Manifesto de design em forma de alfabeto

 

Se “a” é de avião, “b” é de borboleta e “c” é de caracol, tem também L de livro, primeira publicação do Estúdio Lógos voltada ao público infantil. Na obra, com cores vivas e linhas simples, as ilustrações saltam aos olhos pela forma intuitiva com que comunicam as letras do alfabeto sem utilizar uma única palavra: as letras encontram-se escondidas nos traços dos desenhos.

Nas asas da borboleta mora a letra “b”, já o “e” se esconde numa escada. Quem olhar bem vai achar um “j” contornando uma jarra e o desenho do “u” na própria unha. “Tentávamos pensar em objetos que pudessem ser desenhados seguindo ao máximo o desenho da própria letra”, conta Julio Mariutti, fundador do Lógos e coautor da obra, em parceria com mais três integrantes do estúdio – Alice Viggiani, Bruno Araújo e Deborah Salles.

 

 

Segundo o autor, o design pode contribuir para o aprendizado da criança. “Pode reduzir distrações, tornar a informação mais clara, tornar o processo divertido e instigante”, afirma. “No caso específico do nosso livro, tentamos criar um jogo divertido que associasse letras a palavras e imagens que fossem facilmente reconhecidas e lembradas.”

A seguir, saiba mais sobre o processo criativo da obra, um verdadeiro manifesto de design em forma de alfabeto.

Origem

Em sua concepção original, o livro se chamaria Avestruz. Para isso, foi feito um estudo com palavras que começassem com “a” e terminassem com “z”, o que o título tornaria uma metáfora do próprio livro. A capa, então, seria um desenho semelhante aos demais, mas, em vez de trazer apenas uma letras escondida, traria duas. Com o pensamento de que a capa seria indecifrável, a ideia foi abandonada. E nasceu por L de livro.

Processo

No projeto, todos ajudaram na busca dos objetos que formariam cada letra, a partir de simples rabiscos no papel. Já no computador, uma pessoa trabalhava no desenho e na fonte da letra, que passavam por uma discussão coletiva para entender o que poderia ser melhorado. Foram muitas as experimentações de objetos para cada letra até chegarem às escolhas finais.

 

 

Regras

Para que o trabalho coletivo tivesse uma unidade, a equipe estabeleceu algumas regras, cada página funcionando com uma obra gráfica, como um cartaz. Assim, foram utilizadas só formas geométricas simples, como retângulos, círculos e triângulos; cada letra ganhou uma forma geométrica que impõe a linguagem aos desenhos; o leitor deveria ver o desenho e pensar inequivocamente naquela palavra; a cada objeto foi adicionado o mínimo de desenho para que pudesse ser identificado; o livro foi todo feito com as mesmas referências de alinhamento e dimensão para os objetos.

Cores

A proposta era de que o processo de composição das cores fosse evidente. Elas deveriam mostrar-se puras e sobrepostas. “O livro é muito mais sobre design do que sobre o alfabeto”, explica Julio. “Em todos os projetos buscamos um desenho que de alguma forma mostre como ele é feito – o grid, as cores, os materiais, os processos. Então o livro é quase um manifesto sobre o nosso uso da cor no design gráfico.”

Como não poderia ser diferente, a etapa de escolha da paleta de cores também contou com algumas regras. Das quatro cores CMYK (ciano, magenta, amarelo e preto), o preto foi destinado ao traçado da letra. As demais três cores seriam utilizadas nos desenhos, em 100% e em 50%. Além disso, decidiram por usar as três cores secundárias (a sobreposição de cada par das primárias em 100%) e mais seis terciárias (uma primária em 100% e outra em 50%).

Depois dessas decisões, o resultado vívido foi obtido ao trocar as cores CMYK por cores mais ou menos equivalentes em uma paleta neon, com mais luminosa e saturada.

 

Design para crianças

Esse foi o primeiro trabalho do Estúdio Lógos voltado às crianças, já que o espaço costuma trabalhar com projetos de sinalizações, exposições e criação de objetos. A ideia de trabalhar para esse público surgiu a partir das experiências da filha mais velha de Julio, que, na época, tinha seus três anos de idade e estava descobrindo o mundo letrado. “Ela estava muito interessada nas letras do alfabeto, e pensei em associar cada letra a um objeto para ajudá-la a reconhecê-las”, conta.