memórias da Emília e me apaixonei por ele e pela sapeca boneca de pano logo nas primeiras páginas. Emília sempre foi um modelo para mim: inteligente, perspicaz, criativa e inusitada. Na época eu escrevia diários e as reflexões da personagem foram uma inspiração para mim, como esse trecho que descrevo abaixo. Emília me ensinou que os livros existem para nos fazer pensar e compartilhar nossas ideias com muitas pessoas, e por isso, nos tornamos imortais.”

Januária Cristina Alves é paulistana, mas morou em Pernambuco quando criança. É jornalista, escritora, roteirista e autora de peças teatrais, além de mestre em comunicação social

 

“—E, como sou filósofa —continuou Emília -, quero que minhas memórias comecem com a minha filosofia da vida.

—Cuidado, marquesa! Mil sábios já tentaram explicar a vida e se estreparam.

—Pois eu não me estreparei. A vida, Senhor Visconde, é um pisca-pisca. A gente nasce, isto é, começa a piscar. Quem para de piscar, chegou ao fim, morreu. Piscar é abrir e fechar os olhos – viver é isso. É um dorme-e-acorda, dorme-e-acorda, até que dorme e não acorda mais. É, portanto, um pisca-pisca.

(...)

—Está vendo como é filosófica a minha ideia? O Senhor Visconde já está de olhos parados, erguidos para o forro. Quer dizer que pensa que entendeu... A vida das gentes neste mundo, senhor sabugo, é isso. Um rosário de piscadas. Cada pisco é um dia. Pisca e mama; pisca e anda; pisca e brinca; pisca e estuda; pisca e ama; pisca e cria filhos; pisca e geme os reumatismos; por fim pisca pela última vez e morre.

—E depois que morre? —perguntou o Visconde.

—Depois que morre vira hipótese. É ou não é?

O Visconde teve que concordar que era.”

Memórias da Emília

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Inspiração fantástica

“A parte do Pantasma [em Reinações de Narizinho] é muito, muito, muito legal! Quando eu li, falei ‘eu tenho que desenhar esse ser!. E foi um trecho que me marcou muito porque juntava essa coisa do surreal, de ser um personagem esquisito e interessante, que eu tentei ver se conseguia botar no papel o que ela imaginou. Dei um sorriso largo quando li...”

Alessandra Lemos, a Lole, é publicitária por formação e artista por vocação. Ilustrou a nova edição de Reinações de Narizinho

 

"—Mas eu tenho minhas razões — tornou Emília. — Pantasma nada tem que ver com fantasma. Pantasma é uma ideia que tenho na cabeça há muito tempo, de um bicho que até agora ainda não existiu no mundo. Tem olhos nos pés, tem pés no nariz, tem nariz no umbigo, tem umbigo no calcanhar, tem calcanhar no cotovelo, tem cotovelos nas costelas, tem costelas no... "

Reinações de Narizinho

 

 

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Viagem além do céu

“Na infância, passava férias de verão com a família no sítio do meu avô, na Ilha de Itacuruçá, no Rio de Janeiro. Nessa época, fiquei encantada com a leitura do Viagem ao Céu. À noite, na ilha, o programa preferido era procurar estrela cadente e, quem sabe, um cometa? Ou, até mesmo, um disco-voador. Vimos, pela primeira vez, as crateras da Lua pelo telescópio antigo do meu avô. Nos jornais só se falava do primeiro homem na Lua. Tudo isso somado à aventura em que os Picapaus fizeram pela Via Láctea, na cauda do cometa e mais mil peripécias fez com esse livro fosse tão marcante para mim.”

Luciana Sandroni é autora de vários livros infantojuvenis premiados, como Minhas Memórias de Lobato, com ilustrações de Laerte

 

“Aquilo até parecia fábula. Estarem montados num cometa, a voarem com velocidade de cavalos-luz, era coisa que quando fosse contada aos povos da Terra havia de provocar sorrisos de incredulidade.

(...)

E na corrida louca passavam perto de quantas constelações existem pelos céus.

— Lá está a Grande Ursa — explicava Pedrinho. — E agora vamos nos aproximando da Constelação de Cassiopeia e da Constelação da Girafa…

Todos se admiravam da sabedoria de Pedrinho. Parece que sabia de cor todas as estrelas do céu. Em certo ponto Emília pediu:

— Não se esqueça de me chamar a atenção quando passarmos perto da Cabeleira de Berenice. Fiz aquela promessa a São Jorge e tenho de cumprir. (...)

E Pedrinho estava a explicar tudo isso minuciosamente, com muitos gestos e micagens, quando, de repente, perdeu o equilíbrio e caiu do cometa abaixo, exatinho como quem cai de um cavalo xucro, e lá rodou pelos espaços infinitos.

— Acuda! — berrou Narizinho na maior aflição. — Pedrinho caiu no éter.”

Viagem ao Céu

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Muitas (re)leituras

“Meu trecho favorito é a parte que acontece na Lua, em Viagem ao céu. Não foi o primeiro que eu li. Como a maioria das pessoas, comecei pelo Reinações, que, aliás, foi o primeiro livro que li. E o primeiro que reli. E o único que reli muitas vezes. Muuuito anos depois, criei e escrevi o seriado Mundo da Lua, para a TV Cultura, e acabei me vendo no meio de uma confusão por causa de problemas de produção por conta do episódio em que o Lucas Silva e Silva vai para a Lua com o avô e eles se encontram com São Jorge, o que era inevitável que acontecesse –pelo menos na minha cabeça!”

Flavio de Souza foi criador e roteirista de séries como Mundo da Lua e Castelo Rá-Tim-Bum, além de tradutor, desenhista, ator, diretor e autor de diversos livros infantis

 

“— Pois eu também sei uma coisa da Lua que quero ver se é certa. O peso de tudo aqui é mais de seis vezes menor que lá na Terra. Um quilo lá da Terra pesa aqui 154 gramas. Eu, por exemplo, que lá em casa peso 46 quilos, aqui devo pesar 7 quilos!... É pena não termos uma balança para verificar isso.

— Há um jeito — lembrou o burro. — Dê um pulo e veja se pula seis vezes mais

longe que lá no sítio.

Pedrinho achou excelente a idéia. Os melhores pulos que ele havia dado no sítio

foram: pulo de altura, 1 metro e 20; e de distância, 5 metros. Se ali na Lua ele pulasse seis vezes e pouco mais longe que no sítio, então estavam certos os cálculos dos astrônomos.

Pedrinho amarrou o burro numa ponta de pedra, marcou um lugar no chão, deu uma carreira e pulou — e foi parar exatamente a 33 metros de distância, mais de seis vezes o seu pulo recorde lá no sítio! E no pulo de altura alcançou mais de 8 metros. Um assombro!...”

Viagem ao céu

 

 

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